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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Gusmão e Josilene

Gusmão quase deixou a marmita cair quando ouviu a declaração de seu colega de trabalho.
_ Que papo de fresco é esse, Everaldino?
_ Só falei que chorei quando vi Titanic, oras!
_ Vai pedir suas contas que pra trabalhar aqui tem que ser macho!
_ Ué! Você acha que eu não sou macho só porque chorei? Você já viu este filme?
_ Vê lá se perco meu tempo com essas porcarias!
Peteco empurrava o carrinho-de-mão e quis saber qual era o assunto:
_ Do que as princesinhas estão falando?
_ Cara, o Everaldino aqui está dizendo que ele chorou vendo o filme Titanic!
_ Aquele do James Cameron?! Nossa! Eu assisti com minha patroa! Só de lembrar da música da Celine Dion já sinto as lágrimas chegando!
_ Até você, Peteco?! O mundo está acabando mesmo! Ô, Josiomar! Dá um tempo aí no concreto e chega mais! Você chorou com o filme Titanic?
_ Pô, não chorei não. Mas vocês já assistiram A Vida é Bela? Acho que fiquei desidratado de tanto que chorei...
_ Meu Deus! Estou cercado por um bando de efeminados!
O capataz chegou pra botar ordem.
_ Vamos parar com a moleza? Dá pras moçoilas pararem de fofoca e voltarem ao serviço?
_ Pode responder uma perguntinha antes, chefe?
_ Fala logo, Gusmão!
_ O senhor costuma chorar quando vê filme?
_ Mas de jeito nenhum! Está pensando que eu sou o quê?
_ Esse é meu patrão!
É a vez de Josiomar perguntar.
_ Mas o senhor assistiu A Vida é Bela?
_ Nossa! Sim, sim... (responde tirando um lenço do bolso e secando os olhos) É muito emocionante!
_ Mas o senhor disse que não chora com filmes – esbravejou Gusmão, inconformado.
_ Mas A Vida é Bela não é um filme... É uma obra de arte! (soluçando) Com licença... Preciso resolver umas coisas agora...
Gusmão transtornado:
_ A que ponto chegamos? Não se fazem mais homens como antigamente?
Eis que Mandela, um homenzarrão patola, que carregava um saco de cimento no ombro com toda naturalidade e desenvoltura de um empresário carregando um terno, surge em meio às lamentações de Gusmão.
_ Mandela! Você é minha última esperança! Diz pra mim: Você chora quando vê filme?
_ Pô, Gusmão, a televisão lá de casa está no conserto. Não costumo ver filme.
_ Estão vendo? Eu sabia que Mandela não me decepcionaria!
_ Mas, Mandela, – Peteco interpola – você não se emociona com história nenhuma?
_ Ah, sim! Eu até chorei no final de Marley & Eu.
_ O quê?! Mandela... Você acabou de dizer que não costuma ver filme!
_ Filme mesmo não, mas eu li o livro, oras!
Agora sim a marmita de Gusmão caiu de vez.
_ Olha o que vocês fizeram! Deixei meu almoço cair no chão por causa de vocês, seus borra-botas! Se bem que depois dessas declarações eu até perdi a fome!
Everaldino sugere:
_ Gusmão, por que você não passa na barraquinha do Antunes aqui na frente da obra e compra um DVD pirata?
_ Mas eu já vivo fazendo isso!
_ Não estou falando dos pornôs! Pega um drama dessa vez!

...

Josilene volta de seu trabalho como diarista e pega todo dia o trem lotado para chegar em sua humilde casa localizada na encosta de uma favela. Antes, ela passa na creche para pegar os dois filhos, Gleuberson de sete e Tainara de cinco anos. O esforço para subir a íngreme ladeira é ainda mais penoso agora que ela está no quarto mês de gestação. Josilene estranhou que seu marido já estivesse deitado, pois tinha jogo do flamengo depois da novela. Ainda mais estranho era aquele DVD no braço do sofá. O filme se chamava Um Amor Para Recordar e na capa havia a imagem de um casal abraçado... De roupa!
Depois de jantar e colocar os filhos pra dormir, Josilene foi se deitar ao lado do marido. Ela beija suas costas e o acaricia até alcançar sua cueca. Ele retira sua mão carinhosamente.
_ Gusmão?! O que está havendo com você hoje?
Gusmão não se vira. O rosto mirando a parede no escuro do quarto garante o sigilo de suas lágrimas.
_ Estou bem, mulher. Apenas me abrace, por favor.
Josilene o abraçou, mas não conseguiu adormecer. O que estava acontecendo? Ele não a deseja mais? Estaria a traindo com outra? Teria alguma coisa a ver com o que o pastor de sua igreja pregou domingo passado? Algo a ver com o fim do mundo, sei lá.

...

De manhã, Gusmão tomou café junto com toda família. Despediu-se beijando esposa e filhos dizendo que os amava. Precisou se conter para não chorar novamente. Josilene acompanhava os passos do esposo descendo a ladeira. Gusmão olha para trás e acena para a esposa. Josilene devolve o gesto, meio atônita. Ela olha para o céu e nota o tempo nublado e enormes nuvens negras se formando ao longe.
_ Mamãe, o papai está virando mariquinha?
_ Deixa de bobagem, menino! Termina de tomar seu café!
Josilene retruca sem tirar um só momento os olhos do céu.

5 comentários:

Fernanda disse...

huahuahua
mto bom!! rs

Lua de Março disse...
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João Berkel disse...

^^
Ei! isso me lembra alguma coisa... Algum lugar...

Jefferson de Morais disse...

Meu amigo, isso foi esplêndido! Muito bom, mesmo!
Meus parabéns!
Jefferson

No Deserto e no Telhado disse...

"Em algum momento é necessário abaixar as armas". Muito bom. Saudações.