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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Memorável Melodia

Em minha curta carreira como músico, há uma melodia que jamais esquecerei. Lá estava eu em cima do palco diante de um público animado que repetia o refrão das canções acompanhado pelos instrumentistas. Em meio a tantas mesas lotadas, era fácil identificar a figura de minha mãe que se destacava por ser a única que permanecia sentada com um semblante abatido e olhar nostálgico. Não compreendia porque ela insistia que eu a chamasse para assistir as apresentações de minha banda se ela deixava claro que não estava se divertindo. Cheguei a prometer a mim mesmo que não mais a convidaria, pois a impressão que eu tinha era de que aquilo não passava de uma tortura para ela.
Quando terminamos, fui cumprimentado pelo público. Seguia para o camarim quando minha mãe me abordou para me dar os parabéns.
_ Parabéns pelo o quê? – a interrompi – Eu olhava para a senhora e só a notava triste! Por que a senhora insiste em me ver cantar se qualquer um percebe que não está gostando? Melhor seria ter ficado em casa, não acha?
Não esperei resposta. Fui ao camarim e, enquanto guardava minha guitarra, pude refletir sobre minhas palavras e percebi como fui severo com minha mãe. Ela não precisava estar ali. Tudo bem que não estivesse confortável, mas não deixa de ser um esforço admirável o de aguentar horas de música alta e gente gritando só para prestigiar seu filho. Entendi que minha intolerância já era coisa antiga. Lembro de como eu me aborrecia quando ela insistia em segurar minha mão para atravessarmos a rua, mesmo quando já adulto. Quantas bobagens mais me afastariam de minha mãe? Talvez fosse hora de deixar de lado todas as dissonâncias do passado e iniciar uma tablatura com acordes simples e pausas.
Saindo do camarim, não precisei me esforçar muito para encontrá-la. Minha mãe permanecia parada no mesmo lugar onde eu lhe dei as costas. Pensei em pedir desculpas, mas, desta vez, foi ela quem me interrompeu:
_ Filho, eu admiro tudo o que faz. Eu agradeço muito a Deus pela pessoa linda e talentosa que você se tornou. Se pareço triste é porque lembro das dificuldades que passamos e me aperta o coração pensar em tudo que eu gostaria de ter feito por você e não pude. Penso em tudo que eu poderia ter feito diferente. Me orgulha todas as suas conquistas, mas me dói perceber que não fui cúmplice de muitas delas.
Senti um bloqueio em minha garganta e minha única reação foi desviar o olhar para um ponto qualquer no chão a procura de mim mesmo. Como se lesse meus pensamentos, ela concluiu:
_ Desculpe se eu o aborreço quando insisto em pegar sua mão para atravessarmos uma rua. Sei que você não gosta, mas não é que eu esteja te tratando como criança... Sou eu que preciso de seu apoio, pois assim me sinto mais segura. Você me entende, filho?
O bloqueio em minha garganta foi destruído a golpes de lágrimas e pedidos de desculpas. Não havia nada mais a ser dito, pelo menos não em palavras. Peguei-a pela mão e a conduzi até a mesa.
_ Vem, mãe... Vamos assistir a próxima banda.
Em minha eterna carreira como filho, há uma mãe que jamais esquecerei.

9 comentários:

M. Sueli Gallacci disse...

Cliver, lindo e emocionante teu depoimento!

Vc deve ser mesmo um exemplo de filho, e tua mãe deve sentir muito orgulho de vc. Eu sentiria.

Olha, eu ainda trato meus marmanjões como crianças (vc sabe bem a idade deles, lembra? rsrs) Ligo prá eles o tempo todo, bisbilhoto a vida deles e ainda pego na mão para atravessar a rua rsrs... Mãe é assim mesmo, todas iguais, só mudam de CEP... e de CPF. rsrs

Um bjo enorme amigo!

Fernanda disse...

Aí que guti-guti!
Retorno em grande estilo, valeu a pena esperar!

=**

Anne Chalão disse...

MUITO lindo! Quase chorei lendo...
Vi seu comentário no meu texto, obrigada! ^^
É fiquei sabendo que você não foi ao casamento, mas quem sabe numa próxima eu o conheça! ;D

Beijos!

Eu Sou Juliana disse...

Muito sincero o texto, mas...
(Precisava me fazer chorar?!?)
Amei.
Bjs de luz!

Priscila Zarth disse...

Você me passou em seu texto a imagem de um menino sonhador que se tornou um homem realizado por sí próprio, não foi presciso muito pois havia na própria máquina o combustível. Você tem o dom que se tornou um talento inesplicável, continue escrevendo e encantando a tantas pessoas com suas canções. E também não deixe de agradecer a sua mãe pela bela pessoa que você é, eu até sugeria uma música para bela mãe que você tem. Parabéns.

Marli disse...

Meu lindo amigo...
E que mãe bonitona, hein?!

Bolhas de beijo,

Ostra

Iza Andrade disse...

Parabéns pela maezona eh!!! o que seriamos de nós sem elas...
Parabéns pela grandeza de espírito e achei incrível a conexão entre vocês.
Confesso que seu texto me fez chorar. Muito Lindo!!!

Alessandro Rabello disse...

caraca! Tô chorando! Preciso de um tempo..

CARLOS disse...

Sua mãe é um amor de pessoa. Eu amo minha irmã. rs