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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O Efeito do Tempo e as Amizades

Esse tema foi sugerido por um amigo que, curiosamente, passou a fazer parte de meu círculo de amizades há pouco tempo (nem por isso menos importante que os de longa data). Entendo que cada um de nós representa um complexo e fascinante sistema de engrenagens que necessita de manutenção esporádica adequada. É sempre muito fácil aceitar tudo que nos é semelhante, tudo que nos identificamos. Difícil, porém muito mais estimulante, é aceitar as diferenças. Muitas vezes, nos ocupamos demais em moldar quem participa de nosso convívio de acordo com nossas expectativas, mas não podemos programar a atitude dos outros. Podemos responder por nossos atos, mas não me parece saudável esperar reciprocidade integral. Melhor seria conhecer a si próprio e compreender o próximo.
Assim como tudo que existe, a amizade sofre a ação do tempo e é comum que haja desgastes que necessitem de atenção, mas isso não nos torna menos preciosos. Certos níveis de amizade são resistentes aos efeitos do tempo e espaço, prevalecendo seu frescor independente de distância e período. Cada qual segue seu caminho e não devemos lamentar as idas e vindas, mas sim promover a celebração dessas múltiplas trajetórias.
Ideias contrárias, divergências, críticas... Tudo isso pode ser muito bem-vindo, desde que sejamos flexíveis e saibamos reconhecer o que nos acrescenta. O que sobrar, que nos sirva de alicerce para solidificar nossas relações, pois nos dará o conhecimento necessário para pisarmos com segurança.
Longe de ser uma ciência exata, a amizade também segue suas lógicas... De preferência, mais para biológicas que cronológicas.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sorriso-Moeda

Não sou nenhum luthier, mas quando necessário faço manutenções básicas em meus instrumentos musicais. Há tempos que venho prometendo consertar o violão de meu pai. Tal violão tem, além de uma ótima acústica, uma história bem bacana. Fora o primeiro violão que meu pai comprou aos dezessete anos, antes de ter saído do Rio Grande do Norte para vir morar aqui no Rio de Janeiro. Assim como eu, meu pai aprendeu sozinho a arranhar suas modinhas. Meio século de canções e algumas tarraxas quebradas, vários desgastes e arranhões. Meu pai chegou a comprar dois substitutos, mas sempre se queixava afirmando que seu antigo violão potiguar era muito melhor.
Depois de lixá-lo e envernizá-lo, comprei paletas de tarraxas novas e fiz uma peregrinação por várias lojas em busca dos parafusos exatos. Nunca pensei que fosse tão difícil encontrá-los. Por fim, cheguei em uma loja onde fui atendido pelo dono, um sujeito bonachão, receptivo e atencioso. Quando mostrei o parafuso que eu procurava, ele perguntou “Está com paciência?”. Balancei a cabeça afirmativamente e ele me trouxe um pote grande com centenas de parafusos de vários calibres e modelos diferentes. Ele me ajudou a procurar alguns que fossem parecidos com os que eu precisava e conseguimos separar um punhado. Perguntei a ele quanto me custaria.
_ Apenas um sorriso – respondeu-me.
Depois de tanto procurar os parafusos, não esperava um preço tão camarada. Para disfarçar minha “sem-gracice”, perguntei em tom de brincadeira:
_ Posso deixar fiado?
Ambos rimos e, com o valor devidamente pago e com direito a troco, nos despedimos.
Quando entreguei o violão a meu pai, seu sorriso fez valer todo esforço e me dei conta do quão valioso e rentável é negociar com “sorriso-moeda”.
Sorrir é sempre um bom investimento, não nos custa nada e o retorno é garantido. Difícil entender como, ainda assim, há tantas pessoas que insistem em ser inadimplentes.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Papo-Família em um Futuro Próximo

_ Papai, eu já sei o que quero ser! Vou fazer a faculdade de medicina!
_ Mas nem pensar! Eu lutei a vida toda estudando e trabalhando duro para poder oferecer o melhor a você!
_ Mas eu descobri minha vocação! Eu quero ajudar às pessoas!
_ E quem vai te ajudar quando estiver passando fome? Acha que médicos ganham bem? Eu já planejei seu futuro! Você será modelo, atriz e dançarina!
_ Papai, já lhe ocorreu que isso é impossível?
_ Não há nada que nos impeça! Eu pensei em tudo! Você vai malhar muito, colocar uns silicones, terá aulas de dança... Economizei muito para isso! Com todos os recursos tecnológicos oferecidos faremos de você uma mulher perfeita! Vai custar caro, mas é um investimento de retorno garantido e rápido!
_ Mas pai, eu só tenho 13 anos!
_ Verdade, mas essas coisas a gente tem que começar cedo!
_ E como eu faria sucesso?
_ Isso é fácil! Precisamos providenciar algum escândalo! Algo que choque a sociedade! Aí você dá sua versão dos fatos e dividirá opiniões! Alguns terão raiva de você, mas muitos te amarão por sua atitude audaciosa!
_ Escândalo?! De que tipo?
_ Isso podemos ver mais tarde. Poderia ter algo a ver com incesto, zoofilia, necrofolia... O negócio é quebrar tabus! Infelizmente não sobraram muitos hoje para serem quebrados.
_ Pai, não sei se quero isso pra mim...
_ Você não sabe nada sobre a vida! Médicos, cientistas, filósofos, juízes... O mundo não precisa mais disso! O que a humanidade quer é bunda! Se é bunda que o povo quer é bunda que daremos! Esqueça o talento, o discernimento, a razão! Deixe seu pai aqui cuidar de sua carreira e te garanto que em breve seu nome será mais conhecido que o da Lady Gaga!
_ Lady o quê??
_ Deixa pra lá, não é do seu tempo...
_ Bom, papai... Sua intenção parece muito boa, mas há um pequeno detalhe que você não está considerando.
_ Qual?
_ Esqueceu que sou menino?
_ Por enquanto, filho... Por enquanto...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Tamanho de Nossa Casa (ou A Responsabilidade de ser Feliz Através do Outro)

Onde começa e termina sua casa?
Imagine-se eleito para administrar uma cidade cheia de problemas. Você pode até se sentir lisonjeado no início, mas as cobranças vêm logo em seguida. Alegarão sua incompetência até que seja destituído do seu cargo. A questão é que os problemas já estavam ali antes de você chegar. Problemas de longa data por conta de administradores incompetentes, descaso das autoridades e, principalmente, da indisciplina e imprudência de grande parte da população que, culturalmente, se condicionou a espalhar lixo, destruir o patrimônio público e reclamar da vida. Como protesto, o povo perde o interesse na política, como se a falta de interesse os tornasse isento das conseqüências de uma escolha equivocada de seus representantes. Votamos em corruptos consagrados ou em pessoas descompromissadas com o bem comum. Fazemos da política uma piada, um circo onde os palhaços somos nós eleitores.
O que veio primeiro: os problemas ou a necessidade da queixa? Ainda que tudo fosse diferente, lá estaríamos nós para reclamar e escolher alguém que pudéssemos pôr a culpa.
Alguém considera atraente tornar-se responsável pela felicidade de alguém? Conheço pessoas que tem como meta de vida encontrar seu grande amor como solução de todos os seus problemas. Pessoas frustradas que esperam encontrar no outro tudo que precisam. Seria justo esperar do outro a solução definitiva de nossas angústias? Será que devemos atribuir a alguém tamanha responsabilidade? Sempre estamos dispostos a exigir muito do outro, mas esquecemos de exigir de nós.
O que temos feito por nós mesmos? Felicidade não é um bem que se conquista, mas um exercício de prática constante. Felicidade não é ausência de problemas, é uma opção de como lidar com os fatos.
Há quem calcule seu lar pelas paredes que o cercam. Nossa casa não está apenas da porta para dentro. Nossa casa também está da porta pra fora. Vamos arrumar a casa e sejamos dignos e merecedores de nossa morada e que o outro (a quem projetamos nossa felicidade) seja o reflexo de nossa dignidade e merecimento.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Memorável Melodia

Em minha curta carreira como músico, há uma melodia que jamais esquecerei. Lá estava eu em cima do palco diante de um público animado que repetia o refrão das canções acompanhado pelos instrumentistas. Em meio a tantas mesas lotadas, era fácil identificar a figura de minha mãe que se destacava por ser a única que permanecia sentada com um semblante abatido e olhar nostálgico. Não compreendia porque ela insistia que eu a chamasse para assistir as apresentações de minha banda se ela deixava claro que não estava se divertindo. Cheguei a prometer a mim mesmo que não mais a convidaria, pois a impressão que eu tinha era de que aquilo não passava de uma tortura para ela.
Quando terminamos, fui cumprimentado pelo público. Seguia para o camarim quando minha mãe me abordou para me dar os parabéns.
_ Parabéns pelo o quê? – a interrompi – Eu olhava para a senhora e só a notava triste! Por que a senhora insiste em me ver cantar se qualquer um percebe que não está gostando? Melhor seria ter ficado em casa, não acha?
Não esperei resposta. Fui ao camarim e, enquanto guardava minha guitarra, pude refletir sobre minhas palavras e percebi como fui severo com minha mãe. Ela não precisava estar ali. Tudo bem que não estivesse confortável, mas não deixa de ser um esforço admirável o de aguentar horas de música alta e gente gritando só para prestigiar seu filho. Entendi que minha intolerância já era coisa antiga. Lembro de como eu me aborrecia quando ela insistia em segurar minha mão para atravessarmos a rua, mesmo quando já adulto. Quantas bobagens mais me afastariam de minha mãe? Talvez fosse hora de deixar de lado todas as dissonâncias do passado e iniciar uma tablatura com acordes simples e pausas.
Saindo do camarim, não precisei me esforçar muito para encontrá-la. Minha mãe permanecia parada no mesmo lugar onde eu lhe dei as costas. Pensei em pedir desculpas, mas, desta vez, foi ela quem me interrompeu:
_ Filho, eu admiro tudo o que faz. Eu agradeço muito a Deus pela pessoa linda e talentosa que você se tornou. Se pareço triste é porque lembro das dificuldades que passamos e me aperta o coração pensar em tudo que eu gostaria de ter feito por você e não pude. Penso em tudo que eu poderia ter feito diferente. Me orgulha todas as suas conquistas, mas me dói perceber que não fui cúmplice de muitas delas.
Senti um bloqueio em minha garganta e minha única reação foi desviar o olhar para um ponto qualquer no chão a procura de mim mesmo. Como se lesse meus pensamentos, ela concluiu:
_ Desculpe se eu o aborreço quando insisto em pegar sua mão para atravessarmos uma rua. Sei que você não gosta, mas não é que eu esteja te tratando como criança... Sou eu que preciso de seu apoio, pois assim me sinto mais segura. Você me entende, filho?
O bloqueio em minha garganta foi destruído a golpes de lágrimas e pedidos de desculpas. Não havia nada mais a ser dito, pelo menos não em palavras. Peguei-a pela mão e a conduzi até a mesa.
_ Vem, mãe... Vamos assistir a próxima banda.
Em minha eterna carreira como filho, há uma mãe que jamais esquecerei.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Certas Coisas São Insubstituíveis...

_ Já posso tirar a venda?
_ Calma, já estamos chegando!
Adilson nunca foi um cara de farra. Caseiro, reservado, tímido... Dizem que foi a Heleninha quem tomou a iniciativa do namoro. Se conheceram nos tempos de escola e, depois de muito planejamento, finalmente estavam de casamento marcado. Claro que seus melhores amigos tinham que preparar uma despedida de solteiro memorável, então Moacyr, Anselmo, Ubiratan, Humberto, Clauderval e eu o levamos para um meretrício conhecido na área como “Caverna do Dragão”. Só pelo nome é possível imaginar o tipo de mulher que trabalha lá. Dessas que fazem “compreta” por 30 “real”. Ninguém da turma (que eu saiba) freqüentava tal estabelecimento, mas achamos o cenário muito apropriado para a despedida de solteiro de nosso amigo.
_ Agora sim, pode tirar a venda!
_ Vocês me trouxeram para um inferninho...
Havia um tom de espanto e encantamento na voz de Adilson. Não demoramos a nos acomodar e curtir o ambiente, ora beliscando as nádegas das “primas”, ora bebericando uma cerveja de quinta categoria.
_ Meninas! _ anunciou Clauderval _ Hoje é a despedida de solteiro de nosso amigo! Queremos tratamento VIP!!
A mulherada nos rodeou no ato, cobrindo-nos de toda atenção. Adilson sequer piscava. Convencemos a mais assanhadinha a fazer uma dança sensual para nosso amigo. Ela mostrou todo seu molejo ao som de Dicró. Sugeri a brincadeira da tequila, mas, na falta da mesma, usamos conhaque de alcatrão. Adilson tomava uma dose e depois lambia o sal que jogávamos em partes estratégicas do corpo de alguma menina e depois chupava o limão que sabe-se lá Deus de onde saiu.
Faltava pouco para amanhecer o dia quando Humberto sacudiu Adilson dizendo: “Aproveita bem, pois é só esta noite! Daqui a uma semana vai estar casado e não terá nunca mais uma noite como essa!”
Adilson deixou de lado a mulata “Tiamat” que o judiava com seus volumosos seios de enormes auréolas negras e mamilos salientes. Parecia um momento de iluminação. Uma epifania.
“E quem disse que esta noite precisa acabar?” Todos acharam graça quando Adilson disse essas palavras.
_ Vamos nessa, cachorrão! _ disse Ubiratan _ Temos que te entregar inteiro para dona Heleninha!
_ Não! _ protestou Adilson _ Se vocês quiserem ir, tudo bem, mas eu vou ficar!
_ Está louco, Adilson? _ Moacyr já meio preocupado _ Acha que isso aqui é de graça? Vai ficar aqui até quando?
_ Eu tenho muito dinheiro guardado! Economizei a vida toda para casar! Eu não fazia idéia do que estava perdendo! Os prazeres que a solteirice oferece! Avisem a Heleninha que sinto muito, mas não voltarei para casa! Meu lugar é aqui!
Apesar de nossos protestos, não fomos convincentes com nossos argumentos e achamos melhor irmos embora antes que Adilson nos convencesse a ficarmos também. Saímos da Caverna do Dragão deixando “Uni” para trás (se bem que hoje desconfio que era o próprio “Mestre dos Magos”).
Quatro anos se passaram e Helinha ainda não fala conosco. Clauderval casou-se, mas não quis saber de despedida de solteiro. Moacyr mudou-se para a roça. Anselmo entrou pra igreja. Humberto e Ubiratan se assumiram homossexuais e moram juntos. Eu comprei uma moto, escrevo blogs e continuo solteiro. Dizem que Adilson é o novo proprietário do famigerado meretrício, mas nunca voltei lá pra confirmar.
Às vezes lembro daquela noite com um certo arrependimento... Nunca deveríamos ter substituído tequila por conhaque de alcatrão.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Assine

Estou recolhendo assinaturas.
Eu explico:
É que sou doador voluntário de sangue há mais de década e me dei conta que algo estava errado e, para corrigir tal engano, preciso de assinaturas.
Ficou ainda mais confuso? Darei mais detalhes:
Para doar sangue é necessário preencher vários requisitos. Um deles é assinar um formulário atestando a doação. Acontece que eu só posso responder por mim, mas e quanto a todos que fazem parte de mim?
As pessoas não entram, saem ou transitam por nossas vidas à toa. Em tudo há um propósito, seja lá qual for. Há pessoas que acrescentam, outras que subtraem e não depende muito de nossas escolham para que elas surjam em nosso caminho.
Há pessoas que se tornam tão presentes em nossa vida que temos a plena convicção de que nossa estrutura física e mental foi remodelada conforme os novos dados que nos foram inseridos. Pessoas que agora fazem parte de nosso código genético, de nossa cadeia de DNA. Egoísmo é falar de si mesmo no singular. “Indivíduo plural” é o que somos. É tentador falarmos de nós na primeira pessoa, mas transcreva a história de alguém e logo estará rastreando múltiplas biografias.
Quem é você? Você é o sujeito que acompanha sua trajetória na íntegra. É a pessoa que vê tudo a seu redor, menos seu próprio rosto, se não houver o auxílio de um espelho. Você é o ouvinte de seus discursos mentais, de seus planos secretos, de suas reflexões. Deseja ser alguém além disso? Pois é aí que entram todas as pessoas ao seu redor, inclusive as que apenas esbarram em seu ombro em meio à multidão. Vivemos uma constante conexão, mesmo quando nos julgamos desligados. Nenhum gesto passa despercebido, por isso é bom saber bem o que desejamos passar adiante, pois o que distribuímos sempre retorna e, ao retornar, permita que esse reencontro seja constante e deixe que siga. Seja bom ou ruim, viva o que o mundo oferece, mas nunca se apegue. Deixe o rio correr seu fluxo, pois até uma gota de água no deserto cumpre sua meta com a certeza de um dia voltar a ser oceano.
A tudo sejamos atentos, mas nunca isentos.
Ora esclarecido meus motivos, pretendo em breve doar meu sangue, que não pertence somente a mim. Sendo assim, peço a você, que também sou eu, que autorize tal doação. Ainda tem dúvida de quem estou falando? Você leu até aqui, não foi? Então não se espante. Assine.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Perfeitos

_ Feliz aniversário de namoro!
_ Feliz aniversário de namoro!
_ Quem diria... Faz cinco meses que nos conhecemos naquela feira de livros!
_ Parece que foi ontem. Você estava linda com aquele vestido.
_ E você todo charmoso de gravata!
_ Sabe, eu já tinha perdido as esperanças de encontrar alguém como você. Você é perfeita!
_ Hmm... Obrigada! Também adoro estar com você.
_ Sério mesmo. Já me decepcionei tanto com mulheres loucas, ciumentas, compulsivas, burras... Todas tinham algum defeito, mas você não. Você é tudo que sempre sonhei.
_ Você é encantador...
_ Gostou do restaurante?
_ Sim, é belíssimo. Assim como tudo que você faz é lindo.
_ Eu te amo.
_ Também te amo.
_ Um brinde à perfeição!
_ Um brinde ao nosso amor!
_ Bom, melhor comermos, o jantar parece estar maravi... Ei?! O que você está fazendo?
_ Como assim?
_ Por que está segurando o garfo com a mão esquerda?
_ Ora, eu sou canhota. Nunca percebeu?
_ Confesso que estou surpreso...
_ Algum problema?
_ Sei lá... É meio estranho, né?
_ Como assim?? Isso é normal! Muitas pessoas por aí são canhotas.
_ Muitas pessoas têm câncer e eu não considero isso algo normal.
_ Acha que isso é alguma doença?!
_ Já tentou corrigir isso? Tem tratamento? Você podia imobilizar a esquerda e apenas usar a direita. Com o tempo você acaba se acostumando...
_ Não acredito que estou ouvindo isso!
_ Sabe o que é? É que sempre desejei encontrar a mulher perfeita e eu não contava com essa sua anomalia.
_ Pelo amor de Deus! Sou carinhosa, atenciosa, linda, inteligente... O fato de eu não ser destra configura um defeito?? Se enxerga, você também não é perfeito!
_ Ah, é? O que eu tenho de errado?
_ Ora, esses pêlos aí da sua orelha, por exemplo!
_ Do que você está falando? São só uns pelinhos!
_ São horríveis! Me dão nervoso! Parece uma moita!
_ Mas isso se resolve com uma tesoura e uma pinça, já seu caso é bem mais grave.
_ Chega! Não sou obrigada a ficar aqui ouvindo esses absurdos! Vou embora!
_ Ai, droga...
_ Que foi?
_ Esqueci minha carteira no carro.
_ Está dizendo para eu pagar a conta? Você é muito cara-de-pau mesmo!
_ Olha, desculpe... Acho que ando exigente demais. Pode me perdoar? Juro que serei mais tolerante com você.
_ Hmmm... Que gracinha! Tudo bem, meu peludinho lindo. Vou pedir a conta e vamos continuar nossa comemoração lá no seu apartamento, que tal?
_ Vai pagar com cheque?
_ Vou, por quê?
_ E vai assinar com a mão esquerda?! Na frente de todo mundo?!
_ Você é ridículo...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Um brinde

Uma querida amiga e eu combinamos uma cerveja no final do expediente de uma sexta e nos encontramos em um botequim no centro do Rio. Vale ressaltar que botequim tem uma conotação mais nobre quando falamos do centro do Rio. Não me refiro a uma birosca ou buteco e sim a um estabelecimento comercial onde um tira-gosto aparentemente comum é servido como uma iguaria exótica de nome impronunciável como “olives pour apreitivo” (azeitonas para aperitivo em francês, mas este é só um exemplo exagerado).
O bar estava cheio, mas conseguimos um bom lugar. Estávamos prestes a pedir nossa cerveja preferida quando notei no cardápio que eles serviam algumas cervejas nacionais pouco conhecidas além de algumas importadas. Como bom apreciador, conhecia (ao menos de nome) algumas marcas e sugeri que experimentássemos uma cerveja artesanal fabricada em Campos do Jordão. Com o consentimento de minha amiga, chamei o garçom e ele nos serviu cheio de cerimônias com taças especiais para degustação.
O que passo a descrever não pode ser comparado a um mero gole de cerveja. Foi um momento mágico, um novo nível de percepção alcançado, uma celebração ao palato apurado, uma inequívoca experiência de erotização dos sentidos comparado a um orgasmo múltiplo em cada fibra de meu ser (confesso, este é outro exemplo exagerado, mas a cerveja era muito boa mesmo). A temperatura exata, a espuma cremosa, o aroma marcante e agradável... Minha amiga e eu nos olhamos, fizemos uma pausa de silêncio em um transe quase espiritual e sorrimos. Um brinde à sabedoria!
Perguntei ao garçom (que a essa altura já nos tratava com a cordialidade e a desenvoltura de um velho conhecido) quanto custava a tal cerveja e fiquei chocado quando ele me disse que custava o triplo de nossa cerveja preferida (detalhe que nossa cerveja preferida ali custava o dobro do valor que eu pagava em um bar perto de minha casa na Zona Norte). Alegamos que foi apenas para matar nossa curiosidade e pedimos nossa cerveja preferida.
Eis que aconteceu algo que não prevíamos... Ao bebermos nossa cerveja de costume, simplesmente não era a mesma coisa. Não havia sabor, não havia prazer, não havia nada além da sensação de frustração. Não tínhamos como voltar atrás. Havíamos comido (bebido, melhor dizendo) do fruto proibido. Tomamos ciência do bem e do mal. Éramos felizes em nossa ignorância, banhamos nossa alma com o sagrado líquido dourado e fomos expulsos do paraíso. Conhecemos a verdade e a verdade nos aprisionou. Nem os fabulosos pastéis de camarão e queijo com tomate seco suprimiram nossa carência.
Depois de mais algumas garrafas, pagamos uma pequena fortuna por nossa extravagância e seguimos nosso caminho.
Semana seguinte minha amiga me ligou e marcamos outra cerveja. Desta vez fomos a um botequim mais modesto com opções facilmente encontradas em qualquer bar. “A cerveja está ótima”, disse ela com o primeiro gole. Concordei balançando a cabeça e disse:
_ Verdade, mas não é a mesma coisa que a...
Ela não me deixou terminar a frase. Segurou meu rosto com ambas as mãos, olhou-me nos olhos com um olhar de fúria e ordenou:
_ Nunca mais fale sobre aquela cerveja!! Aquilo nunca aconteceu, ouviu? Nunca!
Assenti, meio assustado. Ela acomodou-se na cadeira como se nada tivesse acontecido e voltamos a conversar e saborear nossa cerveja que, naquele momento, era única e inigualável (desta vez, sem exageros).
Tínhamos aberto a caixa de Pandora e agora bebíamos para esquecer.
Um brinde à ignorância!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Ostra

A pequena Marli deixa suaves pegadas na areia enquanto recolhe conchinhas que são cuidadosamente escolhidas pela extensão daquela praia isolada onde viera passar o final de semana com os pais. Acostumada a brincar sozinha, ela faz daquele momento sua aventura. Sua caça ao tesouro. Trazendo consigo um pequeno balde de plástico onde depositava as preciosas conchinhas que passavam por seu exigente crivo. Precisavam ser perfeitas, lisinhas, com a mesma tonalidade de cor, tamanhos e formas congruentes.
Aproximando-se de um píer, percebeu um pescador muito idoso sentado com as pernas balançando no ritmo lento da maré. Do seu lado, sua velha vara de pescar e um balde com algumas ostras. Armado com um canivete, ele abria a ostra e sorvia o conteúdo com tremenda satisfação. “O gosto é meio estranho pra quem não está acostumado”, dizia ele, “mas faz um bem danado pra saúde!”
Como a menina não o respondeu, o pescador sugeriu um novo assunto: “É um tesouro e tanto esse aí no baldinho!” Marli empolgou-se e explicou: “São para minha mamãe! Quero fazer um colar bem bonito para ela! Por isso tem que ser as conchinhas mais lindas do mundo!”
O pescador achou graça e pegou uma de suas ostras. “Pega, menina... Pode ser que aí dentro haja uma pérola.”
Marli fez cara de dúvida, e o pescador esclareceu: “Às vezes é possível encontrar nas ostras uma bolinha branca muito bonita que se chama pérola. As pérolas são muita raras e preciosas. Se tiver sorte, há uma aí dentro e você poderá dar de presente para sua mamãe.”
Marli abriu um sorriso sem tamanho, agradeceu o pescador e voltou a percorrer a praia.
No caminho de volta para casa, Marli olha a tal concha. Será que ali dentro havia mesmo uma pérola? E se sua mãe desse toda importância para essa tal bolinha branca e ignorasse o tesouro tão criteriosamente escolhido? E se não tivesse nada ali dentro?
Marli devolveu a ostra ao mar. Mesmo que houvesse uma pérola, não combinaria com suas preciosas conchinhas.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O Contato

Hoje o baile vai estar bombando! Caprichei no visual glamourosa e porpurinada! Toda cheirosinha! No caminho, um gari me perguntou se o que estou usando é mesmo um shortinho ou uma pintura corporal. Não entendi bem o comentário.
Minha amiga “Peteca” está me esperando na entrada. Claro que este não é o nome dela, é só um apelido carinhoso que os meninos da comunidade deram a ela. Dizem que é porque ela já pulou de mão em mão e gosta de uns tapinhas. Meu nome é Maria de Lurdes, mas não gosto. Geral me chama de Lulu ou de Luleth, a rainha do...
_Luleth, “demorô”, heim? “Vamô entrá” que tá cheio de homem bom lá dentro!
Às vezes ficamos com uns caras. A maioria "são" tudo uns ferrados que só andam a pé, mas servem pra dar uns amassos e pagar as bebidas.
_ Olha ali, Luleth! Maior filé! Coisa de outro mundo!
_ Quem? Aquele cara com um celular esquisito na mão?
_ Ele é meio estranho, deve ser gringo! Nem dança, fica só olhando as meninas!
_ É “rúim” de eu deixar escapar esse “alemão”! Vou mostrar pra ele como se dança aqui no morro!
_ Vai lá, arrasa, nem!
Quando danço, gosto de provocar fazendo caras e bocas. Ainda mais depois de passar a semana inteirinha pegando sol na laje e deixando a marquinha do biquíni visível em meus quadris. Os caras perdem a linha! Comecei leve para não deixar o gringo assustado. Aos poucos fui agitando e pegando mais pesado, com direito a dedinho na boca e tudo! Empinei bem minha bunda e flexionei os joelhos. Movimentos circulares e de vai e vem, como quem simula um coito. Já estava me esfregando toda no gringo quando notei que ele não me dava atenção! Ele só ficava mexendo naquele celular esquisito com um símbolo em forma de meia-lua e algo que parecia um número (que marca seria essa?). Será que ele está olhando para outra mulher? Isso eu não vou admitir! Melhor usar minha arma secreta: descer até o chão!
Rebolei com todo vigor, subia e descia em velocidades alternadas. Já estava toda suada e descabelada quando meu desempenho finalmente pareceu atrair o olhar do gringo. Cheguei bem perto dele e mandei um "papo-reto":
_ E aí? Vai ficar só olhando?
Fomos para um terreno baldio perto do estacionamento e fui logo mandando a real:
_ Não vai pensando que sou “facinha”, não! “Sô” novinha, tá ligado? Não vem achando que vai “fazê” o que quiser comigo!
Mas ele não fez nada. Me olhou dos pés à cabeça e me apontou aquele celular. Será que ele está me filmando pra colocar no youtube? De repente, ele digita alguma coisa no aparelho e finalmente fala alguma coisa:
_ Leitura completa. Resultado negativo. Abortar missão. Retorno imediato.
O alemão deu as costas e entrou no meio do matagal sem nem se despedir! Fiquei “boladona”! Peteca apareceu logo em seguida.
_ Luleth, te procurei feito doida! E aí? Pegou o cara?
_ Não entendi nada! Trouxe ele pra cá, disse a ele que não faço de tudo e, de repente, ele “meteu o pé”! Saiu sem nem dizer tchau!
_ Ai, que grosso! Vem, amiga! Esquece esse bichona!
_ Ei! Que barulho é esse?
Um zumbido metálico seguido de uma corrente de ar quente e luzes florescentes vindos do meio do matagal nos revela uma espécie de veículo com formas circulares flutuando sobre nós. A última coisa que reparei antes daquela nave entrar em órbita e desaparecer entre as nuvens foi o símbolo do celular desenhado na lataria.
_ Nossa! Eu disse que ele era de outro mundo!
_ Merda...
_ Que foi, Luleth?
_ Se eu soubesse que ele não estava a pé, juro que eu teria feito de tudo com ele!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Natureza Vampírica

Vampiros existem? Talvez não sejam tão austeros como o Drácula de Bram Stoker, efeminados como os de Anne Rice ou deformados como o Nosferatu de Friedrich Wilhelm Murnau do expressionismo alemão. Difícil admitir que possam ser algo semelhante aos vampiros de Stephenie Meyer. Minha sobrinha me fez prometer que eu assistiria Crepúsculo (Por que sempre a deixo convencer-me?) e posso afirmar que foi uma experiência literalmente vampírica: o filme sugou-me duas horas de minha vida (sorte eu não ter lido o livro). O sucesso se explica pelo excesso de clichês que sempre funcionam no cinema (amores impossíveis, crise existencial, conflito familiar, barreiras intransponíveis, dilemas de vida ou morte...) somado a interpretações dramáticas exageradas e personagens jovens, charmosos e ricos. Um mix de Barrados no Baile, Melrose, O.C., Buffy, Angel e High School Musical (sem as canções e coreografias). Sou capaz de apostar 400ml de meu O+ que a direção de atores ficou por conta de algum “errepegista”.
Mas, voltando ao mundo real...
Como se não bastasse o ritmo que somos submetidos, os ponteiros do relógio, à rotina e os compromissos inadiáveis, estamos constantemente cercados por cargas negativas que nos exaure as forças. A inveja, a ganância, o desafeto, a intolerância, o ódio... Assim como vírus da gripe, o vampirismo é mutável e nos contagia através do ambiente contaminado. É o desejo de extrair do outro a essência que nos foi roubada. É a busca por uma felicidade prática e descartável. Prazeres momentâneos que não preenchem nosso vazio. É a tortura física e/ou psicológica gratuita meramente para sentir-se melhor que o outro.
Vampiros são parasitas que se aproximam de maneira sedutora, convence-nos de seu amor, nos cobrem de promessas e nos dão as costas tão logo saciados de nosso sangue e seguem em busca de outras vítimas.
É o ciúme que nos castra, nos limita e escraviza. É a vingança por motivos fúteis e a cobrança descabida de favores nunca realizados. É a amizade por conveniência que se dissolve ao primeiro sinal de incompatibilidade.
Se vampiros existem? Sim. E eu já fui mordido.
Uma boa indicação de filme sobre vampirismo: Beleza Americana (Sam Mendes, 1999). O filme descarta os morcegos e caninos afiados, mas revela muito sobre nossa própria natureza e, no final, temos a plena convicção de que algo valioso nos foi sugado.
Na literatura os exemplos são diversos. Existe mais vampirismo nos contos de Nelson Rodrigues que em toda saga Crepúsculo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O Egoísta

_ Cara, conta novamente aquela história do acampamento!
_ Mas você conhece tão bem esta história que chega a contar melhor que eu!
_ Ah, mas é sempre mais divertido quando o narrador é diegético!
_ Ok, então, vamos lá...


Minha namorada, na ocasião, e eu planejávamos há tempos acamparmos em uma área remota do litoral carioca conhecida como Praia do Perigoso. Às vésperas de nossa aventura, ela me apresentou um amigo, quando estávamos em uma festa (lembro que era o nome de algum apóstolo bíblico, mas não me recordo qual). Comentamos sobre a tal praia e ele ficou todo empolgado, ainda mais quando soube que lá costuma aparecer golfinhos. Ofereceu-se para nos fazer companhia.
O que era para ser um fim de semana romântico tornou-se um inferno. Nosso colega desbravador não sabia ficar calado e reclamava desde as condições das estradas de terra até o tipo de calçado inapropriado, segundo sua avaliação, que minha namorada e eu usávamos. O trajeto não era fácil, mas penoso mesmo era suportar as constantes queixas de nosso bandeirante.
Chegando no local, fomos muito bem recebidos por uma comunidade hippie. Nosso gentil anfitrião chamava-se “Sempre Eterno”. Claro que este não é seu nome de batismo, mas gostei do criativo pleonasmo. Ele também poderia escolher “Infinito Perpétuo”, mas acho que não soaria tão legal. Devidamente acolhidos pelos simpáticos ripongas, fomos convidados para almoçar com eles um fabuloso risoto de mexilhão. Claro que nosso companheiro de viagem “Sempre Chato” precisava fazer uma de suas exigências: “Não tem um feijãozinho, não? Se não tiver feijão eu não como!”
À noite, tivemos que hospedar nosso inconveniente colega em nossa barraca (que acomodava desconfortavelmente duas pessoas). Estava chovendo e ele não trouxe sua própria barraca alegando preferir dormir sob as estrelas. Ele também comeu de nossa comida. Não levou mantimentos afirmando que ele sabia pescar e não fazia muita questão de comida. A essa altura eu já estava preocupado com a integridade de minha namorada se ele resolvesse declarar não sentir falta de sexo...
Na volta, o repertório de reclamações ganhou um agravante, já que não conseguimos ver nenhum golfinho. Quando chegamos à estação de trem (para chegarmos onde deixei o carro), vi uma barraquinha de doces e resolvi comprar um pacote de biscoito recheado de morango (meu preferido). Foi aí que o resmungão materializou-se do meu lado como por encanto e disparou o que para mim foi a gota d’água: “Pô, não compra de morango, não! Compra de chocolate! Eu prefiro chocolate!”
Meio atordoado, tentei explicar que eu não gostava de chocolate, mas ele insistiu: “Todo mundo gosta de chocolate! Quer ser diferente, é? Anda, compra de chocolate, senão não como!”
Apesar do sangue fervendo em minhas veias, mantive a compostura e procurei responder com educação: “Estou comprando com meu dinheiro, portanto comprarei o que eu gosto. Aqui tem o suficiente para nós três, se quiser, mas não vou comprar o de chocolate!”
Visivelmente alterado por ter sido contrariado, o “Sempre Mimado” apontou-me seu dedo acusador e proferiu a pérola definitiva daquele final de semana: “Sabe qual é o seu problema? Você é um tremendo egoísta! Tudo tem que ser do jeito que você quer! Seu egoísta! E-go-ís-ta!!”
_ Hahaha! Eu me acabo com essa história! Que cara sem noção!
_ Se podemos tirar uma lição disso tudo é que devemos ter cuidado ao criticar alguém, pois é nos outros que reconhecemos nossos próprios defeitos.
_ Cara, se isso acontece comigo, juro que arrancava a bermuda desse sujeito e enfiava o pacote de biscoito inteirinho lá onde o sol não bate!
_ E você acha que não tive essa vontade?
_ E por que não fez?
_ É que o biscoito era de morango, lembra? Ele tem predileção por chocolate...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Cartas de Amor a Quem Possa Interessar

_ Ai, amor... Já falei pra não trazer o laptop pra mesa na hora do jantar!
_ Desculpe, querida. Só estou checando meus e-mails.
_ Aposto que você está visitando aquele blog novamente.
_ Sim, estou, mas acho que vou deixar de segui-lo. Gosto dos textos com críticas bem humoradas e tal, mas ultimamente ele vem escrevendo uns textos tão deprê!
_ Ele deve estar passando por algum momento ruim. Agora anda, me ajude a pôr os pratos.
_ Ops! Olha só, ele acabou de enviar uma nova postagem!
_ “Cartas de Amor a Quem Possa Interessar”... O título é interessante.
_ Vou ler para você:

Conheci uma senhora idosa que costumava sentar-se em uma mesa de praça, daquelas onde alguns jogam dama, baralho, xadrez... Ela se acomodava ali com um caderno, uma caneta e uma velha caixa de sapatos ao lado. Certa feita, eu a abordei perguntando se tratar de um livro que estava escrevendo. Ela me lançou um sorriso amável e respondeu-me que eram apenas cartas.
Todos na rua conheciam a história daquela senhora. Seu ex-marido a abandonou por outra mulher depois de um casamento de doze anos. Ele ainda a procurou, oferecendo amizade, mas não demorou muito para ele se afastar e nunca mais entrar em contato. Seu nome era Antenor.
Um belo dia, soube que ela morreu. Passando em frente a sua casa, resgatei a tal caixa de sapatos que reconheci em meio a um amontoado de velharias em uma caçamba de lixo. Dentro da caixa, havia uma agenda telefônica com páginas amareladas, uma foto em preto e branco do casal e centenas de cartas cuidadosamente organizadas dentro de seus respectivos envelopes, onde se lia no campo do destinatário as seguintes letras: A Q P I. Deduzi que se tratava das iniciais de seu ex-marido.
Certo que a falecida não se incomodaria com minha curiosidade, pus-me a ler todas as cartas. A primeira datava de vinte anos atrás. Não lembro de ter lido na vida algo tão vívido e intenso sobre o amor. Eram declarações apaixonadas de alguém que não demonstrava uma única vírgula de rancor ou mágoa. Cada verso celebrava os momentos de ternura eternizados em seu coração. Uma narrativa comovente de gratidão, ternura e afeto. Meus olhos cansavam à medida que as cartas se tornavam mais recentes e a caligrafia, ora elegante e acadêmica, aos poucos perdia a firmeza nos traços e, em alguns momentos, chegava a ser ilegível.
Não fiz conta das horas que se passaram, mas no horizonte um novo dia despontava. Dentro daquela agenda, encontrei o telefone do homem que inspirou todo aquele manuscrito. Decidi ligar para dar-lhe a notícia sobre a morte da autora e saber se ele gostaria que eu lhe enviasse as cartas pelo correio. Quem atendeu foi uma voz infantil de menina que gritou “vovô, é pra você”.
_ Senhor Antenor? Eu tenho um recado de sua ex-mulher...
Ele ficou inquieto, vociferou interrompendo-me.
_ Essa é boa... Depois de vinte anos essa mulher ainda quer assunto? Será que ela não entende que foi melhor assim? Eu tenho minha vida, minha família, não me interessa nada que venha desta pessoa!
Claro que fiquei surpreso com tal reação e estava prestes a desligar, quando olhei para o nome completo de Antenor na agenda... A Q P I... Fora a primeira letra, as outras nada tinham a ver com o nome dele.
_ Mas, anda, rapaz! Que diabo de recado é esse?
Respirei fundo e passei o recado:
_ Ela mandou dizer que você é um tremendo babaca.
Antes que eu colocasse o fone no gancho, ainda pude ouvir o velho Antenor praguejando.
No dia seguinte, deixei a caixa de sapatos sobre a mesma mesa daquela mesma praça onde nossa romântica escritora se inspirava e, antes de seguir meu caminho, tomei a providência de escrever na tampa da caixa um aviso, para que as cartas pudessem continuar a alcançar seu destino:
“A Quem Possa Interessar.”

_ E aí, gostou?
_ É bonito... Mas é triste também...
_ Ah, vai! Ele chamou o cara de babaca! Isso foi engraçado! Ou não?
_ Será que isso aconteceu mesmo?
_ Não sei... Por via das dúvidas, melhor eu parar de seguir este blog...
_ É... Talvez seja melhor mesmo... Bom, vamos jantar.
_ Sim querida, vamos.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Despertar

A vida é uma coleção de despedidas. Nos despedimos do útero e do leite materno. Damos adeus às fraudas e às roupas que já não nos cabem. Adeus à inocência, aos colegas da escola, aos amigos, aos amores, aos parentes... Estamos sempre nos despedindo e, mesmo assim, nunca nos acostumamos a isso. Sempre lamentamos as despedidas, mesmo daquilo que nos fere. Quem consegue se despedir de suas angústias sem um aperto no peito? Há quem reconheça seus problemas e procura deixar sempre para depois a solução só para manter por perto aquilo que lhe tira o sono. A idéia de morte varia de acordo com a cultura local. Para uns, tormento, drama, saudade... Para outros, transição, alegria, renovação.
Em muitas ocasiões, nos pegamos em busca de um esclarecimento. Uma revelação que nos explique tudo o que passamos, que nos indique o caminho. Quisera a vida ser simples assim. Todos nasceríamos com um guia, um manual de instruções. Por mais que queiramos uma resposta, nem sempre estamos realmente interessados a segui-la. Muitas vezes até sabemos qual caminho que devemos escolher, mas é mais conveniente e menos assustador permanecermos parados no mesmo lugar e implorar por uma luz que, de tão intensa, já nos cegou as vistas.
Queremos respostas, e o erro começa aí. O que devemos desejar não é uma voz que nos mostre a direção. O que devemos buscar é um despertar.
O despertar é sempre mais difícil, pois uma vez que acordamos do transe, não podemos simplesmente fugir da realidade e retornar ao nosso mundo de sonhos ensaiados. Despertar nos faz mergulhar em nossas dúvidas mais honestas e nos afasta de nossas certezas dissimuladas.
É quando despertamos que reconhecemos o valor de cada momento, pois aprendemos que tudo passa. Tanto a dor quanto a delícia se vão para dar lugar a novos eventos dos quais nos despediremos um dia.
Certos eventos (pessoas, momentos, coisas) passam em nossas vidas como um cometa. Um fenômeno raro de extrema beleza e encanto. Um brilho intenso que cruza nosso espaço aéreo deixando um rastro de fascínio e assombro. Ainda assim, sabemos que tudo isso também passará, e nem por isso deixa de ser perfeito.
Ao despertar, compreendemos que cada despedida equivale a um recomeço e o que fica vivo em nossa memória é aquilo que merece ser celebrado com entusiasmo.
Não nos deixemos abater por cometas que se vão, pois, sabemos no fundo de nosso coração que sempre podemos contar com as estrelas.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Última Prece

Nossa Senhora Imperfeita, padroeira dos caminhos errôneos e idéias falhas, dirijo-me a ti nesta oração de despedida. Não lhe devo mais tributos ou promessas, não dobrarei seu manto ou curvarei-me diante de seu altar. De certo, podemos afirmar que não farei muita diferença em sua romaria, levando em conta que sempre houve vários seguidores à sua disposição. Eu era apenas mais um servo cego pela esperança e credo. Já larguei sua mão uma vez e me perdi na multidão, hoje, a multidão se coloca entre nós. Sua imagem já não me traz conforto ou alívio e sei que entenderá minha súbita falta de fé.
Não sei bem como dizer o que sinto. Já fui chamado de alquimista das palavras, mas fui rebaixado a um mero canastrão melodramático. Serei o mais conciso possível, sem perder o lirismo lamentoso da narrativa. Ignoremos a ruidosa chuva e o insuportável solo de violino na janela.
Como o amor se converte em indiferença e hostilidade? Influência por conta de sondas alienígenas ou apenas conveniência? Sentir raiva é um recurso prático, de forma que nos sentimos justificados para ferir quem nos quer o bem, sem remorsos, sem olhar para trás.
Através de sua misericórdia, pude ver meu humilde lar converter-se em um majestoso castelo, única e simplesmente para vê-lo demolir. Transitando em meio às ruínas, recolho os cacos e busco apoio em alicerces mais seguros. Estranho como cada pedaço de ladrilho e tijolo parece-me feliz e realizado por seu curto e destrutivo período de nobreza.
Minha gentil santa, hoje percebo sua boa intenção em me fazer acreditar em milagres, mas ambos sabemos que de você não poderíamos esperar tais milagres. Tudo que vinha de você era mero ilusionismo. Mas quem disse que não é possível divertir-se em um espetáculo de pirotecnia, fumaça e espelhos?
Minha Santa Imperfeita, grato sou pelas migalhas que jamais mataram minha fome, mas ofereceram um sabor único ao pouco tempo que fui seu devoto. Grato sou por não passar despercebida em meu coração descrente e, acima de tudo, muito obrigado por deixar registrado em mim a mensagem que jamais esquecerei: Em todos nós há um pouco de santidade... E muito de imperfeição.
Boa noite.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Às Vezes Me Sinto Um Turista Em Meu Próprio Quintal

O dia estava lindo e resolvi aproveitar as belezas naturais que o Rio de Janeiro oferece a seus moradores e visitantes. Escolhi o Pão de Açúcar, um de nossos mais famosos cartões postais. Já estive lá antes, mas esta foi a primeira vez que decido ir sozinho (onde eu estava com a cabeça?). Pensei em subir pela trilha, mas sem companhia o caminho seria ainda mais longo e penoso, então embarguei no bondinho. Pouca coisa na paisagem me era novidade, mas é impossível não se encantar com a geografia, a vegetação e as edificações que compõem o cenário que nos rendeu o título de cidade maravilhosa.Tirei muitas fotos e até flagrei dois micos devorando um filhote de sua própria espécie (nem tudo é belo na natureza). Olhando daqui, Copacabana parece-me uma lembrança distante e fria.
Ainda desconfortável com os sentimentos que me norteiam, sentei-me em uma cadeira diante do espetáculo de um céu e um mar infinitamente azuis e acabei visitando um ponto remoto de acesso ainda mais difícil localizado dentro de mim mesmo. Refleti por um momento e fui tomado por uma súbita consciência de decisões equivocadas. Não sabia bem o porquê, mas, quando me dei conta, eu estava represando um choro que já não suportava manter-se contido. Teria sido o medo? A saudade? A carência ou a indignação? Algo estava engasgado e foi preciso muita força (ou fraqueza?) para não vomitar todo o reboco que insiste em se desprender de meu coração. Um copo de água me ajuda a engolir meu entulho sentimental e me distraio com os turistas que parecem muito mais à vontade que eu em minha própria cidade.
Na descida, tenho a impressão de ter deixado algo para trás. A tristeza ainda está aqui comigo, então, não deve ser nada realmente importante... Quem diria que um pão de açúcar poderia ter um sabor tão amargo?

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Priori

Não entendo porque as pessoas costumam dizer “agora está nas mãos de Deus” quando tudo mais falha. A gente tenta por todos os meios resolver os problemas e, depois de termos piorado consideravelmente o que já não estava muito bom, decidimos esperar dos céus uma solução divina. É como se nossa televisão apresentasse um pequeno defeito e decidíssemos, por conta própria, abrir o aparelho e tentar consertar sem entender nada de eletrônica. Depois de arrancarmos tudo do lugar, levaríamos para um técnico especializado e, com a maior cara-de-pau, afirmaríamos que o aparelho nunca havia sido aberto.
Conselho: entregue tudo às mãos de Deus desde o início. De preferência, antes que qualquer problema se manifeste. O problema é que temos a memória fraca e costumamos lembrar que Deus existe apenas nos momentos de dificuldade... Talvez por esta razão esses momentos difíceis insistam em acontecer. Uma forma de atiçar nossa memória.
Pensar em Deus poderia ser encarado como um plano de saúde. Tipo, você não precisa estar doente para possuir um desses planos que garantem atendimento, ambulância, internação, consulta, assistência dentária e tudo o mais. Muito pelo contrário, você precisa estar plenamente saudável para que não haja restrições à adesão de seu plano. Posso estar enganado, mas tenho a impressão que mesmo os mais famosos pastores evangélicos que promovem sessões de curas espirituais não abrem mão de um bom plano de saúde.
Entrega teu caminho ao Senhor e o mais Ele fará, certo? Pois deixe-O fazer desde o começo. Conhece algum administrador melhor para organizar cronogramas, coordenar equipes, acionar áreas competentes, viabilizar meios e otimizar recursos? Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo, fez todas as criaturas e com o que sobrou fez o onintorrinco.
Já conheci muita gente preocupada com o fim do mundo. Muitos afirmam que o fim já chegou faz tempo. Estou certo que estamos próximos do grande final, mas enquanto Oscar Niemeyer estiver vivo, não corremos o risco de ver o mundo acabar, afinal, quem vocês acham que Deus vai recorrer na hora de redesenhar tudo?
Certos de que o mundo não vai acabar (pelo menos por enquanto), tudo o mais pode esperar. Tudo isso foi apenas para deixar registrado que confio no tempo de cada um, no tempo das coisas, no tempo de Deus. Pediram-me para esperar e, dessa forma, aguardo na certeza de resultados favoráveis, ainda que eu demore a percebê-los.
Agora e sempre, entrego-me às mãos de Deus. Não como último recurso, mas como princípio fundamental.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Online

“Gatinha underline safada está online agora.”
Nossa, que endereço eletrônico mais sugestivo! Nem me recordo como ela veio parar na minha lista de contatos, mas não dá pra ignorar quando uma gatinha e, ainda por cima safada, aparece assim dando sopa.
_ Olá, tudo bem?
_ Oi, tudo. E com você?
_ Bem também... De onde a conheço?
_ Acho que de algum bate-papo.
Isso não chega a ajudar muito, mas já é um começo. Certamente já conversamos antes, mas não lembro agora. A vida virtual é muito prática, dinâmica e vazia. A gente acaba colecionando contatos só para aumentar nossa lista de “amigos” e depois ninguém faz ideia de onde se conheceram.
_ Qual, seu nome?
_ Melissa.
_ Quantos aninhos?
_ Dezoito. E você? Tecla de onde?
A superficialidade dessa conversa faz parte de um roteiro que sempre recorremos para puxar assunto. Se tudo correr bem, em breve saberemos as preferências um do outro, o signo, o time de futebol e a cor predileta.
_ O que curte?
_ Malhação e balada.
Malhação e balada... Mais uma resposta ensaiada. Uma maneira de se dizer descolada, vaidosa e desprendida. É no mínimo suspeito quando as descrições de nosso contato são tão favoráveis, mas vale a pena deixar rolar e ver onde isso vai chegar.
_ Como você é?
_ Sou morena, olhos azuis, sarada...
_ Nossa, você deve ser linda! Pode ligar a cam?
_ Está com defeito.
_ Hmm, então me mostra uma foto sua.
Ela me enviou a foto... Linda. Absurdamente linda. Maravilhosa. Pra piorar, a danada está de lingerie! Meu coração deu cambalhotas! Olhando de relance ela até lembra aquela atriz norte americana Megan Fox. Peraí... Olhando bem, ela parece muito com a Megan Fox... Ei! Esta é a foto da Megan Fox mesmo! Outra armadilha da Internet: todos somos perfeitos. Montamos personagens com os fragmentos que encontramos espalhados pela rede. Não poderia ficar por baixo, então me descrevi como um guerreiro espartano, só que mais avantajado. Pensei em enviar a foto do Murilo Benício dizendo ser eu, mas preferi manter-me oculto usando no lugar de minha foto a figura de um patinho de borracha.
_ Você me deixou curiosa... Deve ser lindo.
_ É o que mamãe sempre me diz.
_ E ainda por cima tem senso de humor. Gostei de você.
Ela diz isso seguido de alguns “rsrs”, indicando que estava rindo. O papo foi fluindo e não demorou muito para estarmos envolvidos em um clima de sedução e erotismo.
_ Ai, queria sentir você todinho dentro de mim... Você deve ser uma delícia... Me diz o que você faria comigo se eu estivesse aí do seu lado... Tesão...
Quando o clima estava esquentando de verdade, ela pediu um minuto e seu status mudou de disponível para ocupada. Tomei um susto quando meu telefone tocou. Era o Rubens, o Rubão. Capitão do time de futebol do bairro. Deve ter uns quarenta anos ou mais, ostenta um bigodão referto desde quando deu baixa no exército. Homem robusto de comportamento truculento, passos firmes e voz grossa.
_ Fala, Rubão.
_ E aí, cara, beleza? Lembra da mesa de sinuca que encomendei? Chegou ontem! Chega aqui mais tarde para jogarmos! Também comprei duas garrafas de tequila só pra nós! Diversão de macho, que tal?
Empolguei-me com o convite e, ainda com o telefone no ouvido, cliquei para chamar a atenção de Melissa para me despedir. Estranhei a duplicidade do som da campainha...
_ Rubão...
_ Que foi?
_ Que barulho foi esse?
_ Barulho?! Que barulho?
_ Você está no MSN?
_ Eu?! Não, claro que não... Que ideia!
Cliquei mais uma vez para chamar a atenção de Melissa e pude ouvir novamente a reprodução da campainha vindo do outro lado da linha.
_ Rubão, tem certeza que seu computador não está ligado?
_ Ora... É... Tenho, ué!
Chamei a atenção uma vez mais e lá estava novamente a campainha na casa de Rubão.
_ Rubão, este som não seria de alguém chamando sua atenção no MSN?
_ Ah, essa campainha?! É, pois é... É que eu estava online e estão querendo falar comigo, nada de mais...
_ Rubão...
_ O que foi, porra??
_ ...Nada não.
Inventei uma indisposição qualquer e dispensei nossa “diversão de macho”. Melissa volta a estar disponível.
_ Oi, gatinho. Desculpe a demora. Eu estava no telefone. Onde paramos?
_ Melissa...
_ Fala meu gostoso...
_ Você gosta de sinuca e tequila?
“Gatinha underline safada não pode responder agora, pois seu status está definido como offline.”

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Livro de Adão

Prezadas leitoras,
Há muito me sensibilizo por todas as dúvidas que pairam em vossas cabeças por conta da crueza exercida por nós homens. Acompanho os conflitos e as aflições que o gênero masculino pratica em seus corações repletos de ternura e compreensão. Não digo que compreendo, mas acompanho.
Em nome de meus iguais, peço desculpas por nossas atrocidades insensíveis e, contrariando todo o risco que estarei assumindo por revelar as palavras a seguir, escrevo esta carta na intenção de esclarecer um pouco de nosso simplório engenho. Não é tarefa difícil compreender nosso mecanismo, haja vista nossa praticidade. A conduta masculina funciona como um interruptor de luz, ou seja, liga e desliga quando conveniente. Já o cérebro feminino está mais para um painel de controle de um Airbus a380, com direito a zonas de turbulência (ao menos uma vez por mês).
Enfim, o universo do macho da espécie é muitíssimo simples de se entender, basta abrir mão de toda a complexidade que seu imaginário feminino é capaz de fantasiar. Não se trata de conspirações, abduções, rede de intrigas, espionagens, etc. Estou abrindo aqui os segredos mais bem guardados sobre nossa índole. Peço que compreendam se, por ventura, eu não conseguir escrever até o fim, pois nunca se sabe o que o clã masculino pode fazer para resguardar seus mais íntimos segredos.
1- Sobre a virilidade na primeira transa: O sentimento mais próximo que a mulher tem do desejo é a raiva. No homem, o sentimento mais próximo do tesão é o medo. O que você pode esperar de uma relação regada à raiva e medo?Sempre bate uma tremenda insegurança. É tanto medo de falhar que tudo o mais acaba dando errado, aí vêm aquelas desculpas ensaiadas. O bom desempenho sexual do homem numa primeira relação está diretamente relacionado com sua capacidade de pensar em outras coisas para manter a calma e evitar a ejaculação precoce (ele estará pensando nas contas pra pagar, no carro quebrado, na unha encravada, em um cavalo morto na estrada...).
2- Sobre as mentiras: Nós homens não sabemos mentir. Sempre nos achamos demasiadamente espertos e articulamos histórias mirabolantes para ocultarmos nossas traquinices. O homem é prolixo quando diz a verdade, pois a verdade nos é monótona. Nosso empenho e engenhosidade em criar “verdades alternativas” são tão fabulosos que não nos contentamos em apenas pregar a mentira, temos necessidade de vivenciá-la, torná-la real. É o nosso momento dramaturgo e nada nos impedirá de convencer ao mundo de nossa versão dos fatos. Nós pecamos pelo nosso ego. Quando um homem chega contanto toda a história com riqueza de detalhes e oferecendo uma lista de pessoas que podem confirmar o que ele diz, certamente ele estará mentindo.
3- Sobre amores do passado: Nenhum homem termina definitivamente um relacionamento. Chega um momento que não dá mais e damos um basta, mas sempre desejamos saber se ela ainda nos deseja, se ainda conseguimos levá-la para cama, se está à nossa disposição... Quem disse que as mulheres ciumentas são paranóicas? Tudo bem, confesso, eu também disse, mas temos que redimi-las. Elas estão certas. Tudo que queremos é uma oportunidade de ter nossa ex implorando para matar a saudade. Algumas vezes ficamos satisfeitos em apenas saber que elas ainda não nos esqueceram, mas, de uma forma geral, queremos a sensação de “assuntos pendentes” e a chance de terminar por cima (ou por baixo, de lado, de ponta cabeça...).
4- Sobre a dificuldade de um homem encarar um compromisso sério: A mulher perfeita para qualquer homem é a imagem de sua própria mãe, uma mulher que nos ama incondicionalmente, que nos adula, nos protege e tolera todas as besteiras que fazemos. Nós homens temos “momentos de maturidade”, mas na prática somos eternas crianças. Um compromisso sério exige uma postura mais centrada, otimizada, íntegra. Desejamos nosso espaço, nossa privacidade, mesmo que nem saibamos o porquê. Temos medo de deixar para trás o desprendimento, a liberdade, a vida de solteiro e nossos hábitos rudimentares como declamar impropérios e exercitar sonoras flatulências. Isso mesmo! Às vezes só queremos, literalmente, “aliviar a pressão” e não queremos fazer na frente de nossas damas.
5- Sobre a fixação anal, o machismo e a violência: Considero este o tópico mais delicado, revelador e bombástico. Tratados psicanalíticos comprovam que desde a primeira infância o homem desenvolve tendências em...

Prezadas leitoras,
Decidi, voluntariamente, encerrar esta carta por aqui. Tal decisão nada tem a ver com esses pontinhos rubros luminosos dançando sobre meu peito vindos do helicóptero Black Hawk que acabou de surgir diante de minha janela. Declaro para todos os fins que não estou sendo ameaçado ou coagido. Agora peço licença, pois estão batendo (esmurrando) minha porta e preciso ausentar-me de minhas atividades durante algum tempo. Não reparem se eu precisar mudar de sexo e passar a assinar meus textos com algum pseudônimo. Sempre tive simpatia por Eva, mas aceito sugestões.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Deus de Cada Um

Certa feita, uma amiga muito querida perguntou-me se eu acreditava em Deus. “Depende”, respondi a ela. Ela me propôs um desafio: escrever algo sobre Deus. Expliquei a ela que eu já fiz isso.
Eu já escrevi sobre o amor, o ódio, a felicidade, a tristeza, a solidão, o convívio... Deus é tudo isso. Deus é a verdade, o fato, o mito. Quem pode separar Deus de todas essas coisas? Quem é capaz de apontar os caminhos por onde Deus trafega e por onde Ele jamais passará? Deus está em tudo... Deus é tudo.
Deus está na Bíblia, no Corão, na Gita, na Torah, em todas as Escrituras Sagradas, em tudo que nos inspira, assim como também está no Kama Sutra, em contos eróticos, em histórias em quadrinhos, na poesia, nas canções populares, em textos acadêmicos, em cardápios de restaurante, nas buscas do Google...
Gosto de me sentir assim, cercado por Deus onde quer que eu olhe. Deus está onde procuramos. Se a sabedoria aproxima o homem de Deus, como já dizia o filósofo Sócrates, não acho certo impormos limites à nossa sapiência. Sejamos, todavia, atentos para alcançarmos nossa maturidade intelectual e compreendermos quais informações nos são úteis, o que realmente nos acrescenta. Àqueles que têm Deus como objetivo, saberá reconhecer a presença Deste até nas páginas de São Cipriano ou nos gibis da Turma da Mônica. Aos que apenas enxergam o mal, praticam o conhecimento apenas para seu próprio benefício e condenam, julgam e ignoram tudo o mais, a informação apenas potencializa a dose do veneno. 
Quem pode definir o tempo e o espaço que pertence a Deus? Devemos agendar hora e lugar para encontrá-Lo? Antes de criticarmos o que está diante de nós, melhor seria analisar se Deus está em nossos olhos, pois Deus está na águia assim como está no coelho e não é a cadeia alimentar quem decide se é o predador ou a presa a criatura mais digna da presença Dele.
Não me atrevo a traçar um perfil de Deus, isso é inconcebível ao nosso limitado raciocínio. Melhor seria fazermos de nossa vida um livro do qual não tenhamos vergonha de expor nossas páginas e buscarmos Deus como nosso leitor.
Se eu acredito em Deus? Depende... No meu ou no seu?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Gusmão e Josilene

Gusmão quase deixou a marmita cair quando ouviu a declaração de seu colega de trabalho.
_ Que papo de fresco é esse, Everaldino?
_ Só falei que chorei quando vi Titanic, oras!
_ Vai pedir suas contas que pra trabalhar aqui tem que ser macho!
_ Ué! Você acha que eu não sou macho só porque chorei? Você já viu este filme?
_ Vê lá se perco meu tempo com essas porcarias!
Peteco empurrava o carrinho-de-mão e quis saber qual era o assunto:
_ Do que as princesinhas estão falando?
_ Cara, o Everaldino aqui está dizendo que ele chorou vendo o filme Titanic!
_ Aquele do James Cameron?! Nossa! Eu assisti com minha patroa! Só de lembrar da música da Celine Dion já sinto as lágrimas chegando!
_ Até você, Peteco?! O mundo está acabando mesmo! Ô, Josiomar! Dá um tempo aí no concreto e chega mais! Você chorou com o filme Titanic?
_ Pô, não chorei não. Mas vocês já assistiram A Vida é Bela? Acho que fiquei desidratado de tanto que chorei...
_ Meu Deus! Estou cercado por um bando de efeminados!
O capataz chegou pra botar ordem.
_ Vamos parar com a moleza? Dá pras moçoilas pararem de fofoca e voltarem ao serviço?
_ Pode responder uma perguntinha antes, chefe?
_ Fala logo, Gusmão!
_ O senhor costuma chorar quando vê filme?
_ Mas de jeito nenhum! Está pensando que eu sou o quê?
_ Esse é meu patrão!
É a vez de Josiomar perguntar.
_ Mas o senhor assistiu A Vida é Bela?
_ Nossa! Sim, sim... (responde tirando um lenço do bolso e secando os olhos) É muito emocionante!
_ Mas o senhor disse que não chora com filmes – esbravejou Gusmão, inconformado.
_ Mas A Vida é Bela não é um filme... É uma obra de arte! (soluçando) Com licença... Preciso resolver umas coisas agora...
Gusmão transtornado:
_ A que ponto chegamos? Não se fazem mais homens como antigamente?
Eis que Mandela, um homenzarrão patola, que carregava um saco de cimento no ombro com toda naturalidade e desenvoltura de um empresário carregando um terno, surge em meio às lamentações de Gusmão.
_ Mandela! Você é minha última esperança! Diz pra mim: Você chora quando vê filme?
_ Pô, Gusmão, a televisão lá de casa está no conserto. Não costumo ver filme.
_ Estão vendo? Eu sabia que Mandela não me decepcionaria!
_ Mas, Mandela, – Peteco interpola – você não se emociona com história nenhuma?
_ Ah, sim! Eu até chorei no final de Marley & Eu.
_ O quê?! Mandela... Você acabou de dizer que não costuma ver filme!
_ Filme mesmo não, mas eu li o livro, oras!
Agora sim a marmita de Gusmão caiu de vez.
_ Olha o que vocês fizeram! Deixei meu almoço cair no chão por causa de vocês, seus borra-botas! Se bem que depois dessas declarações eu até perdi a fome!
Everaldino sugere:
_ Gusmão, por que você não passa na barraquinha do Antunes aqui na frente da obra e compra um DVD pirata?
_ Mas eu já vivo fazendo isso!
_ Não estou falando dos pornôs! Pega um drama dessa vez!

...

Josilene volta de seu trabalho como diarista e pega todo dia o trem lotado para chegar em sua humilde casa localizada na encosta de uma favela. Antes, ela passa na creche para pegar os dois filhos, Gleuberson de sete e Tainara de cinco anos. O esforço para subir a íngreme ladeira é ainda mais penoso agora que ela está no quarto mês de gestação. Josilene estranhou que seu marido já estivesse deitado, pois tinha jogo do flamengo depois da novela. Ainda mais estranho era aquele DVD no braço do sofá. O filme se chamava Um Amor Para Recordar e na capa havia a imagem de um casal abraçado... De roupa!
Depois de jantar e colocar os filhos pra dormir, Josilene foi se deitar ao lado do marido. Ela beija suas costas e o acaricia até alcançar sua cueca. Ele retira sua mão carinhosamente.
_ Gusmão?! O que está havendo com você hoje?
Gusmão não se vira. O rosto mirando a parede no escuro do quarto garante o sigilo de suas lágrimas.
_ Estou bem, mulher. Apenas me abrace, por favor.
Josilene o abraçou, mas não conseguiu adormecer. O que estava acontecendo? Ele não a deseja mais? Estaria a traindo com outra? Teria alguma coisa a ver com o que o pastor de sua igreja pregou domingo passado? Algo a ver com o fim do mundo, sei lá.

...

De manhã, Gusmão tomou café junto com toda família. Despediu-se beijando esposa e filhos dizendo que os amava. Precisou se conter para não chorar novamente. Josilene acompanhava os passos do esposo descendo a ladeira. Gusmão olha para trás e acena para a esposa. Josilene devolve o gesto, meio atônita. Ela olha para o céu e nota o tempo nublado e enormes nuvens negras se formando ao longe.
_ Mamãe, o papai está virando mariquinha?
_ Deixa de bobagem, menino! Termina de tomar seu café!
Josilene retruca sem tirar um só momento os olhos do céu.

terça-feira, 30 de março de 2010

Dueto

Ele desligou o telefone com aquela sensação anestésica de quem perde o chão. Do outro lado da linha, ela se despediu depois de uma conversa que em nada lembrava as doces palavras que viviam trocando. Claro que divergências aconteciam, mas desta vez foi diferente. Era o prenúncio do desencanto que por tanto tempo ele protelou. Teria, enfim, completado sua coleção de dúvidas? Eis uma dúvida a mais em seu repertório.
Ainda desprovido de sua clareza emocional, ele permanece em pé olhando o aparelho e recordando as palavras de sua amada e começou a entender que as coisas estavam diferentes. Não percebia nada de bom ou de ruim, mas algo estava estranhamente diferente.
Vacilante, sua coordenação motora o levou até uma poltrona onde sentou e divagou em seus pensamentos. Num repente, sentiu um lampejo de paz, algo apenas justificado pela presença de um anjo que materializou-se diante dele. Aqui cabem algumas considerações sobre os anjos:
1- Mesmo que não haja um contato anterior, a presença de um anjo nunca surpreende. Se manifestam sempre com sutileza e se vão como o despertar de um sonho;
2- Só há duas ocasiões em que o anjo o toca, quando nascemos e quando morremos. Em qualquer outra ocasião os anjos apontam ou assopram;
3- Anjos não se comunicam através de palavras, mas de sensações. Palavras são códigos sonoros que podem ser mal interpretados, sujeitos a ambiguidades. Sensações dispensam palavras e os anjos as traduzem de forma inequívoca,
4- A palavra “não” é inexistente no vocabulário celestial. Quando desejamos não estar doente, por exemplo, projetamos nosso pensamento em algo que não queremos. Melhor desejar estar saudável. Os anjos interpretam nossos pensamentos. É como alguém ordenar “não pense em sua mãe”, automaticamente você pensará nela.

O anjo apontou para o peito do rapaz e disse através de um olhar:
_ Você permitiu que seu coração falasse por você e ele pôs-se a cantar.
“E cantou tão alto que eu já não conseguia ouvir minha razão”, respondeu o rapaz. O anjo concordou com um sorriso amável. Algum tempo depois, o rapaz emendou com certo humor:
_ Bom, meu coração não está cantando sozinho! Há outro coração cantando em parceria com ele! Acabei de conversar com minha amada por telefone. Estamos passando por um momento de desarmonia, mas a gente se acerta! É normal que nossos corações desafinem em algumas notas. Um dueto requer muito ensaio para dar certo.
O anjo nada disse, mas nem era preciso. Com um sopro e um sorriso, o anjo se desfaz no ar, como uma neblina que nunca esteve ali.
O rapaz finalmente entende que ele permitiu que seu coração cantasse, mas não havia um dueto... Era apenas o eco de sua própria voz.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Monólogo Ménage à Trois

Acho que todo homem tem o desejo de viver uma relação a três. Eu sonho em fugir disso. De um lado, a solidão. Do outro, a saudade. Na última ponta estou eu, completando esse triângulo amoroso. Lembro que conheci a solidão ainda bem jovem. Eu estava em uma festa de aniversário e, enquanto as outras crianças se divertiam, eu me isolava em um canto qualquer sem o menor interesse em interagir com os demais. “A pior solidão é aquela que nos humilha quando estamos acompanhados”, pude ouvi-la sussurrando em meu ouvido. Imediatamente, percebi que seríamos bons amigos.
Em algumas ocasiões, a solidão se distraía e, em uma dessas oportunidades, acabei flertando com a paixão e fui cúmplice do amor, mas tornou-se difícil conciliá-los à minha rotina, daí acabei me afastando... Foi aí que conheci a saudade.
Já em seu primeiro contato minha solidão e minha saudade se identificaram e em pouco tempo se tornaram amigas íntimas. Ora trocavam confidências, elogios, carinhos, sorrisos... Nem sei de quem partiu a iniciativa do primeiro beijo, mas muitos vieram depois deste e cada vez mais ardentes. Hoje, serpenteiam seus corpos como amantes vorazes e insaciáveis. Apesar de estranhamente excitado com essa relação, nunca fui convidado para participar daquele jogo tórrido, limitando-me ao papel de voyer. Dividíamos a mesma cama, mas nunca os mesmos prazeres. Não raras vezes acordei ao lado das duas embaladas em seus movimentos eróticos ruidosos. Às vezes me levanto e as contemplo como quem assiste a um filme de Stanley Kubrick ou David Lynch. Outras vezes as ignoro e finjo dormir um sono impossível.
Tomado por um sentimento que desconheço, me afasto uma vez mais. Procuro alívio em um livro, um gole de vinho ou qualquer outra coisa que cale os gemidos daquele romance. Em certo momento, projeto meus pensamentos para o futuro. Um futuro diferente, onde minha solidão e minha saudade não passam de reles lembranças de um passado cada vez mais esquecido. Me imagino realizado e feliz ao lado daquela que será minha companheira e até consigo visualizá-la, senti-la, desejá-la... Respiro fundo e decido que esta é minha meta, meu destino. Já é hora de traçar um novo plano em minha vida.
De volta ao quarto (e à realidade), me deparo com as duas amantes exaustas adormecidas e confortavelmente entrelaçadas. Minhas convicções fraquejam. Não sei ao certo se abandoná-las compromete um voto de fidelidade jamais assumido entre mim e minhas hóspedes. Deito silenciosamente para não acordá-las. Ensaio um sorriso que não vem e reflito se a felicidade que almejo é de fato um plano que quero pôr em prática ou são apenas simulacros momentâneas de uma alegria platônica. À vezes me pergunto se minha esperança não passa de mero subterfúgio... Algum tipo romântico e patético de masturbação.

terça-feira, 23 de março de 2010

Felicidade Segundo o Profeta

Que a maior faculdade de Filosofia que existe é a mesa de um botequim não é nenhuma novidade (não sei ao certo se o MEC já reconheceu isso, mas é só uma questão de tempo), mas tenho notado um olhar messiânico por parte de seus freqüentadores. Clientes com algum tipo de angústia chegam solitários ao bar em busca de alguma resposta para suas aflições que bem podem estar no fundo do copo ou nas conversas periféricas. Na maioria dos casos a resposta (quando vem) é esquecida no dia seguinte por conta da maldita ressaca.
Em certa ocasião, uma mulher de meia-idade entrou em um famoso bar freqüentado por célebres pensadores e escolheu uma mesa próxima a um grupo exaltado que bebiam e bradavam suas considerações sobre a vida. A mulher pediu um chopp e ficou atenta ao papo acalorado da mesa vizinha.
_ O Ronaldo engordou, mas e daí? O cara é o fenômeno!
_ E esses caras que mergulham com tubarões? São loucos!
_ Eu também tenho uma cicatriz no queixo!
_ Político é tudo ladrão e safado!
A mulher pede mais um chopp. Ela se sente solitária, desnorteada, sem respostas. Ela sabe que cedo ou tarde chegará alguém que dirá as palavras certas. Que resolverá seu conflito existencial.
Algum tempo depois, chega um homem grisalho de gravata frouxa. Ele se junta aos colegas pensadores e pede um conhaque pra começar. Ele é daqueles que sabem beber, não perde a classe, sabe a hora certa de dar sua opinião e todos se calam quando ele fala. É ele. Só pode ser ele o messias desta noite!
Algumas rodadas de chopp e a mulher, meio trôpega, caminha até a mesa e indaga:
_ Você parece muito seguro de tudo que diz. Quero saber se você tem mesmo resposta pra tudo. Diz pra mim... O que é a felicidade?
Fez-se uma pausa de silêncio. Todos olharam para o senhor grisalho que, sem olhar para a mulher, bebe todo conteúdo de seu copo de um só gole, repousa o copo vazio na mesa, respira fundo e responde:
_ Felicidade é beber um copo de água geladinha depois de comer um naco de goiabada.
Todos o olharam maravilhados. Brindaram sua sapiência e voltaram às suas especulações sobre o universo.
A mulher voltou para seu lugar, ainda atordoada com a resposta. Ela chama o garçom e, com um sorriso de canto de boca, faz seu pedido.
_ Vou direto para à sobremesa! Eu quero um prato de Romeu e Julieta, mas sem queijo! E uma água mineral bem gelada!
O garçom quer saber:
_ A água mineral é com gás ou sem gás?
A mulher olha para o garçom nitidamente espantada. Ela baixa o rosto e, com os olhos rasos d’água, decide:
_ Suspende a sobremesa... Me traga outro chopp.
Mais um falso profeta. É claro que a felicidade não poderia ser tão simples assim.

terça-feira, 16 de março de 2010

Beleza Visceral

O mundo vem se tornando cada vez mais intolerante com quem não se enquadra aos patrões de beleza estabelecidos pela mídia. Sendo esta imposição cruel e sem limites, pego-me pensando qual será a próxima imagem cobiçada que devemos seguir para ser aceito neste universo mutável. A estética, mais que um produto é um império que admite meios cada vez mais severos para tornar-se socialmente aceitável. Um retoque no nariz, uma empinada na bunda, uma turbinada nos seios... Nada disso basta se não tivermos uma meta, uma razão para nos entregarmos aos milagres de um bisturi, dietas e exercícios diários.
Claro que tudo isso pode ser muito saudável, mas qual será o próximo objetivo? Os padrões de beleza mudam constantemente e tudo que almejamos é o inalcançável. O que desejamos ser jamais estará diante de nossos espelhos. O que desejamos ser está exposto em outdoors, comerciais de TV, capas de revistas... O objetivo maior da indústria da moda é nos convencer que não somos felizes com o que somos ou o que temos. Consuma cada vez mais. Transforme-se cada vez mais. Pense cada vez menos.
Não existe espaço para sentimentos, o que importa é a aparência. Tabelas, cálculos matemáticos, índices e escalas guiarão seus passos como um oráculo. O resultado de sua circunferência corporal determinará seu lugar neste mundo (não há lugar para quem aja diferente). Ninguém deseja saber como você está, mas quantos gramas perdeu nos últimos dias, quantos minutos você faz na esteira, qual tipo de silicone você recomenda.
Quando a exposição “Corpo Humano Real e Fascinante” esteve em minha cidade, levei minha sobrinha que ficou encantada com todos aqueles cadáveres fatiados. Será que é este o limite pela busca incansável pela perfeição? Zumbis que circulam pelas ruas exibindo seus corpos anorexos e bulímicos conservados através de um processo de plastificação? Alguém precisa explicar a essas pessoas que “Beleza Visceral” não deve ser levada ao pé da letra, ou, em breve, encontraremos clínicas estéticas especializadas em corrigir as imperfeições de nossas vísceras. Imagine a cena: “Oi, gata! Quer ver como meu pâncreas é sarado? Já viu um esôfago mais lindo que o meu?” Pode até parecer engraçado, mas isso é real... E fascinante(?).

segunda-feira, 8 de março de 2010

Famintos

Nunca tive muito talento para cuidar de mim mesmo e meus hábitos alimentares então nunca foram muito saudáveis. Quando trabalhamos, estudamos e moramos sozinhos, a gente acaba se virando com lanches rápidos, práticos e de origem duvidosa. Pouco antes do horário do primeiro tempo de aula, costumava comer em uma pastelaria próxima à faculdade.
Certa feita, lá estava eu com meu pastel de queijo e um caldo de cana quando fui abordado por uma menina andrajosa que não parecia ter mais de seis anos de idade. Ela perguntou se eu poderia lhe pagar um salgado. Ela escolheu o tão conhecido “joelho” de presunto e queijo. Ela recebeu aquele alimento como uma dádiva vinda dos céus, o olhar vívido e um sorriso festivo.
“Como é que se diz?”, perguntou uma senhora encostada no balcão, à minha direita. A menina nada disse. Pegou o joelho das mãos da balconista e saiu em direção à rua. “Falta de educação, sabe nem pedir obrigada!”, disse a mesma mulher, agora com a boca cheia de quibe. “É por isso que eu não pago quando me pedem! É mau costume! Aposto que nem está com fome!”, emendou o homem à minha esquerda com o bigode sujo de risole, segurando uma lata de refrigerante, nitidamente incomodado, não sei ao certo se por eu ter pago o joelho à menina ou por não ter respondido à mulher. O fato é que eu precisaria ter meu espírito completamente surdo para ignorar tamanha gratidão que vibrava daquele pequeno corpo. Evito pensar muito nessas horas, pois sempre encontramos boas razões para negarmos uma ajuda, mesmo que essa razão venha de pessoas sentadas ao seu lado ou de nosso próprio medo de perder nossas migalhas para os pássaros. Por que devemos esperar uma recompensa de alguém que nos honra com a chance de podermos ajudá-la? Talvez seja eu quem devesse agradecer.
Saindo da pastelaria, vi a menina esperando o semáforo fechar para atravessar a rua. Do outro lado, uma menina igualmente mal vestida e visivelmente mais jovem a esperava com os braços apontados para o céu, como quem comemora a grande vitória de seu time do coração. A outra exibia sua conquista como um troféu. Um troféu que foi imediatamente repartido entre as duas com tamanha euforia.
Tal cena fez meu aparelho digestivo interromper seu trabalho e refletir sobre os vários tipos de fome que nos assola. Senti-me um miserável por ter tido a chance de ajudar e ter oferecido tão pouco. Aquelas crianças não conhecem outro sabor senão o da necessidade e, mesmo assim, comemoram seu jantar com a alegria que muitas vezes não sabemos apreciar.
Elas seguem seu caminho incerto de mãos dadas. Seus espíritos estão alimentados e satisfeitos. Decido preencher meu vazio com meus estudos e sigo para meu compromisso, mas não sem antes olhar apiedado os pobres famintos que conferem o troco ainda dentro da pastelaria.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Verdades (Vide Bula)

Sei que algo acontece. Algo sempre está acontecendo.
Nem tudo que escrevo sou eu e nem por isso menos verdadeiro. Certas verdades deveriam ser sinalizadas com uma tarja preta. Avisos de advertência quanto aos diversos efeitos colaterais (asfixia, taquicardia, oscilação da pressão arterial...). A verdade é libertadora, mas toda liberdade tem suas contra-indicações.
Existem os métodos alternativos. Alguns praticam a manipulação da verdade, ofertando-a em doses homeopáticas. A mentira é um alucinógeno, facilmente encontrado em qualquer beco, qualquer esquina. Não há prescrição, apesar do grande mal que possa nos fazer, por isso é tremendamente popular e viciante. Quem mente vê-se obrigado a mentir sempre para sustentar a mentira anterior. Mentir dispensa receituário, não possui qualquer controle, circula livremente. Por fim, mentiras não substituem a verdade, mas costumam ser muito bem-vindas em muitos casos, chegando, inclusive, a ser utilizada como primeira opção de tratamento.
A omissão é um placebo. Na prática, não produz qualquer efeito, mas pode causar sintomas momentâneos de bem-estar (ou não) se apenas acreditarmos e calarmos.
O que é a verdade? Quantas são as verdades? O que os fragmentos ao redor têm para nos revelar? Algo sempre acontece e nos cabe escolher a versão que melhor nos adaptamos. Seja como for, a verdade prevalece sempre. Somente a verdade pode curar.
Nem tudo que escrevo sou eu, mas, certamente, tem eu.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Quantos Corações são Necessários Para Trocar Uma Lâmpada?

Há tempos que meu coração vem se preparando para recebê-la. Ele fez questão de cuidar de cada detalhe, redecorou tudo a seu gosto, apesar de eu achar que ele exagerou um pouco nos tons azuis – Quem mandou revelar a ele sua favorita cor?
Realinhou toda mobília, colocou toalhas limpas no banheiro, encomendou flores diversas para preparar arranjos e espalhar pétalas pela cama e pelo chão do quarto (você não faz idéia de como é difícil achar tulipas esta época do ano).
Espanou e varreu toda poeira, inclusive debaixo do tapete. Tudo para garantir todo conforto que você merece. Mas, algo inesperado aconteceu...
A lâmpada queimou! E agora?
Meu coração desesperou-se. Como isso poderia acontecer? Tudo já estava decidido, resolvido, organizado! E se ela quiser ler um livro? E se ela levantar à noite insone? E se ela tiver medo do escuro? Não bastava trocar a lâmpada, era preciso descobrir a razão. O que teria provocado esta súbita escuridão? Poderia ter sido um curto-circuito? Hm... Uma sobrecarga, na certa. De fato, havia muita energia cercando o coração. Energias que não deveriam ser eliminadas, mas reordenadas, pois cada energia tem sua função.
Perdido no escuro, o coração tropeça em cadeiras e almofadas. Quase deixou um jarro cair. Foi uma verdadeira aventura até alcançar a gaveta onde guardava outra lâmpada para um caso de emergência. Na tentativa de buscar a escada, acabou se descuidando e a lâmpada nova despedaçou-se ao atingir o chão.
Pobre coração... Estava tão ansioso e agora sente-se inútil e culpado por não ter se preparado melhor para acolhê-la. Aflito, sentou-se no escuro engolindo o choro. Tentei acalmá-lo, “o tempo resolve tudo”, disse a ele.
Eis que o dia amanheceu. Bastou abrir as cortinas e deixar o sol entrar. Tudo agora parecia claro. Meu coração não perdeu mais tempo e providenciou o imediato reparo, desejando que você confie nele, que esteja certa de que ele não deixará isso acontecer outra vez.
Sozinho, meu coração é capaz de trocar uma lâmpada, é só uma questão de tempo para o sol voltar a brilhar e iluminar o interior.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Castelo

A casa estava lá, como sempre, mas não parecia a mesma. As paredes, os quadros, os móveis, tudo de acordo como deixei, mas tudo parecia diferente. Acomodo minhas malas em cima do sofá e me sento no chão da sala. Olho ao redor e percebo que a casa parece maior. A casa se queixa pelo tempo que permaneceu trancada e exige uma compensação. Prometo pintá-la muito em breve com cores alegres, um jardim na varanda e novos adornos para a cozinha e banheiro. Irredutível, a casa não manifestou qualquer entusiasmo com minhas promessas. Ela queria mais.
Ainda sem jeito devido à fria recepção de meu lar, resolvi desfazer as malas e cada peça de roupa, cada objeto, cada detalhe me transportava de volta aos braços daquela que me acolheu com seu coração nestes últimos dias em que estive distante de meu habitat natural. Foi ela quem me convenceu a abandonar meu mundo aparentemente seguro e me fez embarcar em uma aventura em nome de um amor que desconhece limites. Foi preciso descer do avião para finalmente conhecer o céu através dos olhos, do sorriso e do toque de minha amada.
De volta a minha solitária existência, continuo a desfazer as malas e encontro um tesouro enterrado entre minhas tralhas. Um CD com um repertório de músicas que remetem a momentos especiais. Uma lembrança artesanalmente confeccionada pela mulher que amo. Coloquei o presente no aparelho de som e deitei-me no chão, usando minha própria roupa como travesseiro. Embalado pelas canções, fechei os olhos e pude sentir a presença dela deitada ao meu lado. Não me atrevi a abrir os olhos ou sequer me mover. Adormeci assim, com a certeza de que ela estava ali comigo, há poucos centímetros de distância.
Já de manhã, precisei abrir os olhos e constatei a triste realidade: ela não estava ali. Arrumando-me para o trabalho, notei que minha casa ainda estava de mau humor. Foi então que comecei a entender aquela súbita mania de grandeza que se apoderou de minha morada, então lhe fiz a promessa que meu lar tanto almejava:
_ Deseja a plenitude? Pois buscarei uma rainha para viver conosco e todos te reconhecerão como um castelo!
A casa mostrou-se, enfim, satisfeita. E uma nova viagem começava a ser planejada.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Cortesia

Em uma remota estrada de uma região montanhosa, havia uma humilde edificação que funcionava como um restaurante de raros freqüentadores. O dono do estabelecimento, um senhor idoso de andar lento e poucas palavras, que trabalhava ali sozinho desde que ficou viúvo há mais de década, procurava agradar como fosse possível seus clientes. No final de cada refeição, ele servia uma xícara de chá feito de ervas aromáticas, receita de sua falecida e saudosa esposa, mas podíamos facilmente identificar a refrescância do hortelã em meio ao exótico e estimulante sabor.
Cada um reagia de uma forma diferente. Uns diziam que não gostavam de chá, ou que não pediram. Outros não falavam nada e deixavam o chá sobre a mesa. Alguns bebiam e saiam sem dizer nada, achando que poderiam ser cobrados por aquele agrado adicional.
Um dia, uma mulher de meia-idade de sorriso fácil, cansada pela longa caminhada, chegou com uma grande mochila nas costas e perguntou se poderia recarregar seu celular. O velho apontou para uma tomada próxima ao balcão. Ela plugou seu carregador e fez uma ligação pedindo um reboque para seu carro enguiçado há alguns quilômetros dali. Com a confirmação que o socorro chegaria lá em quarenta e cinco minutos, sentou-se para esperar. O dono do restaurante surgiu ao seu lado e lhe serviu uma xícara de seu chá especial. A mulher ficou encantada e agradeceu com um olhar cheio de doçura.
Quando finalmente o reboque chegou, a mulher levantou-se e perguntou quanto devia. O ancião respondeu que era cortesia da casa.
_ Como cortesia? Eu não fiz nenhuma refeição!
“Cortesia”, ele repetiu.
A mulher deu uma pausa e, olhando ao redor, captou a mensagem. Ela o abraçou, deu um beijo em seu rosto enrugado e o agradeceu. Ela entrou no reboque e se despediu com um aceno e os olhos rasos d’água, mantendo o amável sorriso. Ela entendeu que o chá era uma cortesia, não àqueles que ali comiam, mas sim a todos que entravam naquele restaurante e, mesmo que por alguns minutos, lhe faziam companhia.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Repescagem

Existe uma razão para a expressão “namoro sério”. É que a partir deste ponto os sorrisos ficam cada vez mais raros. Durante muito tempo eu comparava conhecer os pais da menina como uma espécie de vestibular. A gente se prepara para enfrentar o grande momento em que seremos ou não aprovados por nossos futuros sogros. Hoje percebo que tal comparação é uma tremenda injustiça com o pobre vestibular, afinal, no vestibular sempre há a possibilidade de ser aprovado. Numa apresentação aos pais de sua namorada você já está reprovado desde o momento em que eles souberam de sua existência. Você pode até passar na repescagem, mas haja burocracia!
Tive sorte com alguns pais de namoradas, mas, de um modo geral, os trâmites são sempre os mesmos e as conclusões também: “Quais são suas intenções? Estuda? Trabalha? Ganha quanto? Tem tatuagens? Qual seu time? Faz uso de entorpecentes e outras drogas ilícitas? Tem vínculo com alguma célula terrorista?...”
Algumas questões são pegadinhas:
_ Paga pensão alimentícia?
_ Não, senhor.
_ Sabia que você pode ser preso por isso?
_ Mas eu não tenho filhos!
_ Você é gay?
_ Não! É que eu nunca fui casado!
_ Então quer se juntar com minha filha pra engravidá-la e pular fora sem pagar pensão?!?! Quer ir pra prisão virar mulherzinha, né??
_ Hã?!
Mesmo quando você acredita que está aprovado, você descobre que precisa constantemente provar ser merecedor da bênção de estar freqüentando esta casa. É preciso estar sempre elogiando a comida da sogra, sempre disposto a ajudar o sogro nos trabalhos braçais e sua namorada deve estar sempre com um sorriso estampado no rosto! A inobservância de qualquer uma destas obrigações pode acarretar em punições severas e/ou imediata expulsão desta instituição familiar.
E não adianta provar suas boas intenções. Lembro do dia em que resolvi ficar noivo. Na hora de falar com meus sogros tive a impressão que eu havia cometido um crime hediondo... “Vocês vão viver de quê? Isso é alguma piada? Vão morar onde? Não pense que vão fazer ‘puxadinho’ aqui não!...” Me senti o homem mais miserável do planeta e, depois disso, o noivado não foi pra frente.
Tudo que acontece na vida nos serve como experiência. Espero que isso valha também para os casos de “namoro sério”. Imagine como seria bom se para cada experiência ruim acumulássemos pontos que nos garantiria uma certa vantagem na próxima tentativa:
_ Pretende namorar minha filha? É bolsista? Tem algum tipo de desconto?
_ Não, mas tenho direito pelo sistema de cotas!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Feriado

Dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro. Como trabalhador deste Município, hoje estou em casa pensando o que fazer para curtir este feriado. Não havia muitas opções, mas não queria ficar em casa. Abri a carteira e constatei que eu tinha o suficiente para chegar a algum caixa-eletrônico e retirar mais dinheiro. Fiz alguns telefonemas, recrutando amigos para algum passeio, mas todos já tinham seus planos para aquele dia de sol. Resolvi me arriscar, então tomei banho, coloquei uma roupa e fui pra rua. Decidi passar na casa de meu pai, para dar um oi antes de seguir para... Para onde? Encontrei meu pai com a barriga encostada na pia da cozinha tentando amarrar um saquinho de sacolé, depois de enchê-lo com suco de manga. Meu pai não parecia levar muito jeito com aquilo. Ofereci ajuda e ele explicou que resolveu fazer sacolé para se refrescar por conta do imenso calor que vem fazendo esses dias. Perguntei quantos ele já havia feito e ele respondeu com a testa suada: “Se eu conseguir amarrar, este será o primeiro.”
Percebendo que o suco de manga estava mal batido (o liquidificador de meu pai precisa se aposentar), resolvi levá-los comigo (suco, manga, meu pai...) para minha casa. Chegando lá, bati o suco novamente, desta vez com meu liquidificador. Meu pai ficou encarregado de abrir os sacos enquanto eu os enchia e os amarrava. Fizemos dezenas de sacolés e os colocamos no congelador. Para passar o tempo, ficamos conversando e rindo e, quando nos demos conta, já estava de tardinha e os sacolés devidamente congelados. O papo seguiu até a noite e só fomos interrompidos pelo som do meu telefone tocando. Era um amigo meu perguntando se eu estava a fim de dar uma volta. Respondi que não daria, pois eu já tinha compromisso. Acabei passando meu feriado em casa mesmo, mas em boa companhia e a sensação de que aproveitei da melhor forma possível. Tive a impressão que o dia passou muito rápido, mas com sabor de manga gelada.

Ode a Meus pais Imperfeitos

Não escolhemos nascer, assim como não escolhemos a combinação genética que determinará nossa cadeia hereditária. Uma vez que não nos cabe escolha, podemos afirmar que parentesco não é um privilégio, mas uma conseqüência. A vida não escolhe, a vida simplesmente acontece.
Não acredito em afeto por obrigação. Pessoalmente não fico feliz em imaginar que meus pais me educaram e me alimentaram por obrigação. Prefiro crer que houve uma motivação amorosa, mesmo que distante, um sentimento de proteção, carinho e amparo.
Sou filho de pais separados e, quando criança, testemunhei e enfrentei muitas coisas que alguns adultos teriam dificuldade em assimilar. Minha criação não foi das melhores, mas, a julgar pelas histórias que insistem em circular pelos noticiários, hoje sei que tive muita sorte.
Levantar a mão contra um inocente, além de fácil, pode ser viciante. Quem agride uma criança experimenta uma sensação de poder, de domínio, e acaba fazendo da violência uma rotina para desabafar suas próprias frustrações.
Não fiz escolhas, apenas me adaptei às condições que a vida me ofereceu.
Se por algum momento eu esqueci de agradecer por algo que vocês fizeram por mim, deixo aqui registrado minha gratidão por muitas das coisas que nunca me fizeram:
Obrigado por não terem me esquecido dentro do carro no estacionamento debaixo de um sol de 40ºC.
Obrigado por não terem me jogado da janela do 6º andar.
Obrigado por não terem me abandonado perto de um formigueiro debaixo de uma passarela.
Obrigado por não terem me trancado em um porão me privando de liberdade.
Obrigado por não terem me arremessado no pára-brisa de um carro em movimento ou batido com minha cabeça em um tronco de árvore.
Obrigado por não terem me jogado em um rio poluído dentro de um saco plástico.
Obrigado por não terem me feito experimentar drogas ou a praticar atos que comprometessem minha integridade moral.
Obrigado por não terem inserido dezenas de agulhas em meu corpo por conta de algum pacto satânico.
Obrigado por não terem explorado minha fragilidade em troca de qualquer benefício.
A meus pais imperfeitos sou grato, inclusive por seus erros, pois nunca tiveram a obrigação de acertar. Me entristece pensar que muitas crianças não têm a mesma sorte que eu tive.