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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Papo-Família em um Futuro Próximo

_ Papai, eu já sei o que quero ser! Vou fazer a faculdade de medicina!
_ Mas nem pensar! Eu lutei a vida toda estudando e trabalhando duro para poder oferecer o melhor a você!
_ Mas eu descobri minha vocação! Eu quero ajudar às pessoas!
_ E quem vai te ajudar quando estiver passando fome? Acha que médicos ganham bem? Eu já planejei seu futuro! Você será modelo, atriz e dançarina!
_ Papai, já lhe ocorreu que isso é impossível?
_ Não há nada que nos impeça! Eu pensei em tudo! Você vai malhar muito, colocar uns silicones, terá aulas de dança... Economizei muito para isso! Com todos os recursos tecnológicos oferecidos faremos de você uma mulher perfeita! Vai custar caro, mas é um investimento de retorno garantido e rápido!
_ Mas pai, eu só tenho 13 anos!
_ Verdade, mas essas coisas a gente tem que começar cedo!
_ E como eu faria sucesso?
_ Isso é fácil! Precisamos providenciar algum escândalo! Algo que choque a sociedade! Aí você dá sua versão dos fatos e dividirá opiniões! Alguns terão raiva de você, mas muitos te amarão por sua atitude audaciosa!
_ Escândalo?! De que tipo?
_ Isso podemos ver mais tarde. Poderia ter algo a ver com incesto, zoofilia, necrofolia... O negócio é quebrar tabus! Infelizmente não sobraram muitos hoje para serem quebrados.
_ Pai, não sei se quero isso pra mim...
_ Você não sabe nada sobre a vida! Médicos, cientistas, filósofos, juízes... O mundo não precisa mais disso! O que a humanidade quer é bunda! Se é bunda que o povo quer é bunda que daremos! Esqueça o talento, o discernimento, a razão! Deixe seu pai aqui cuidar de sua carreira e te garanto que em breve seu nome será mais conhecido que o da Lady Gaga!
_ Lady o quê??
_ Deixa pra lá, não é do seu tempo...
_ Bom, papai... Sua intenção parece muito boa, mas há um pequeno detalhe que você não está considerando.
_ Qual?
_ Esqueceu que sou menino?
_ Por enquanto, filho... Por enquanto...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Tamanho de Nossa Casa (ou A Responsabilidade de ser Feliz Através do Outro)

Onde começa e termina sua casa?
Imagine-se eleito para administrar uma cidade cheia de problemas. Você pode até se sentir lisonjeado no início, mas as cobranças vêm logo em seguida. Alegarão sua incompetência até que seja destituído do seu cargo. A questão é que os problemas já estavam ali antes de você chegar. Problemas de longa data por conta de administradores incompetentes, descaso das autoridades e, principalmente, da indisciplina e imprudência de grande parte da população que, culturalmente, se condicionou a espalhar lixo, destruir o patrimônio público e reclamar da vida. Como protesto, o povo perde o interesse na política, como se a falta de interesse os tornasse isento das conseqüências de uma escolha equivocada de seus representantes. Votamos em corruptos consagrados ou em pessoas descompromissadas com o bem comum. Fazemos da política uma piada, um circo onde os palhaços somos nós eleitores.
O que veio primeiro: os problemas ou a necessidade da queixa? Ainda que tudo fosse diferente, lá estaríamos nós para reclamar e escolher alguém que pudéssemos pôr a culpa.
Alguém considera atraente tornar-se responsável pela felicidade de alguém? Conheço pessoas que tem como meta de vida encontrar seu grande amor como solução de todos os seus problemas. Pessoas frustradas que esperam encontrar no outro tudo que precisam. Seria justo esperar do outro a solução definitiva de nossas angústias? Será que devemos atribuir a alguém tamanha responsabilidade? Sempre estamos dispostos a exigir muito do outro, mas esquecemos de exigir de nós.
O que temos feito por nós mesmos? Felicidade não é um bem que se conquista, mas um exercício de prática constante. Felicidade não é ausência de problemas, é uma opção de como lidar com os fatos.
Há quem calcule seu lar pelas paredes que o cercam. Nossa casa não está apenas da porta para dentro. Nossa casa também está da porta pra fora. Vamos arrumar a casa e sejamos dignos e merecedores de nossa morada e que o outro (a quem projetamos nossa felicidade) seja o reflexo de nossa dignidade e merecimento.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Memorável Melodia

Em minha curta carreira como músico, há uma melodia que jamais esquecerei. Lá estava eu em cima do palco diante de um público animado que repetia o refrão das canções acompanhado pelos instrumentistas. Em meio a tantas mesas lotadas, era fácil identificar a figura de minha mãe que se destacava por ser a única que permanecia sentada com um semblante abatido e olhar nostálgico. Não compreendia porque ela insistia que eu a chamasse para assistir as apresentações de minha banda se ela deixava claro que não estava se divertindo. Cheguei a prometer a mim mesmo que não mais a convidaria, pois a impressão que eu tinha era de que aquilo não passava de uma tortura para ela.
Quando terminamos, fui cumprimentado pelo público. Seguia para o camarim quando minha mãe me abordou para me dar os parabéns.
_ Parabéns pelo o quê? – a interrompi – Eu olhava para a senhora e só a notava triste! Por que a senhora insiste em me ver cantar se qualquer um percebe que não está gostando? Melhor seria ter ficado em casa, não acha?
Não esperei resposta. Fui ao camarim e, enquanto guardava minha guitarra, pude refletir sobre minhas palavras e percebi como fui severo com minha mãe. Ela não precisava estar ali. Tudo bem que não estivesse confortável, mas não deixa de ser um esforço admirável o de aguentar horas de música alta e gente gritando só para prestigiar seu filho. Entendi que minha intolerância já era coisa antiga. Lembro de como eu me aborrecia quando ela insistia em segurar minha mão para atravessarmos a rua, mesmo quando já adulto. Quantas bobagens mais me afastariam de minha mãe? Talvez fosse hora de deixar de lado todas as dissonâncias do passado e iniciar uma tablatura com acordes simples e pausas.
Saindo do camarim, não precisei me esforçar muito para encontrá-la. Minha mãe permanecia parada no mesmo lugar onde eu lhe dei as costas. Pensei em pedir desculpas, mas, desta vez, foi ela quem me interrompeu:
_ Filho, eu admiro tudo o que faz. Eu agradeço muito a Deus pela pessoa linda e talentosa que você se tornou. Se pareço triste é porque lembro das dificuldades que passamos e me aperta o coração pensar em tudo que eu gostaria de ter feito por você e não pude. Penso em tudo que eu poderia ter feito diferente. Me orgulha todas as suas conquistas, mas me dói perceber que não fui cúmplice de muitas delas.
Senti um bloqueio em minha garganta e minha única reação foi desviar o olhar para um ponto qualquer no chão a procura de mim mesmo. Como se lesse meus pensamentos, ela concluiu:
_ Desculpe se eu o aborreço quando insisto em pegar sua mão para atravessarmos uma rua. Sei que você não gosta, mas não é que eu esteja te tratando como criança... Sou eu que preciso de seu apoio, pois assim me sinto mais segura. Você me entende, filho?
O bloqueio em minha garganta foi destruído a golpes de lágrimas e pedidos de desculpas. Não havia nada mais a ser dito, pelo menos não em palavras. Peguei-a pela mão e a conduzi até a mesa.
_ Vem, mãe... Vamos assistir a próxima banda.
Em minha eterna carreira como filho, há uma mãe que jamais esquecerei.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Certas Coisas São Insubstituíveis...

_ Já posso tirar a venda?
_ Calma, já estamos chegando!
Adilson nunca foi um cara de farra. Caseiro, reservado, tímido... Dizem que foi a Heleninha quem tomou a iniciativa do namoro. Se conheceram nos tempos de escola e, depois de muito planejamento, finalmente estavam de casamento marcado. Claro que seus melhores amigos tinham que preparar uma despedida de solteiro memorável, então Moacyr, Anselmo, Ubiratan, Humberto, Clauderval e eu o levamos para um meretrício conhecido na área como “Caverna do Dragão”. Só pelo nome é possível imaginar o tipo de mulher que trabalha lá. Dessas que fazem “compreta” por 30 “real”. Ninguém da turma (que eu saiba) freqüentava tal estabelecimento, mas achamos o cenário muito apropriado para a despedida de solteiro de nosso amigo.
_ Agora sim, pode tirar a venda!
_ Vocês me trouxeram para um inferninho...
Havia um tom de espanto e encantamento na voz de Adilson. Não demoramos a nos acomodar e curtir o ambiente, ora beliscando as nádegas das “primas”, ora bebericando uma cerveja de quinta categoria.
_ Meninas! _ anunciou Clauderval _ Hoje é a despedida de solteiro de nosso amigo! Queremos tratamento VIP!!
A mulherada nos rodeou no ato, cobrindo-nos de toda atenção. Adilson sequer piscava. Convencemos a mais assanhadinha a fazer uma dança sensual para nosso amigo. Ela mostrou todo seu molejo ao som de Dicró. Sugeri a brincadeira da tequila, mas, na falta da mesma, usamos conhaque de alcatrão. Adilson tomava uma dose e depois lambia o sal que jogávamos em partes estratégicas do corpo de alguma menina e depois chupava o limão que sabe-se lá Deus de onde saiu.
Faltava pouco para amanhecer o dia quando Humberto sacudiu Adilson dizendo: “Aproveita bem, pois é só esta noite! Daqui a uma semana vai estar casado e não terá nunca mais uma noite como essa!”
Adilson deixou de lado a mulata “Tiamat” que o judiava com seus volumosos seios de enormes auréolas negras e mamilos salientes. Parecia um momento de iluminação. Uma epifania.
“E quem disse que esta noite precisa acabar?” Todos acharam graça quando Adilson disse essas palavras.
_ Vamos nessa, cachorrão! _ disse Ubiratan _ Temos que te entregar inteiro para dona Heleninha!
_ Não! _ protestou Adilson _ Se vocês quiserem ir, tudo bem, mas eu vou ficar!
_ Está louco, Adilson? _ Moacyr já meio preocupado _ Acha que isso aqui é de graça? Vai ficar aqui até quando?
_ Eu tenho muito dinheiro guardado! Economizei a vida toda para casar! Eu não fazia idéia do que estava perdendo! Os prazeres que a solteirice oferece! Avisem a Heleninha que sinto muito, mas não voltarei para casa! Meu lugar é aqui!
Apesar de nossos protestos, não fomos convincentes com nossos argumentos e achamos melhor irmos embora antes que Adilson nos convencesse a ficarmos também. Saímos da Caverna do Dragão deixando “Uni” para trás (se bem que hoje desconfio que era o próprio “Mestre dos Magos”).
Quatro anos se passaram e Helinha ainda não fala conosco. Clauderval casou-se, mas não quis saber de despedida de solteiro. Moacyr mudou-se para a roça. Anselmo entrou pra igreja. Humberto e Ubiratan se assumiram homossexuais e moram juntos. Eu comprei uma moto, escrevo blogs e continuo solteiro. Dizem que Adilson é o novo proprietário do famigerado meretrício, mas nunca voltei lá pra confirmar.
Às vezes lembro daquela noite com um certo arrependimento... Nunca deveríamos ter substituído tequila por conhaque de alcatrão.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Assine

Estou recolhendo assinaturas.
Eu explico:
É que sou doador voluntário de sangue há mais de década e me dei conta que algo estava errado e, para corrigir tal engano, preciso de assinaturas.
Ficou ainda mais confuso? Darei mais detalhes:
Para doar sangue é necessário preencher vários requisitos. Um deles é assinar um formulário atestando a doação. Acontece que eu só posso responder por mim, mas e quanto a todos que fazem parte de mim?
As pessoas não entram, saem ou transitam por nossas vidas à toa. Em tudo há um propósito, seja lá qual for. Há pessoas que acrescentam, outras que subtraem e não depende muito de nossas escolham para que elas surjam em nosso caminho.
Há pessoas que se tornam tão presentes em nossa vida que temos a plena convicção de que nossa estrutura física e mental foi remodelada conforme os novos dados que nos foram inseridos. Pessoas que agora fazem parte de nosso código genético, de nossa cadeia de DNA. Egoísmo é falar de si mesmo no singular. “Indivíduo plural” é o que somos. É tentador falarmos de nós na primeira pessoa, mas transcreva a história de alguém e logo estará rastreando múltiplas biografias.
Quem é você? Você é o sujeito que acompanha sua trajetória na íntegra. É a pessoa que vê tudo a seu redor, menos seu próprio rosto, se não houver o auxílio de um espelho. Você é o ouvinte de seus discursos mentais, de seus planos secretos, de suas reflexões. Deseja ser alguém além disso? Pois é aí que entram todas as pessoas ao seu redor, inclusive as que apenas esbarram em seu ombro em meio à multidão. Vivemos uma constante conexão, mesmo quando nos julgamos desligados. Nenhum gesto passa despercebido, por isso é bom saber bem o que desejamos passar adiante, pois o que distribuímos sempre retorna e, ao retornar, permita que esse reencontro seja constante e deixe que siga. Seja bom ou ruim, viva o que o mundo oferece, mas nunca se apegue. Deixe o rio correr seu fluxo, pois até uma gota de água no deserto cumpre sua meta com a certeza de um dia voltar a ser oceano.
A tudo sejamos atentos, mas nunca isentos.
Ora esclarecido meus motivos, pretendo em breve doar meu sangue, que não pertence somente a mim. Sendo assim, peço a você, que também sou eu, que autorize tal doação. Ainda tem dúvida de quem estou falando? Você leu até aqui, não foi? Então não se espante. Assine.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Perfeitos

_ Feliz aniversário de namoro!
_ Feliz aniversário de namoro!
_ Quem diria... Faz cinco meses que nos conhecemos naquela feira de livros!
_ Parece que foi ontem. Você estava linda com aquele vestido.
_ E você todo charmoso de gravata!
_ Sabe, eu já tinha perdido as esperanças de encontrar alguém como você. Você é perfeita!
_ Hmm... Obrigada! Também adoro estar com você.
_ Sério mesmo. Já me decepcionei tanto com mulheres loucas, ciumentas, compulsivas, burras... Todas tinham algum defeito, mas você não. Você é tudo que sempre sonhei.
_ Você é encantador...
_ Gostou do restaurante?
_ Sim, é belíssimo. Assim como tudo que você faz é lindo.
_ Eu te amo.
_ Também te amo.
_ Um brinde à perfeição!
_ Um brinde ao nosso amor!
_ Bom, melhor comermos, o jantar parece estar maravi... Ei?! O que você está fazendo?
_ Como assim?
_ Por que está segurando o garfo com a mão esquerda?
_ Ora, eu sou canhota. Nunca percebeu?
_ Confesso que estou surpreso...
_ Algum problema?
_ Sei lá... É meio estranho, né?
_ Como assim?? Isso é normal! Muitas pessoas por aí são canhotas.
_ Muitas pessoas têm câncer e eu não considero isso algo normal.
_ Acha que isso é alguma doença?!
_ Já tentou corrigir isso? Tem tratamento? Você podia imobilizar a esquerda e apenas usar a direita. Com o tempo você acaba se acostumando...
_ Não acredito que estou ouvindo isso!
_ Sabe o que é? É que sempre desejei encontrar a mulher perfeita e eu não contava com essa sua anomalia.
_ Pelo amor de Deus! Sou carinhosa, atenciosa, linda, inteligente... O fato de eu não ser destra configura um defeito?? Se enxerga, você também não é perfeito!
_ Ah, é? O que eu tenho de errado?
_ Ora, esses pêlos aí da sua orelha, por exemplo!
_ Do que você está falando? São só uns pelinhos!
_ São horríveis! Me dão nervoso! Parece uma moita!
_ Mas isso se resolve com uma tesoura e uma pinça, já seu caso é bem mais grave.
_ Chega! Não sou obrigada a ficar aqui ouvindo esses absurdos! Vou embora!
_ Ai, droga...
_ Que foi?
_ Esqueci minha carteira no carro.
_ Está dizendo para eu pagar a conta? Você é muito cara-de-pau mesmo!
_ Olha, desculpe... Acho que ando exigente demais. Pode me perdoar? Juro que serei mais tolerante com você.
_ Hmmm... Que gracinha! Tudo bem, meu peludinho lindo. Vou pedir a conta e vamos continuar nossa comemoração lá no seu apartamento, que tal?
_ Vai pagar com cheque?
_ Vou, por quê?
_ E vai assinar com a mão esquerda?! Na frente de todo mundo?!
_ Você é ridículo...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Um brinde

Uma querida amiga e eu combinamos uma cerveja no final do expediente de uma sexta e nos encontramos em um botequim no centro do Rio. Vale ressaltar que botequim tem uma conotação mais nobre quando falamos do centro do Rio. Não me refiro a uma birosca ou buteco e sim a um estabelecimento comercial onde um tira-gosto aparentemente comum é servido como uma iguaria exótica de nome impronunciável como “olives pour apreitivo” (azeitonas para aperitivo em francês, mas este é só um exemplo exagerado).
O bar estava cheio, mas conseguimos um bom lugar. Estávamos prestes a pedir nossa cerveja preferida quando notei no cardápio que eles serviam algumas cervejas nacionais pouco conhecidas além de algumas importadas. Como bom apreciador, conhecia (ao menos de nome) algumas marcas e sugeri que experimentássemos uma cerveja artesanal fabricada em Campos do Jordão. Com o consentimento de minha amiga, chamei o garçom e ele nos serviu cheio de cerimônias com taças especiais para degustação.
O que passo a descrever não pode ser comparado a um mero gole de cerveja. Foi um momento mágico, um novo nível de percepção alcançado, uma celebração ao palato apurado, uma inequívoca experiência de erotização dos sentidos comparado a um orgasmo múltiplo em cada fibra de meu ser (confesso, este é outro exemplo exagerado, mas a cerveja era muito boa mesmo). A temperatura exata, a espuma cremosa, o aroma marcante e agradável... Minha amiga e eu nos olhamos, fizemos uma pausa de silêncio em um transe quase espiritual e sorrimos. Um brinde à sabedoria!
Perguntei ao garçom (que a essa altura já nos tratava com a cordialidade e a desenvoltura de um velho conhecido) quanto custava a tal cerveja e fiquei chocado quando ele me disse que custava o triplo de nossa cerveja preferida (detalhe que nossa cerveja preferida ali custava o dobro do valor que eu pagava em um bar perto de minha casa na Zona Norte). Alegamos que foi apenas para matar nossa curiosidade e pedimos nossa cerveja preferida.
Eis que aconteceu algo que não prevíamos... Ao bebermos nossa cerveja de costume, simplesmente não era a mesma coisa. Não havia sabor, não havia prazer, não havia nada além da sensação de frustração. Não tínhamos como voltar atrás. Havíamos comido (bebido, melhor dizendo) do fruto proibido. Tomamos ciência do bem e do mal. Éramos felizes em nossa ignorância, banhamos nossa alma com o sagrado líquido dourado e fomos expulsos do paraíso. Conhecemos a verdade e a verdade nos aprisionou. Nem os fabulosos pastéis de camarão e queijo com tomate seco suprimiram nossa carência.
Depois de mais algumas garrafas, pagamos uma pequena fortuna por nossa extravagância e seguimos nosso caminho.
Semana seguinte minha amiga me ligou e marcamos outra cerveja. Desta vez fomos a um botequim mais modesto com opções facilmente encontradas em qualquer bar. “A cerveja está ótima”, disse ela com o primeiro gole. Concordei balançando a cabeça e disse:
_ Verdade, mas não é a mesma coisa que a...
Ela não me deixou terminar a frase. Segurou meu rosto com ambas as mãos, olhou-me nos olhos com um olhar de fúria e ordenou:
_ Nunca mais fale sobre aquela cerveja!! Aquilo nunca aconteceu, ouviu? Nunca!
Assenti, meio assustado. Ela acomodou-se na cadeira como se nada tivesse acontecido e voltamos a conversar e saborear nossa cerveja que, naquele momento, era única e inigualável (desta vez, sem exageros).
Tínhamos aberto a caixa de Pandora e agora bebíamos para esquecer.
Um brinde à ignorância!