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segunda-feira, 1 de março de 2010

Verdades (Vide Bula)

Sei que algo acontece. Algo sempre está acontecendo.
Nem tudo que escrevo sou eu e nem por isso menos verdadeiro. Certas verdades deveriam ser sinalizadas com uma tarja preta. Avisos de advertência quanto aos diversos efeitos colaterais (asfixia, taquicardia, oscilação da pressão arterial...). A verdade é libertadora, mas toda liberdade tem suas contra-indicações.
Existem os métodos alternativos. Alguns praticam a manipulação da verdade, ofertando-a em doses homeopáticas. A mentira é um alucinógeno, facilmente encontrado em qualquer beco, qualquer esquina. Não há prescrição, apesar do grande mal que possa nos fazer, por isso é tremendamente popular e viciante. Quem mente vê-se obrigado a mentir sempre para sustentar a mentira anterior. Mentir dispensa receituário, não possui qualquer controle, circula livremente. Por fim, mentiras não substituem a verdade, mas costumam ser muito bem-vindas em muitos casos, chegando, inclusive, a ser utilizada como primeira opção de tratamento.
A omissão é um placebo. Na prática, não produz qualquer efeito, mas pode causar sintomas momentâneos de bem-estar (ou não) se apenas acreditarmos e calarmos.
O que é a verdade? Quantas são as verdades? O que os fragmentos ao redor têm para nos revelar? Algo sempre acontece e nos cabe escolher a versão que melhor nos adaptamos. Seja como for, a verdade prevalece sempre. Somente a verdade pode curar.
Nem tudo que escrevo sou eu, mas, certamente, tem eu.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Quantos Corações são Necessários Para Trocar Uma Lâmpada?

Há tempos que meu coração vem se preparando para recebê-la. Ele fez questão de cuidar de cada detalhe, redecorou tudo a seu gosto, apesar de eu achar que ele exagerou um pouco nos tons azuis – Quem mandou revelar a ele sua favorita cor?
Realinhou toda mobília, colocou toalhas limpas no banheiro, encomendou flores diversas para preparar arranjos e espalhar pétalas pela cama e pelo chão do quarto (você não faz idéia de como é difícil achar tulipas esta época do ano).
Espanou e varreu toda poeira, inclusive debaixo do tapete. Tudo para garantir todo conforto que você merece. Mas, algo inesperado aconteceu...
A lâmpada queimou! E agora?
Meu coração desesperou-se. Como isso poderia acontecer? Tudo já estava decidido, resolvido, organizado! E se ela quiser ler um livro? E se ela levantar à noite insone? E se ela tiver medo do escuro? Não bastava trocar a lâmpada, era preciso descobrir a razão. O que teria provocado esta súbita escuridão? Poderia ter sido um curto-circuito? Hm... Uma sobrecarga, na certa. De fato, havia muita energia cercando o coração. Energias que não deveriam ser eliminadas, mas reordenadas, pois cada energia tem sua função.
Perdido no escuro, o coração tropeça em cadeiras e almofadas. Quase deixou um jarro cair. Foi uma verdadeira aventura até alcançar a gaveta onde guardava outra lâmpada para um caso de emergência. Na tentativa de buscar a escada, acabou se descuidando e a lâmpada nova despedaçou-se ao atingir o chão.
Pobre coração... Estava tão ansioso e agora sente-se inútil e culpado por não ter se preparado melhor para acolhê-la. Aflito, sentou-se no escuro engolindo o choro. Tentei acalmá-lo, “o tempo resolve tudo”, disse a ele.
Eis que o dia amanheceu. Bastou abrir as cortinas e deixar o sol entrar. Tudo agora parecia claro. Meu coração não perdeu mais tempo e providenciou o imediato reparo, desejando que você confie nele, que esteja certa de que ele não deixará isso acontecer outra vez.
Sozinho, meu coração é capaz de trocar uma lâmpada, é só uma questão de tempo para o sol voltar a brilhar e iluminar o interior.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Castelo

A casa estava lá, como sempre, mas não parecia a mesma. As paredes, os quadros, os móveis, tudo de acordo como deixei, mas tudo parecia diferente. Acomodo minhas malas em cima do sofá e me sento no chão da sala. Olho ao redor e percebo que a casa parece maior. A casa se queixa pelo tempo que permaneceu trancada e exige uma compensação. Prometo pintá-la muito em breve com cores alegres, um jardim na varanda e novos adornos para a cozinha e banheiro. Irredutível, a casa não manifestou qualquer entusiasmo com minhas promessas. Ela queria mais.
Ainda sem jeito devido à fria recepção de meu lar, resolvi desfazer as malas e cada peça de roupa, cada objeto, cada detalhe me transportava de volta aos braços daquela que me acolheu com seu coração nestes últimos dias em que estive distante de meu habitat natural. Foi ela quem me convenceu a abandonar meu mundo aparentemente seguro e me fez embarcar em uma aventura em nome de um amor que desconhece limites. Foi preciso descer do avião para finalmente conhecer o céu através dos olhos, do sorriso e do toque de minha amada.
De volta a minha solitária existência, continuo a desfazer as malas e encontro um tesouro enterrado entre minhas tralhas. Um CD com um repertório de músicas que remetem a momentos especiais. Uma lembrança artesanalmente confeccionada pela mulher que amo. Coloquei o presente no aparelho de som e deitei-me no chão, usando minha própria roupa como travesseiro. Embalado pelas canções, fechei os olhos e pude sentir a presença dela deitada ao meu lado. Não me atrevi a abrir os olhos ou sequer me mover. Adormeci assim, com a certeza de que ela estava ali comigo, há poucos centímetros de distância.
Já de manhã, precisei abrir os olhos e constatei a triste realidade: ela não estava ali. Arrumando-me para o trabalho, notei que minha casa ainda estava de mau humor. Foi então que comecei a entender aquela súbita mania de grandeza que se apoderou de minha morada, então lhe fiz a promessa que meu lar tanto almejava:
_ Deseja a plenitude? Pois buscarei uma rainha para viver conosco e todos te reconhecerão como um castelo!
A casa mostrou-se, enfim, satisfeita. E uma nova viagem começava a ser planejada.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Cortesia

Em uma remota estrada de uma região montanhosa, havia uma humilde edificação que funcionava como um restaurante de raros freqüentadores. O dono do estabelecimento, um senhor idoso de andar lento e poucas palavras, que trabalhava ali sozinho desde que ficou viúvo há mais de década, procurava agradar como fosse possível seus clientes. No final de cada refeição, ele servia uma xícara de chá feito de ervas aromáticas, receita de sua falecida e saudosa esposa, mas podíamos facilmente identificar a refrescância do hortelã em meio ao exótico e estimulante sabor.
Cada um reagia de uma forma diferente. Uns diziam que não gostavam de chá, ou que não pediram. Outros não falavam nada e deixavam o chá sobre a mesa. Alguns bebiam e saiam sem dizer nada, achando que poderiam ser cobrados por aquele agrado adicional.
Um dia, uma mulher de meia-idade de sorriso fácil, cansada pela longa caminhada, chegou com uma grande mochila nas costas e perguntou se poderia recarregar seu celular. O velho apontou para uma tomada próxima ao balcão. Ela plugou seu carregador e fez uma ligação pedindo um reboque para seu carro enguiçado há alguns quilômetros dali. Com a confirmação que o socorro chegaria lá em quarenta e cinco minutos, sentou-se para esperar. O dono do restaurante surgiu ao seu lado e lhe serviu uma xícara de seu chá especial. A mulher ficou encantada e agradeceu com um olhar cheio de doçura.
Quando finalmente o reboque chegou, a mulher levantou-se e perguntou quanto devia. O ancião respondeu que era cortesia da casa.
_ Como cortesia? Eu não fiz nenhuma refeição!
“Cortesia”, ele repetiu.
A mulher deu uma pausa e, olhando ao redor, captou a mensagem. Ela o abraçou, deu um beijo em seu rosto enrugado e o agradeceu. Ela entrou no reboque e se despediu com um aceno e os olhos rasos d’água, mantendo o amável sorriso. Ela entendeu que o chá era uma cortesia, não àqueles que ali comiam, mas sim a todos que entravam naquele restaurante e, mesmo que por alguns minutos, lhe faziam companhia.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Repescagem

Existe uma razão para a expressão “namoro sério”. É que a partir deste ponto os sorrisos ficam cada vez mais raros. Durante muito tempo eu comparava conhecer os pais da menina como uma espécie de vestibular. A gente se prepara para enfrentar o grande momento em que seremos ou não aprovados por nossos futuros sogros. Hoje percebo que tal comparação é uma tremenda injustiça com o pobre vestibular, afinal, no vestibular sempre há a possibilidade de ser aprovado. Numa apresentação aos pais de sua namorada você já está reprovado desde o momento em que eles souberam de sua existência. Você pode até passar na repescagem, mas haja burocracia!
Tive sorte com alguns pais de namoradas, mas, de um modo geral, os trâmites são sempre os mesmos e as conclusões também: “Quais são suas intenções? Estuda? Trabalha? Ganha quanto? Tem tatuagens? Qual seu time? Faz uso de entorpecentes e outras drogas ilícitas? Tem vínculo com alguma célula terrorista?...”
Algumas questões são pegadinhas:
_ Paga pensão alimentícia?
_ Não, senhor.
_ Sabia que você pode ser preso por isso?
_ Mas eu não tenho filhos!
_ Você é gay?
_ Não! É que eu nunca fui casado!
_ Então quer se juntar com minha filha pra engravidá-la e pular fora sem pagar pensão?!?! Quer ir pra prisão virar mulherzinha, né??
_ Hã?!
Mesmo quando você acredita que está aprovado, você descobre que precisa constantemente provar ser merecedor da bênção de estar freqüentando esta casa. É preciso estar sempre elogiando a comida da sogra, sempre disposto a ajudar o sogro nos trabalhos braçais e sua namorada deve estar sempre com um sorriso estampado no rosto! A inobservância de qualquer uma destas obrigações pode acarretar em punições severas e/ou imediata expulsão desta instituição familiar.
E não adianta provar suas boas intenções. Lembro do dia em que resolvi ficar noivo. Na hora de falar com meus sogros tive a impressão que eu havia cometido um crime hediondo... “Vocês vão viver de quê? Isso é alguma piada? Vão morar onde? Não pense que vão fazer ‘puxadinho’ aqui não!...” Me senti o homem mais miserável do planeta e, depois disso, o noivado não foi pra frente.
Tudo que acontece na vida nos serve como experiência. Espero que isso valha também para os casos de “namoro sério”. Imagine como seria bom se para cada experiência ruim acumulássemos pontos que nos garantiria uma certa vantagem na próxima tentativa:
_ Pretende namorar minha filha? É bolsista? Tem algum tipo de desconto?
_ Não, mas tenho direito pelo sistema de cotas!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Feriado

Dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro. Como trabalhador deste Município, hoje estou em casa pensando o que fazer para curtir este feriado. Não havia muitas opções, mas não queria ficar em casa. Abri a carteira e constatei que eu tinha o suficiente para chegar a algum caixa-eletrônico e retirar mais dinheiro. Fiz alguns telefonemas, recrutando amigos para algum passeio, mas todos já tinham seus planos para aquele dia de sol. Resolvi me arriscar, então tomei banho, coloquei uma roupa e fui pra rua. Decidi passar na casa de meu pai, para dar um oi antes de seguir para... Para onde? Encontrei meu pai com a barriga encostada na pia da cozinha tentando amarrar um saquinho de sacolé, depois de enchê-lo com suco de manga. Meu pai não parecia levar muito jeito com aquilo. Ofereci ajuda e ele explicou que resolveu fazer sacolé para se refrescar por conta do imenso calor que vem fazendo esses dias. Perguntei quantos ele já havia feito e ele respondeu com a testa suada: “Se eu conseguir amarrar, este será o primeiro.”
Percebendo que o suco de manga estava mal batido (o liquidificador de meu pai precisa se aposentar), resolvi levá-los comigo (suco, manga, meu pai...) para minha casa. Chegando lá, bati o suco novamente, desta vez com meu liquidificador. Meu pai ficou encarregado de abrir os sacos enquanto eu os enchia e os amarrava. Fizemos dezenas de sacolés e os colocamos no congelador. Para passar o tempo, ficamos conversando e rindo e, quando nos demos conta, já estava de tardinha e os sacolés devidamente congelados. O papo seguiu até a noite e só fomos interrompidos pelo som do meu telefone tocando. Era um amigo meu perguntando se eu estava a fim de dar uma volta. Respondi que não daria, pois eu já tinha compromisso. Acabei passando meu feriado em casa mesmo, mas em boa companhia e a sensação de que aproveitei da melhor forma possível. Tive a impressão que o dia passou muito rápido, mas com sabor de manga gelada.

Ode a Meus pais Imperfeitos

Não escolhemos nascer, assim como não escolhemos a combinação genética que determinará nossa cadeia hereditária. Uma vez que não nos cabe escolha, podemos afirmar que parentesco não é um privilégio, mas uma conseqüência. A vida não escolhe, a vida simplesmente acontece.
Não acredito em afeto por obrigação. Pessoalmente não fico feliz em imaginar que meus pais me educaram e me alimentaram por obrigação. Prefiro crer que houve uma motivação amorosa, mesmo que distante, um sentimento de proteção, carinho e amparo.
Sou filho de pais separados e, quando criança, testemunhei e enfrentei muitas coisas que alguns adultos teriam dificuldade em assimilar. Minha criação não foi das melhores, mas, a julgar pelas histórias que insistem em circular pelos noticiários, hoje sei que tive muita sorte.
Levantar a mão contra um inocente, além de fácil, pode ser viciante. Quem agride uma criança experimenta uma sensação de poder, de domínio, e acaba fazendo da violência uma rotina para desabafar suas próprias frustrações.
Não fiz escolhas, apenas me adaptei às condições que a vida me ofereceu.
Se por algum momento eu esqueci de agradecer por algo que vocês fizeram por mim, deixo aqui registrado minha gratidão por muitas das coisas que nunca me fizeram:
Obrigado por não terem me esquecido dentro do carro no estacionamento debaixo de um sol de 40ºC.
Obrigado por não terem me jogado da janela do 6º andar.
Obrigado por não terem me abandonado perto de um formigueiro debaixo de uma passarela.
Obrigado por não terem me trancado em um porão me privando de liberdade.
Obrigado por não terem me arremessado no pára-brisa de um carro em movimento ou batido com minha cabeça em um tronco de árvore.
Obrigado por não terem me jogado em um rio poluído dentro de um saco plástico.
Obrigado por não terem me feito experimentar drogas ou a praticar atos que comprometessem minha integridade moral.
Obrigado por não terem inserido dezenas de agulhas em meu corpo por conta de algum pacto satânico.
Obrigado por não terem explorado minha fragilidade em troca de qualquer benefício.
A meus pais imperfeitos sou grato, inclusive por seus erros, pois nunca tiveram a obrigação de acertar. Me entristece pensar que muitas crianças não têm a mesma sorte que eu tive.