Que a maior faculdade de Filosofia que existe é a mesa de um botequim não é nenhuma novidade (não sei ao certo se o MEC já reconheceu isso, mas é só uma questão de tempo), mas tenho notado um olhar messiânico por parte de seus freqüentadores. Clientes com algum tipo de angústia chegam solitários ao bar em busca de alguma resposta para suas aflições que bem podem estar no fundo do copo ou nas conversas periféricas. Na maioria dos casos a resposta (quando vem) é esquecida no dia seguinte por conta da maldita ressaca.
Em certa ocasião, uma mulher de meia-idade entrou em um famoso bar freqüentado por célebres pensadores e escolheu uma mesa próxima a um grupo exaltado que bebiam e bradavam suas considerações sobre a vida. A mulher pediu um chopp e ficou atenta ao papo acalorado da mesa vizinha.
_ O Ronaldo engordou, mas e daí? O cara é o fenômeno!
_ E esses caras que mergulham com tubarões? São loucos!
_ Eu também tenho uma cicatriz no queixo!
_ Político é tudo ladrão e safado!
A mulher pede mais um chopp. Ela se sente solitária, desnorteada, sem respostas. Ela sabe que cedo ou tarde chegará alguém que dirá as palavras certas. Que resolverá seu conflito existencial.
Algum tempo depois, chega um homem grisalho de gravata frouxa. Ele se junta aos colegas pensadores e pede um conhaque pra começar. Ele é daqueles que sabem beber, não perde a classe, sabe a hora certa de dar sua opinião e todos se calam quando ele fala. É ele. Só pode ser ele o messias desta noite!
Algumas rodadas de chopp e a mulher, meio trôpega, caminha até a mesa e indaga:
_ Você parece muito seguro de tudo que diz. Quero saber se você tem mesmo resposta pra tudo. Diz pra mim... O que é a felicidade?
Fez-se uma pausa de silêncio. Todos olharam para o senhor grisalho que, sem olhar para a mulher, bebe todo conteúdo de seu copo de um só gole, repousa o copo vazio na mesa, respira fundo e responde:
_ Felicidade é beber um copo de água geladinha depois de comer um naco de goiabada.
Todos o olharam maravilhados. Brindaram sua sapiência e voltaram às suas especulações sobre o universo.
A mulher voltou para seu lugar, ainda atordoada com a resposta. Ela chama o garçom e, com um sorriso de canto de boca, faz seu pedido.
_ Vou direto para à sobremesa! Eu quero um prato de Romeu e Julieta, mas sem queijo! E uma água mineral bem gelada!
O garçom quer saber:
_ A água mineral é com gás ou sem gás?
A mulher olha para o garçom nitidamente espantada. Ela baixa o rosto e, com os olhos rasos d’água, decide:
_ Suspende a sobremesa... Me traga outro chopp.
Mais um falso profeta. É claro que a felicidade não poderia ser tão simples assim.
terça-feira, 23 de março de 2010
terça-feira, 16 de março de 2010
Beleza Visceral
O mundo vem se tornando cada vez mais intolerante com quem não se enquadra aos patrões de beleza estabelecidos pela mídia. Sendo esta imposição cruel e sem limites, pego-me pensando qual será a próxima imagem cobiçada que devemos seguir para ser aceito neste universo mutável. A estética, mais que um produto é um império que admite meios cada vez mais severos para tornar-se socialmente aceitável. Um retoque no nariz, uma empinada na bunda, uma turbinada nos seios... Nada disso basta se não tivermos uma meta, uma razão para nos entregarmos aos milagres de um bisturi, dietas e exercícios diários.
Claro que tudo isso pode ser muito saudável, mas qual será o próximo objetivo? Os padrões de beleza mudam constantemente e tudo que almejamos é o inalcançável. O que desejamos ser jamais estará diante de nossos espelhos. O que desejamos ser está exposto em outdoors, comerciais de TV, capas de revistas... O objetivo maior da indústria da moda é nos convencer que não somos felizes com o que somos ou o que temos. Consuma cada vez mais. Transforme-se cada vez mais. Pense cada vez menos.
Não existe espaço para sentimentos, o que importa é a aparência. Tabelas, cálculos matemáticos, índices e escalas guiarão seus passos como um oráculo. O resultado de sua circunferência corporal determinará seu lugar neste mundo (não há lugar para quem aja diferente). Ninguém deseja saber como você está, mas quantos gramas perdeu nos últimos dias, quantos minutos você faz na esteira, qual tipo de silicone você recomenda.
Quando a exposição “Corpo Humano Real e Fascinante” esteve em minha cidade, levei minha sobrinha que ficou encantada com todos aqueles cadáveres fatiados. Será que é este o limite pela busca incansável pela perfeição? Zumbis que circulam pelas ruas exibindo seus corpos anorexos e bulímicos conservados através de um processo de plastificação? Alguém precisa explicar a essas pessoas que “Beleza Visceral” não deve ser levada ao pé da letra, ou, em breve, encontraremos clínicas estéticas especializadas em corrigir as imperfeições de nossas vísceras. Imagine a cena: “Oi, gata! Quer ver como meu pâncreas é sarado? Já viu um esôfago mais lindo que o meu?” Pode até parecer engraçado, mas isso é real... E fascinante(?).
Claro que tudo isso pode ser muito saudável, mas qual será o próximo objetivo? Os padrões de beleza mudam constantemente e tudo que almejamos é o inalcançável. O que desejamos ser jamais estará diante de nossos espelhos. O que desejamos ser está exposto em outdoors, comerciais de TV, capas de revistas... O objetivo maior da indústria da moda é nos convencer que não somos felizes com o que somos ou o que temos. Consuma cada vez mais. Transforme-se cada vez mais. Pense cada vez menos.
Não existe espaço para sentimentos, o que importa é a aparência. Tabelas, cálculos matemáticos, índices e escalas guiarão seus passos como um oráculo. O resultado de sua circunferência corporal determinará seu lugar neste mundo (não há lugar para quem aja diferente). Ninguém deseja saber como você está, mas quantos gramas perdeu nos últimos dias, quantos minutos você faz na esteira, qual tipo de silicone você recomenda.
Quando a exposição “Corpo Humano Real e Fascinante” esteve em minha cidade, levei minha sobrinha que ficou encantada com todos aqueles cadáveres fatiados. Será que é este o limite pela busca incansável pela perfeição? Zumbis que circulam pelas ruas exibindo seus corpos anorexos e bulímicos conservados através de um processo de plastificação? Alguém precisa explicar a essas pessoas que “Beleza Visceral” não deve ser levada ao pé da letra, ou, em breve, encontraremos clínicas estéticas especializadas em corrigir as imperfeições de nossas vísceras. Imagine a cena: “Oi, gata! Quer ver como meu pâncreas é sarado? Já viu um esôfago mais lindo que o meu?” Pode até parecer engraçado, mas isso é real... E fascinante(?).
segunda-feira, 8 de março de 2010
Famintos
Nunca tive muito talento para cuidar de mim mesmo e meus hábitos alimentares então nunca foram muito saudáveis. Quando trabalhamos, estudamos e moramos sozinhos, a gente acaba se virando com lanches rápidos, práticos e de origem duvidosa. Pouco antes do horário do primeiro tempo de aula, costumava comer em uma pastelaria próxima à faculdade.
Certa feita, lá estava eu com meu pastel de queijo e um caldo de cana quando fui abordado por uma menina andrajosa que não parecia ter mais de seis anos de idade. Ela perguntou se eu poderia lhe pagar um salgado. Ela escolheu o tão conhecido “joelho” de presunto e queijo. Ela recebeu aquele alimento como uma dádiva vinda dos céus, o olhar vívido e um sorriso festivo.
“Como é que se diz?”, perguntou uma senhora encostada no balcão, à minha direita. A menina nada disse. Pegou o joelho das mãos da balconista e saiu em direção à rua. “Falta de educação, sabe nem pedir obrigada!”, disse a mesma mulher, agora com a boca cheia de quibe. “É por isso que eu não pago quando me pedem! É mau costume! Aposto que nem está com fome!”, emendou o homem à minha esquerda com o bigode sujo de risole, segurando uma lata de refrigerante, nitidamente incomodado, não sei ao certo se por eu ter pago o joelho à menina ou por não ter respondido à mulher. O fato é que eu precisaria ter meu espírito completamente surdo para ignorar tamanha gratidão que vibrava daquele pequeno corpo. Evito pensar muito nessas horas, pois sempre encontramos boas razões para negarmos uma ajuda, mesmo que essa razão venha de pessoas sentadas ao seu lado ou de nosso próprio medo de perder nossas migalhas para os pássaros. Por que devemos esperar uma recompensa de alguém que nos honra com a chance de podermos ajudá-la? Talvez seja eu quem devesse agradecer.
Saindo da pastelaria, vi a menina esperando o semáforo fechar para atravessar a rua. Do outro lado, uma menina igualmente mal vestida e visivelmente mais jovem a esperava com os braços apontados para o céu, como quem comemora a grande vitória de seu time do coração. A outra exibia sua conquista como um troféu. Um troféu que foi imediatamente repartido entre as duas com tamanha euforia.
Tal cena fez meu aparelho digestivo interromper seu trabalho e refletir sobre os vários tipos de fome que nos assola. Senti-me um miserável por ter tido a chance de ajudar e ter oferecido tão pouco. Aquelas crianças não conhecem outro sabor senão o da necessidade e, mesmo assim, comemoram seu jantar com a alegria que muitas vezes não sabemos apreciar.
Elas seguem seu caminho incerto de mãos dadas. Seus espíritos estão alimentados e satisfeitos. Decido preencher meu vazio com meus estudos e sigo para meu compromisso, mas não sem antes olhar apiedado os pobres famintos que conferem o troco ainda dentro da pastelaria.
Certa feita, lá estava eu com meu pastel de queijo e um caldo de cana quando fui abordado por uma menina andrajosa que não parecia ter mais de seis anos de idade. Ela perguntou se eu poderia lhe pagar um salgado. Ela escolheu o tão conhecido “joelho” de presunto e queijo. Ela recebeu aquele alimento como uma dádiva vinda dos céus, o olhar vívido e um sorriso festivo.
“Como é que se diz?”, perguntou uma senhora encostada no balcão, à minha direita. A menina nada disse. Pegou o joelho das mãos da balconista e saiu em direção à rua. “Falta de educação, sabe nem pedir obrigada!”, disse a mesma mulher, agora com a boca cheia de quibe. “É por isso que eu não pago quando me pedem! É mau costume! Aposto que nem está com fome!”, emendou o homem à minha esquerda com o bigode sujo de risole, segurando uma lata de refrigerante, nitidamente incomodado, não sei ao certo se por eu ter pago o joelho à menina ou por não ter respondido à mulher. O fato é que eu precisaria ter meu espírito completamente surdo para ignorar tamanha gratidão que vibrava daquele pequeno corpo. Evito pensar muito nessas horas, pois sempre encontramos boas razões para negarmos uma ajuda, mesmo que essa razão venha de pessoas sentadas ao seu lado ou de nosso próprio medo de perder nossas migalhas para os pássaros. Por que devemos esperar uma recompensa de alguém que nos honra com a chance de podermos ajudá-la? Talvez seja eu quem devesse agradecer.
Saindo da pastelaria, vi a menina esperando o semáforo fechar para atravessar a rua. Do outro lado, uma menina igualmente mal vestida e visivelmente mais jovem a esperava com os braços apontados para o céu, como quem comemora a grande vitória de seu time do coração. A outra exibia sua conquista como um troféu. Um troféu que foi imediatamente repartido entre as duas com tamanha euforia.
Tal cena fez meu aparelho digestivo interromper seu trabalho e refletir sobre os vários tipos de fome que nos assola. Senti-me um miserável por ter tido a chance de ajudar e ter oferecido tão pouco. Aquelas crianças não conhecem outro sabor senão o da necessidade e, mesmo assim, comemoram seu jantar com a alegria que muitas vezes não sabemos apreciar.
Elas seguem seu caminho incerto de mãos dadas. Seus espíritos estão alimentados e satisfeitos. Decido preencher meu vazio com meus estudos e sigo para meu compromisso, mas não sem antes olhar apiedado os pobres famintos que conferem o troco ainda dentro da pastelaria.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Verdades (Vide Bula)
Sei que algo acontece. Algo sempre está acontecendo.
Nem tudo que escrevo sou eu e nem por isso menos verdadeiro. Certas verdades deveriam ser sinalizadas com uma tarja preta. Avisos de advertência quanto aos diversos efeitos colaterais (asfixia, taquicardia, oscilação da pressão arterial...). A verdade é libertadora, mas toda liberdade tem suas contra-indicações.
Existem os métodos alternativos. Alguns praticam a manipulação da verdade, ofertando-a em doses homeopáticas. A mentira é um alucinógeno, facilmente encontrado em qualquer beco, qualquer esquina. Não há prescrição, apesar do grande mal que possa nos fazer, por isso é tremendamente popular e viciante. Quem mente vê-se obrigado a mentir sempre para sustentar a mentira anterior. Mentir dispensa receituário, não possui qualquer controle, circula livremente. Por fim, mentiras não substituem a verdade, mas costumam ser muito bem-vindas em muitos casos, chegando, inclusive, a ser utilizada como primeira opção de tratamento.
A omissão é um placebo. Na prática, não produz qualquer efeito, mas pode causar sintomas momentâneos de bem-estar (ou não) se apenas acreditarmos e calarmos.
O que é a verdade? Quantas são as verdades? O que os fragmentos ao redor têm para nos revelar? Algo sempre acontece e nos cabe escolher a versão que melhor nos adaptamos. Seja como for, a verdade prevalece sempre. Somente a verdade pode curar.
Nem tudo que escrevo sou eu, mas, certamente, tem eu.
Nem tudo que escrevo sou eu e nem por isso menos verdadeiro. Certas verdades deveriam ser sinalizadas com uma tarja preta. Avisos de advertência quanto aos diversos efeitos colaterais (asfixia, taquicardia, oscilação da pressão arterial...). A verdade é libertadora, mas toda liberdade tem suas contra-indicações.
Existem os métodos alternativos. Alguns praticam a manipulação da verdade, ofertando-a em doses homeopáticas. A mentira é um alucinógeno, facilmente encontrado em qualquer beco, qualquer esquina. Não há prescrição, apesar do grande mal que possa nos fazer, por isso é tremendamente popular e viciante. Quem mente vê-se obrigado a mentir sempre para sustentar a mentira anterior. Mentir dispensa receituário, não possui qualquer controle, circula livremente. Por fim, mentiras não substituem a verdade, mas costumam ser muito bem-vindas em muitos casos, chegando, inclusive, a ser utilizada como primeira opção de tratamento.
A omissão é um placebo. Na prática, não produz qualquer efeito, mas pode causar sintomas momentâneos de bem-estar (ou não) se apenas acreditarmos e calarmos.
O que é a verdade? Quantas são as verdades? O que os fragmentos ao redor têm para nos revelar? Algo sempre acontece e nos cabe escolher a versão que melhor nos adaptamos. Seja como for, a verdade prevalece sempre. Somente a verdade pode curar.
Nem tudo que escrevo sou eu, mas, certamente, tem eu.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Quantos Corações são Necessários Para Trocar Uma Lâmpada?
Há tempos que meu coração vem se preparando para recebê-la. Ele fez questão de cuidar de cada detalhe, redecorou tudo a seu gosto, apesar de eu achar que ele exagerou um pouco nos tons azuis – Quem mandou revelar a ele sua favorita cor?
Realinhou toda mobília, colocou toalhas limpas no banheiro, encomendou flores diversas para preparar arranjos e espalhar pétalas pela cama e pelo chão do quarto (você não faz idéia de como é difícil achar tulipas esta época do ano).
Espanou e varreu toda poeira, inclusive debaixo do tapete. Tudo para garantir todo conforto que você merece. Mas, algo inesperado aconteceu...
A lâmpada queimou! E agora?
Meu coração desesperou-se. Como isso poderia acontecer? Tudo já estava decidido, resolvido, organizado! E se ela quiser ler um livro? E se ela levantar à noite insone? E se ela tiver medo do escuro? Não bastava trocar a lâmpada, era preciso descobrir a razão. O que teria provocado esta súbita escuridão? Poderia ter sido um curto-circuito? Hm... Uma sobrecarga, na certa. De fato, havia muita energia cercando o coração. Energias que não deveriam ser eliminadas, mas reordenadas, pois cada energia tem sua função.
Perdido no escuro, o coração tropeça em cadeiras e almofadas. Quase deixou um jarro cair. Foi uma verdadeira aventura até alcançar a gaveta onde guardava outra lâmpada para um caso de emergência. Na tentativa de buscar a escada, acabou se descuidando e a lâmpada nova despedaçou-se ao atingir o chão.
Pobre coração... Estava tão ansioso e agora sente-se inútil e culpado por não ter se preparado melhor para acolhê-la. Aflito, sentou-se no escuro engolindo o choro. Tentei acalmá-lo, “o tempo resolve tudo”, disse a ele.
Eis que o dia amanheceu. Bastou abrir as cortinas e deixar o sol entrar. Tudo agora parecia claro. Meu coração não perdeu mais tempo e providenciou o imediato reparo, desejando que você confie nele, que esteja certa de que ele não deixará isso acontecer outra vez.
Sozinho, meu coração é capaz de trocar uma lâmpada, é só uma questão de tempo para o sol voltar a brilhar e iluminar o interior.
Realinhou toda mobília, colocou toalhas limpas no banheiro, encomendou flores diversas para preparar arranjos e espalhar pétalas pela cama e pelo chão do quarto (você não faz idéia de como é difícil achar tulipas esta época do ano).
Espanou e varreu toda poeira, inclusive debaixo do tapete. Tudo para garantir todo conforto que você merece. Mas, algo inesperado aconteceu...
A lâmpada queimou! E agora?
Meu coração desesperou-se. Como isso poderia acontecer? Tudo já estava decidido, resolvido, organizado! E se ela quiser ler um livro? E se ela levantar à noite insone? E se ela tiver medo do escuro? Não bastava trocar a lâmpada, era preciso descobrir a razão. O que teria provocado esta súbita escuridão? Poderia ter sido um curto-circuito? Hm... Uma sobrecarga, na certa. De fato, havia muita energia cercando o coração. Energias que não deveriam ser eliminadas, mas reordenadas, pois cada energia tem sua função.
Perdido no escuro, o coração tropeça em cadeiras e almofadas. Quase deixou um jarro cair. Foi uma verdadeira aventura até alcançar a gaveta onde guardava outra lâmpada para um caso de emergência. Na tentativa de buscar a escada, acabou se descuidando e a lâmpada nova despedaçou-se ao atingir o chão.
Pobre coração... Estava tão ansioso e agora sente-se inútil e culpado por não ter se preparado melhor para acolhê-la. Aflito, sentou-se no escuro engolindo o choro. Tentei acalmá-lo, “o tempo resolve tudo”, disse a ele.
Eis que o dia amanheceu. Bastou abrir as cortinas e deixar o sol entrar. Tudo agora parecia claro. Meu coração não perdeu mais tempo e providenciou o imediato reparo, desejando que você confie nele, que esteja certa de que ele não deixará isso acontecer outra vez.
Sozinho, meu coração é capaz de trocar uma lâmpada, é só uma questão de tempo para o sol voltar a brilhar e iluminar o interior.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Castelo
A casa estava lá, como sempre, mas não parecia a mesma. As paredes, os quadros, os móveis, tudo de acordo como deixei, mas tudo parecia diferente. Acomodo minhas malas em cima do sofá e me sento no chão da sala. Olho ao redor e percebo que a casa parece maior. A casa se queixa pelo tempo que permaneceu trancada e exige uma compensação. Prometo pintá-la muito em breve com cores alegres, um jardim na varanda e novos adornos para a cozinha e banheiro. Irredutível, a casa não manifestou qualquer entusiasmo com minhas promessas. Ela queria mais.
Ainda sem jeito devido à fria recepção de meu lar, resolvi desfazer as malas e cada peça de roupa, cada objeto, cada detalhe me transportava de volta aos braços daquela que me acolheu com seu coração nestes últimos dias em que estive distante de meu habitat natural. Foi ela quem me convenceu a abandonar meu mundo aparentemente seguro e me fez embarcar em uma aventura em nome de um amor que desconhece limites. Foi preciso descer do avião para finalmente conhecer o céu através dos olhos, do sorriso e do toque de minha amada.
De volta a minha solitária existência, continuo a desfazer as malas e encontro um tesouro enterrado entre minhas tralhas. Um CD com um repertório de músicas que remetem a momentos especiais. Uma lembrança artesanalmente confeccionada pela mulher que amo. Coloquei o presente no aparelho de som e deitei-me no chão, usando minha própria roupa como travesseiro. Embalado pelas canções, fechei os olhos e pude sentir a presença dela deitada ao meu lado. Não me atrevi a abrir os olhos ou sequer me mover. Adormeci assim, com a certeza de que ela estava ali comigo, há poucos centímetros de distância.
Já de manhã, precisei abrir os olhos e constatei a triste realidade: ela não estava ali. Arrumando-me para o trabalho, notei que minha casa ainda estava de mau humor. Foi então que comecei a entender aquela súbita mania de grandeza que se apoderou de minha morada, então lhe fiz a promessa que meu lar tanto almejava:
_ Deseja a plenitude? Pois buscarei uma rainha para viver conosco e todos te reconhecerão como um castelo!
A casa mostrou-se, enfim, satisfeita. E uma nova viagem começava a ser planejada.
Ainda sem jeito devido à fria recepção de meu lar, resolvi desfazer as malas e cada peça de roupa, cada objeto, cada detalhe me transportava de volta aos braços daquela que me acolheu com seu coração nestes últimos dias em que estive distante de meu habitat natural. Foi ela quem me convenceu a abandonar meu mundo aparentemente seguro e me fez embarcar em uma aventura em nome de um amor que desconhece limites. Foi preciso descer do avião para finalmente conhecer o céu através dos olhos, do sorriso e do toque de minha amada.
De volta a minha solitária existência, continuo a desfazer as malas e encontro um tesouro enterrado entre minhas tralhas. Um CD com um repertório de músicas que remetem a momentos especiais. Uma lembrança artesanalmente confeccionada pela mulher que amo. Coloquei o presente no aparelho de som e deitei-me no chão, usando minha própria roupa como travesseiro. Embalado pelas canções, fechei os olhos e pude sentir a presença dela deitada ao meu lado. Não me atrevi a abrir os olhos ou sequer me mover. Adormeci assim, com a certeza de que ela estava ali comigo, há poucos centímetros de distância.
Já de manhã, precisei abrir os olhos e constatei a triste realidade: ela não estava ali. Arrumando-me para o trabalho, notei que minha casa ainda estava de mau humor. Foi então que comecei a entender aquela súbita mania de grandeza que se apoderou de minha morada, então lhe fiz a promessa que meu lar tanto almejava:
_ Deseja a plenitude? Pois buscarei uma rainha para viver conosco e todos te reconhecerão como um castelo!
A casa mostrou-se, enfim, satisfeita. E uma nova viagem começava a ser planejada.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Cortesia
Em uma remota estrada de uma região montanhosa, havia uma humilde edificação que funcionava como um restaurante de raros freqüentadores. O dono do estabelecimento, um senhor idoso de andar lento e poucas palavras, que trabalhava ali sozinho desde que ficou viúvo há mais de década, procurava agradar como fosse possível seus clientes. No final de cada refeição, ele servia uma xícara de chá feito de ervas aromáticas, receita de sua falecida e saudosa esposa, mas podíamos facilmente identificar a refrescância do hortelã em meio ao exótico e estimulante sabor.
Cada um reagia de uma forma diferente. Uns diziam que não gostavam de chá, ou que não pediram. Outros não falavam nada e deixavam o chá sobre a mesa. Alguns bebiam e saiam sem dizer nada, achando que poderiam ser cobrados por aquele agrado adicional.
Um dia, uma mulher de meia-idade de sorriso fácil, cansada pela longa caminhada, chegou com uma grande mochila nas costas e perguntou se poderia recarregar seu celular. O velho apontou para uma tomada próxima ao balcão. Ela plugou seu carregador e fez uma ligação pedindo um reboque para seu carro enguiçado há alguns quilômetros dali. Com a confirmação que o socorro chegaria lá em quarenta e cinco minutos, sentou-se para esperar. O dono do restaurante surgiu ao seu lado e lhe serviu uma xícara de seu chá especial. A mulher ficou encantada e agradeceu com um olhar cheio de doçura.
Quando finalmente o reboque chegou, a mulher levantou-se e perguntou quanto devia. O ancião respondeu que era cortesia da casa.
_ Como cortesia? Eu não fiz nenhuma refeição!
“Cortesia”, ele repetiu.
A mulher deu uma pausa e, olhando ao redor, captou a mensagem. Ela o abraçou, deu um beijo em seu rosto enrugado e o agradeceu. Ela entrou no reboque e se despediu com um aceno e os olhos rasos d’água, mantendo o amável sorriso. Ela entendeu que o chá era uma cortesia, não àqueles que ali comiam, mas sim a todos que entravam naquele restaurante e, mesmo que por alguns minutos, lhe faziam companhia.
Cada um reagia de uma forma diferente. Uns diziam que não gostavam de chá, ou que não pediram. Outros não falavam nada e deixavam o chá sobre a mesa. Alguns bebiam e saiam sem dizer nada, achando que poderiam ser cobrados por aquele agrado adicional.
Um dia, uma mulher de meia-idade de sorriso fácil, cansada pela longa caminhada, chegou com uma grande mochila nas costas e perguntou se poderia recarregar seu celular. O velho apontou para uma tomada próxima ao balcão. Ela plugou seu carregador e fez uma ligação pedindo um reboque para seu carro enguiçado há alguns quilômetros dali. Com a confirmação que o socorro chegaria lá em quarenta e cinco minutos, sentou-se para esperar. O dono do restaurante surgiu ao seu lado e lhe serviu uma xícara de seu chá especial. A mulher ficou encantada e agradeceu com um olhar cheio de doçura.
Quando finalmente o reboque chegou, a mulher levantou-se e perguntou quanto devia. O ancião respondeu que era cortesia da casa.
_ Como cortesia? Eu não fiz nenhuma refeição!
“Cortesia”, ele repetiu.
A mulher deu uma pausa e, olhando ao redor, captou a mensagem. Ela o abraçou, deu um beijo em seu rosto enrugado e o agradeceu. Ela entrou no reboque e se despediu com um aceno e os olhos rasos d’água, mantendo o amável sorriso. Ela entendeu que o chá era uma cortesia, não àqueles que ali comiam, mas sim a todos que entravam naquele restaurante e, mesmo que por alguns minutos, lhe faziam companhia.
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