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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Castelo

A casa estava lá, como sempre, mas não parecia a mesma. As paredes, os quadros, os móveis, tudo de acordo como deixei, mas tudo parecia diferente. Acomodo minhas malas em cima do sofá e me sento no chão da sala. Olho ao redor e percebo que a casa parece maior. A casa se queixa pelo tempo que permaneceu trancada e exige uma compensação. Prometo pintá-la muito em breve com cores alegres, um jardim na varanda e novos adornos para a cozinha e banheiro. Irredutível, a casa não manifestou qualquer entusiasmo com minhas promessas. Ela queria mais.
Ainda sem jeito devido à fria recepção de meu lar, resolvi desfazer as malas e cada peça de roupa, cada objeto, cada detalhe me transportava de volta aos braços daquela que me acolheu com seu coração nestes últimos dias em que estive distante de meu habitat natural. Foi ela quem me convenceu a abandonar meu mundo aparentemente seguro e me fez embarcar em uma aventura em nome de um amor que desconhece limites. Foi preciso descer do avião para finalmente conhecer o céu através dos olhos, do sorriso e do toque de minha amada.
De volta a minha solitária existência, continuo a desfazer as malas e encontro um tesouro enterrado entre minhas tralhas. Um CD com um repertório de músicas que remetem a momentos especiais. Uma lembrança artesanalmente confeccionada pela mulher que amo. Coloquei o presente no aparelho de som e deitei-me no chão, usando minha própria roupa como travesseiro. Embalado pelas canções, fechei os olhos e pude sentir a presença dela deitada ao meu lado. Não me atrevi a abrir os olhos ou sequer me mover. Adormeci assim, com a certeza de que ela estava ali comigo, há poucos centímetros de distância.
Já de manhã, precisei abrir os olhos e constatei a triste realidade: ela não estava ali. Arrumando-me para o trabalho, notei que minha casa ainda estava de mau humor. Foi então que comecei a entender aquela súbita mania de grandeza que se apoderou de minha morada, então lhe fiz a promessa que meu lar tanto almejava:
_ Deseja a plenitude? Pois buscarei uma rainha para viver conosco e todos te reconhecerão como um castelo!
A casa mostrou-se, enfim, satisfeita. E uma nova viagem começava a ser planejada.

4 comentários:

Jefferson de Morais disse...

Que casa não precisa de uma dona? Que reino não precisa de uma rainha para comandar o seu castelo? ^^
Achei ótimo o post, Cliver. Gostei da forma como você expôs seus sentimentos.

Abraço,
Jefferson.

Fernanda disse...

Texto mto bom... bem a sua cara.


=)

Lua de Março disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Priscila Zarth disse...

Nóssa , você escreve muito bem!
Parabéns!