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segunda-feira, 20 de julho de 2009

Ditadura Comportamental

Depois de horas de tortura auditiva, ouvindo canções de gosto duvidoso, mas excessivamente veiculadas pela mídia, o inspetor entrou na sala de interrogatório e sentou-se na cadeira diante de mim apoiando os cotovelos à mesa entre nós.
“Chegamos até você graças a uma denúncia anônima”, dizia ele. Pelo que entendi alguém avisou às autoridades sobre o risco que eu representava à sociedade por não me adequar aos padrões de imagem e costumes ora impostas pela atual ditadura comportamental.
Eu não tinha muito que dizer em minha defesa. Limitei-me a reconhecer meus erros e garanti mudar minha atitude subversiva. Fiz um discurso de improviso declarando meu arrependimento e me comprometendo a tomar as providências necessárias.
“Sim, há tempos que sei da “Lei de Padronização Moral e Estética”, mas confesso que não dei o devido crédito aos benefícios que essa lei representava. Agora entendo que uma sociedade só é perfeita quando todos seguem em uma única direção. Prometo gastar cada centavo do meu suado dinheiro para possuir o corpo perfeito, as roupas perfeitas, o status perfeito... Prometo freqüentar todas as baladas que estão “bombando na night”. Vou fazer lipo e colocar silicone nas panturrilhas. Vou usar roupa de grife até para ir à padaria. Vou me comportar como um desbravador sexual e “pegarei geral” antes de voltar para casa sozinho. Vou ouvir músicas de refrão fácil e conteúdo ofensivo no volume máximo, seja em casa, no carro ou em meu celular. Vou me concentrar exclusivamente às seções de esporte nos jornais. Estarei a par de tudo o que acontecer nas novelas e programas de futilidades, além de me inscrever e acompanhar todo tipo de Reality show. Vou falar, ler e escrever errado. Criarei contas em todos os sites de relacionamento. Seguirei a moda religiosamente e descartarei qualquer assunto que requeira uma opinião de cunho intelectual, além de denunciar qualquer um que se atreva a agir de maneira independente.”
Aparentemente satisfeito, o inspetor me liberou, mas não sem antes me dar uma advertência e uma punição. Disse que ficaria de olho em mim e me aplicou uma multa pesada. Quando lhe questionei sobre o valor da multa, ele respondeu:
“Você pensou muito antes de se declarar culpado... Não percebe que pensar é completamente démodé?”

5 comentários:

Amanda Moherdt disse...

Rsrsrs..
Como eu sempre digo:Viva a futilidade, a preguiça do pensamento e toda ação que nos faça nadar com a correnteza.Afinal agir por osmoze não é nada mal hein?!
Bjs!
http://amandaherdt.blogspot.com/
Dá uma passada lá.

Jefferson de Morais disse...

Muito bom! rs
É por esses e muitos outros motivos que me considero - e prefiro permanecer assim - um verdadeiro "fora-da-lei".

Abraço.

Léo Pratas disse...

Muito boa essa crônica Clever. Seria apenas engraçado se não fosse trágico e, pior, real! Parabéns pelo texto e pelas idéias soltas e descompromissadas os "modelos" de cidadãos. ABRAÇOS!

Fernanda disse...

MELHOR!!!!

Fernando Sevzatian disse...

Só sigo as leis da constituição brasileira, me recuso seguir essas regrinhas inúteis.