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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Morte Virtual

Meu Orkut sumiu! Morreu! “Deletou-se”! Só consigo atribuir a autoria deste crime a algum desses malditos vírus que assolam esses populares cubículos onde pagamos pelo tempo que queremos nos conectar (estou falando de uma lan house, não de um meretrício).
Claro que esta se trata de uma tragédia anunciada. Outros amigos tiveram o mesmo fim, mas sempre achamos que essas coisas só acontecem com os outros. E aqueles e-mails que eu vivia recebendo para repassar a todos meus contatos? Eu nunca os repassava e sempre havia uma promessa de azar aos que resolvessem ignorar a corrente. Teria sido essa a razão para o desaparecimento do meu perfil no Orkut? Eu deveria ter dado mais atenção a essas mensagens...
Alguém tem dúvidas da importância de uma conta num site de relacionamento de renome? É através deste site que mantenho contato com todos os meus amigos, atualizo minhas fotos, fico sabendo de tudo que está acontecendo com meus colegas, posso fuxicar a vida alheia, dar minha opinião em inúmeras comunidades... Perder o perfil nesta grande rede representa a própria morte sócio-virtual. É o mesmo que perder sua essência. Como alguém pode viver sem “Buddy Pokes” e recados animados?
Cheguei no trabalho, sentindo-me um fantasma a vagar. Percebendo minha profunda angústia, meu amigo da mesa ao lado perguntou-me o que havia acontecido e narrei minha triste história com toda paixão de um homem que se despede de sua própria alma. Por fim, ele deu de ombros e disse: Ora, por que não se cadastra novamente e abre uma nova conta?
...
Não sei o que me deixou mais chocado. Se foi a sua indiferença com meu problema ou a petulância em afirmar que meu drama pode ser resolvido de uma forma tão simples e prática...
Por falta de opção, acho que vou seguir este conselho... Vou reconstruir minha entidade virtual, postar novas fotos, adicionar todas as pessoas que tenho afinidade, distribuir recados divertidos...
Mas se este meu amigo do trabalho pensa que vou colocar uma estrelinha de fã e deixar um depoimento em seu perfil, ele está muito enganado. Ah, mas não vou mesmo!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Ditadura Comportamental

Depois de horas de tortura auditiva, ouvindo canções de gosto duvidoso, mas excessivamente veiculadas pela mídia, o inspetor entrou na sala de interrogatório e sentou-se na cadeira diante de mim apoiando os cotovelos à mesa entre nós.
“Chegamos até você graças a uma denúncia anônima”, dizia ele. Pelo que entendi alguém avisou às autoridades sobre o risco que eu representava à sociedade por não me adequar aos padrões de imagem e costumes ora impostas pela atual ditadura comportamental.
Eu não tinha muito que dizer em minha defesa. Limitei-me a reconhecer meus erros e garanti mudar minha atitude subversiva. Fiz um discurso de improviso declarando meu arrependimento e me comprometendo a tomar as providências necessárias.
“Sim, há tempos que sei da “Lei de Padronização Moral e Estética”, mas confesso que não dei o devido crédito aos benefícios que essa lei representava. Agora entendo que uma sociedade só é perfeita quando todos seguem em uma única direção. Prometo gastar cada centavo do meu suado dinheiro para possuir o corpo perfeito, as roupas perfeitas, o status perfeito... Prometo freqüentar todas as baladas que estão “bombando na night”. Vou fazer lipo e colocar silicone nas panturrilhas. Vou usar roupa de grife até para ir à padaria. Vou me comportar como um desbravador sexual e “pegarei geral” antes de voltar para casa sozinho. Vou ouvir músicas de refrão fácil e conteúdo ofensivo no volume máximo, seja em casa, no carro ou em meu celular. Vou me concentrar exclusivamente às seções de esporte nos jornais. Estarei a par de tudo o que acontecer nas novelas e programas de futilidades, além de me inscrever e acompanhar todo tipo de Reality show. Vou falar, ler e escrever errado. Criarei contas em todos os sites de relacionamento. Seguirei a moda religiosamente e descartarei qualquer assunto que requeira uma opinião de cunho intelectual, além de denunciar qualquer um que se atreva a agir de maneira independente.”
Aparentemente satisfeito, o inspetor me liberou, mas não sem antes me dar uma advertência e uma punição. Disse que ficaria de olho em mim e me aplicou uma multa pesada. Quando lhe questionei sobre o valor da multa, ele respondeu:
“Você pensou muito antes de se declarar culpado... Não percebe que pensar é completamente démodé?”

segunda-feira, 4 de maio de 2009

E Quem Entende?

O que é o amor senão a matéria prima da alma para todos os fundamentos da vida? É o pilar que sustenta a comunhão de Deus para com os homens. É a farpa no dedo de seu irmão que te causa maior dor que a estaca em seu peito.
Entendeu?... Ora... e quem entende?
Eis o fascínio que o amor causa aos homens desde a criação... o fato de possui-lo, mas nunca dominá-lo. Devido a tal desafio, o homem aprendeu a adaptá-lo... a reciclá-lo... Aprendeu a interpretar o amor conforme sua vontade. E quem somos nós para constituir tal poder?Nada. Pois não conhecemos o verdadeiro amor. Aprendemos a ignorá-lo. Aprendemos a sentir tesão, atração, interesse e apelidamos de amor, pois amor é um nome muito bonito e justifica muito da ganância humana.
Tudo que é feito por amor não possui a malícia do pecado, pois o pecado trabalha para nossa auto satisfação e o amor tem a humildade de abrir mão de qualquer privilégio egoísta. O amor constitui a centelha do ser humano assim como outros sentimentos que devem permanecer em pleno equilíbrio para que assim estejamos preparados para o plano de Deus em nosso espírito.
Permita que o amor deixe de ser o câncer da ética. Não acreditas? Então consulte seu coração. Olhe bem ao seu redor... chegue a conclusão de que não está sozinho. Você não está sozinho. E sabe por quê? Porque alguém te ama.
Entendeu?... Ora... e quem entenderá?

sábado, 2 de maio de 2009

O Referendo do Fogo

Há milhares de anos atrás, um ancestral do homem moderno teve a infeliz idéia de esfregar dois gravetos e, assim, descobriu o fogo. Foi aí que a loucura começou. No início, o fogo se fez bem útil afastando os animais, cozinhando os alimentos, nos aquecendo no frio... Mas o fogo também se revela um elemento extremamente perigoso e destrutivo. Alguém deixou um cigarro acesso na lixeira. Um curto-circuito numa instalação elétrica mal feita. Moradores de uma favela, revoltados com a ação imprudente da polícia, ateiam fogo em ônibus. Professora da rede pública, revoltada com o baixo salário, banha-se de álcool e põe fogo em si mesma em sinal de protesto. Incêndios que destruíram a vida de milhares de pessoas!A culpa de tudo isso é do fogo! Consciente disso, o Governo promoveu um referendo para a população decidir se é contra ou a favor da COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS INFLAMÁVEIS E DE COMBUSTÃO. Grupos se mobilizaram para defender suas teorias. Grandes formadores de opinião, como as redes de televisão, entraram no jogo levando em conta as vantagens que iriam alcançar. A classe artística não queria sua imagem associada às mortes provocadas pelo fogo e apoiaram a proibição do mesmo.
Por fim, o bom senso prevaleceu e o fogo foi finalmente proibido!As coisas não foram fáceis no início. Todos tiveram que se adaptar a esta nova realidade. A comida era aquecida com energia solar. Os carros passaram a funcionar com Coca-Cola. Várias indústrias fecharam. Isqueiros entravam clandestinamente pelas fronteiras. Houve um significativo aumento na criminalidade. Saudosistas eram punidos por apologia. Escoteiros eram presos por formação de quadrilha (pegos em flagrante com uma caixa de fósforos dentro de uma floresta).A confusão continua, Mas, felizmente, nunca mais ouviu-se falar de pessoas que morreram pela ação do fogo. Viva a democracia!!
Dias atrás, um motorista drogado atropelou e matou uma senhora idosa e seu poodle. A população indignada começou a furar os pneus dos carros que estavam estacionados perto do local do acidente. A culpa era da maldita roda que atropela milhões de pessoas por ano em nosso país! Um novo referendo estava por vir!Fogo... Roda... Putz! Só podia mesmo ser coisa de gente primitiva!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Duelo

Parecia um dia de sol como tantos outros, mas a velocidade das nuvens denunciava que algo estava para acontecer. As árvores mais experientes entenderam o recado e se apegavam com mais vigor à terra.Sem perceber o que se passava ao redor, uma velha sacola plástica, daquelas de supermercado, estava quieta ali no chão, ao lado de uma lixeira e de um banco de praça. A pobre sacola estava deprimida, murchinha... Lamentava-se pelo seu destino incerto. Ela que trazia com orgulho a estampa da logomarca de onde trabalhava, colocando-se à disposição dos clientes. Fazia parte de uma grande equipe e estava certa da importância de seu papel na hora de carregar o peso e responsabilidade de sua função. Já ouviu histórias horríveis de sacolas que até se rasgaram no cumprimento do dever, mas isso não a assustava. Estava disposta a correr qualquer risco para exercer seu ofício. Jamais decepcionaria seus colegas e clientes. Por fim, parecia não haver mais utilidade para ela. Soube de algumas companheiras que passaram a servir como “sacos de lixo”, mas, pelo visto, nem para isso ela servia mais. Algumas conseguiram uma chance em programas de reciclagem, mas para ela só restou o esquecimento e a sarjeta. Sentia-se triste, inútil e vazia.
Súbito, fora atingida por um forte golpe de ar que a arremessou longe. O vento soprava zombando da fragilidade das folhas secas e jornais de ontem. A sacola tentou fugir daquela surra e correu procurando um canto seguro. O vento, percebendo sua aflição, resolveu brincar com ela golpeando-a incansavelmente para todas as direções. A sacola estava tonta e desesperada enquanto o vento apenas se divertia.Foi então que a sacola viu-se num beco sem saída. Ela estava acuada, encurralada... Quando tudo parecia perdido, a sacola resolveu revidar! Mesmo desajeitada, ela começou a rodopiar no ar, defendendo-se e atacando num balet de movimentos imprecisos e aparentemente sem qualquer efeito no temível vento. Ela passou a usar os golpes do vento para se sentir maior e mais forte.De repente, o vento parou de rir e até se encantou com toda aquela coragem. Resolveu então deixá-la em paz e seguiu seu caminho sem nada dizer. A sacola percebeu o vento se retirando, mas permaneceu atenta caso ele voltasse. Ela estava exausta e caiu num canto para descansar.O medo passou. A ansiedade e a angústia também se foram. Sua luta lhe devolveu a confiança ora perdida e tudo parece diferente. Seu destino, ela sabe, ainda é incerto, mas agora esta corajosa sacola plástica não se sente mais tão vazia.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

As Vantagens que só o Ódio pode Oferecer

Há uma máxima que diz: “Guardar rancor é o mesmo que beber veneno esperando que o outro morra.” Me preocupa o que essas pessoas andam bebendo, mas cada um na sua...
Um amigo me falou uma vez: “Não sei como você consegue fazer com que as pessoas te odeiem tanto.” Não digo que concordo plenamente com este comentário. Eu chamaria isso de uma meia verdade se a mesma não pudesse ser interpretada também como uma meia mentira, assim como uma quase certeza é o mesmo que uma quase dúvida.
Não se trata de ter ou não facilidade de despertar o ódio nas pessoas. Trata-se da capacidade de se atrever a pensar, de viver o mais profundo de você mesmo (núcleo). Isso parece provocar algumas pessoas e, se valendo dos extremos (pólos) passam a nos admirar de forma messiânica ou nos amaldiçoar fervorosamente. Certas revoltas têm seus fundamentos e é preciso lidar com cautela e diplomacia, mas o que dizer do ódio injustificado? “Você age e pensa diferente de mim, logo eu o odeio”. E quando o assunto é paixão, todo extremo parece ser bem-vindo. Há uma razão para que as pessoas que um dia amamos sejam “ex”. As coisas não deram certo e pronto, mas podemos romantizar o fim da relação com brigas, acusações, fofocas... E eis que o amor se torna ódio (clichê pastelão)!
Recentemente, recebi um e-mail em resposta a um convite que enviei aos meus amigos (o autor não vem ao caso):
“Favor retirar o meu e-mail da sua lista de contatos.
Se por acaso enviar algum outro após esse meu pedido, o mesmo poderá ser usado como prova material contra você no tribunal.
Grato.”
Claro que fiquei surpreso e curioso. O que eu teria dito para ofender esta pessoa? Respondi:
“O que houve? A mensagem foi repassada através de todos os meus amigos no Orkut. Para não lhe enviar eu teria que excluí-lo da minha lista de amigos. É isso mesmo que deseja?
Não entendi o porquê do "prova material contra você no tribunal", pois posso fazer o que me pede independente de ameaça judicial.
Se possível, me responda dizendo o que o desagradou em minhas mensagens anteriores para que eu possa saber do que estarei me desculpando.”
Então ele respondeu:
“Já te exclui do meu orkut a muito tempo... não percebeu? Não quero e não vou dizer o porquê...
Por favor simplesmente me exclua da sua lista de amigos pois não quero mais receber emails seus...
Além disso não foi uma ameaça, foi um aviso, mas vc é livre pra interpretar qualquer texto da forma que lhe convir.
Não precisa responder a esse email, se o fizer eu não retornarei, e dependendo do que for enviado eu tomarei as medidas cabíveis ou não...
Adeus!”
Me despedi dizendo:
“Confesso que não havia notado que havia me excluído. Pode deixar que providenciarei o desligamento de minhas mensagens em sua caixa de entrada. Estou respondendo não por uma questão de necessidade, mas para dar uma satisfação de que seu e-mail foi lido. Fique à vontade para não me revelar o que o desagrada, isso só torna inviável qualquer pedido de desculpas. Sobre as medidas cabíveis, não se preocupe, pois este é o último e-mail que lhe envio e, como pode perceber, não é de natureza hostil. Não tive a oportunidade de conhecê-lo melhor, mas acho você uma pessoa bem instruída e deve ter seus motivos e eu respeito isso.”
Só tive contato com essa pessoa duas vezes na minha vida e já sou alvo de seu desafeto. Não deveria me sentir lisonjeado? Além disso, podemos afirmar que as pessoas que nos odeiam são justamente aquelas que ficam bem melhores longe de nós. Manter distância de pessoas assim é um benefício que favorece ambos os lados. Se isso fosse um programa de milhagem, poderíamos acumular pontos para dar a volta ao mundo.
Para entender o fundamento disso eu precisaria retroceder muitas encarnações do meu atual estado evolutivo, sendo assim, só me resta agradecer por todo veneno que essas pessoas bebem esperando que eu morra, mas não esperem que eu brinde junto.
O ódio é o combustível dos tolos. É altamente inflamável, pena que só conseguem correr em círculos...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A Maldade Salvará o Mundo

A solução para o mundo é a maldade. Refiro-me a uma maldade palpável, encarnada em alguma forma mitológica facilmente identificável como um dragão que pudéssemos duelar ou nos esconder. Criaturas sombrias, entidades folclóricas, súcubos dantescos... Desta forma, saberíamos exatamente quem são os inimigos. A humanidade criaria métodos de proteção contra o mal. Equipes treinadas para repreender e aniquilar tais monstros. Uma vigilância eficaz que nos garantiria uma vida sossegada. Todos os carros e casas seriam equipados com dispositivos “antimaldade” com selo INMETRO e ISO 9000.
A verdade é que estamos sofrendo de “excesso de boa vontade”. É o “bom motivo” quem nos destrói. O mal que se manifesta como um ato de bondade. Quantas pessoas são sacrificadas para garantir nossos privilégios? Guerras em nome da paz, restrições em prol da liberdade, ciúme e punição justificados pelo zelo e o amor.
Não podemos identificar o inimigo, pois somos nós. Não se trata de uma força alienígena que nos domina, e sim, um instinto primário que se move em nosso íntimo.
Não poupamos o planeta, nossos filhos, nossos sonhos ou quem mais amamos. Não faz diferença quem seja prejudicado, desde que tenhamos alguma vantagem.
Seríamos nós os monstros? Somos apenas humanos fiéis à nossa natureza. O que faz de alguém um indivíduo melhor é a capacidade de reconhecer e dominar esse impulso destrutivo.
Quando, enfim, o mal se manifestar de maneira explícita e alegórica, seremos felizes, pois saberemos em quem pôr a culpa. Até lá, vamos continuar apontando os erros dos outros e imaginar desculpas criativas para justificar nossa maldade bem intencionada.