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terça-feira, 23 de março de 2010

Felicidade Segundo o Profeta

Que a maior faculdade de Filosofia que existe é a mesa de um botequim não é nenhuma novidade (não sei ao certo se o MEC já reconheceu isso, mas é só uma questão de tempo), mas tenho notado um olhar messiânico por parte de seus freqüentadores. Clientes com algum tipo de angústia chegam solitários ao bar em busca de alguma resposta para suas aflições que bem podem estar no fundo do copo ou nas conversas periféricas. Na maioria dos casos a resposta (quando vem) é esquecida no dia seguinte por conta da maldita ressaca.
Em certa ocasião, uma mulher de meia-idade entrou em um famoso bar freqüentado por célebres pensadores e escolheu uma mesa próxima a um grupo exaltado que bebiam e bradavam suas considerações sobre a vida. A mulher pediu um chopp e ficou atenta ao papo acalorado da mesa vizinha.
_ O Ronaldo engordou, mas e daí? O cara é o fenômeno!
_ E esses caras que mergulham com tubarões? São loucos!
_ Eu também tenho uma cicatriz no queixo!
_ Político é tudo ladrão e safado!
A mulher pede mais um chopp. Ela se sente solitária, desnorteada, sem respostas. Ela sabe que cedo ou tarde chegará alguém que dirá as palavras certas. Que resolverá seu conflito existencial.
Algum tempo depois, chega um homem grisalho de gravata frouxa. Ele se junta aos colegas pensadores e pede um conhaque pra começar. Ele é daqueles que sabem beber, não perde a classe, sabe a hora certa de dar sua opinião e todos se calam quando ele fala. É ele. Só pode ser ele o messias desta noite!
Algumas rodadas de chopp e a mulher, meio trôpega, caminha até a mesa e indaga:
_ Você parece muito seguro de tudo que diz. Quero saber se você tem mesmo resposta pra tudo. Diz pra mim... O que é a felicidade?
Fez-se uma pausa de silêncio. Todos olharam para o senhor grisalho que, sem olhar para a mulher, bebe todo conteúdo de seu copo de um só gole, repousa o copo vazio na mesa, respira fundo e responde:
_ Felicidade é beber um copo de água geladinha depois de comer um naco de goiabada.
Todos o olharam maravilhados. Brindaram sua sapiência e voltaram às suas especulações sobre o universo.
A mulher voltou para seu lugar, ainda atordoada com a resposta. Ela chama o garçom e, com um sorriso de canto de boca, faz seu pedido.
_ Vou direto para à sobremesa! Eu quero um prato de Romeu e Julieta, mas sem queijo! E uma água mineral bem gelada!
O garçom quer saber:
_ A água mineral é com gás ou sem gás?
A mulher olha para o garçom nitidamente espantada. Ela baixa o rosto e, com os olhos rasos d’água, decide:
_ Suspende a sobremesa... Me traga outro chopp.
Mais um falso profeta. É claro que a felicidade não poderia ser tão simples assim.

4 comentários:

Anne Chalão disse...

Olá!
Vi que você comentou no meu blog e vim ver o seu! ;)
Adorei o texto!!!
Mas afinal,onde você me encontrou?? rs

Até mais!

Jefferson de Morais disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jefferson de Morais disse...

Cliver, gostei muito do conto! Acho mesmo que a felicidade - ou, pelo menos, o princípio dela - pode ser encontrada nas simplicidades da vida.
Ótimo 'post'!
Abraço,
Jefferson.

João Berkel disse...

Hoje mesmo vou pedir meu "romeu e julieta" e minha água mineral sem gás.

Eu ACREDITO!

Saudações.