_ Cara, conta novamente aquela história do acampamento!
_ Mas você conhece tão bem esta história que chega a contar melhor que eu!
_ Ah, mas é sempre mais divertido quando o narrador é diegético!
_ Ok, então, vamos lá...
Minha namorada, na ocasião, e eu planejávamos há tempos acamparmos em uma área remota do litoral carioca conhecida como Praia do Perigoso. Às vésperas de nossa aventura, ela me apresentou um amigo, quando estávamos em uma festa (lembro que era o nome de algum apóstolo bíblico, mas não me recordo qual). Comentamos sobre a tal praia e ele ficou todo empolgado, ainda mais quando soube que lá costuma aparecer golfinhos. Ofereceu-se para nos fazer companhia.
O que era para ser um fim de semana romântico tornou-se um inferno. Nosso colega desbravador não sabia ficar calado e reclamava desde as condições das estradas de terra até o tipo de calçado inapropriado, segundo sua avaliação, que minha namorada e eu usávamos. O trajeto não era fácil, mas penoso mesmo era suportar as constantes queixas de nosso bandeirante.
Chegando no local, fomos muito bem recebidos por uma comunidade hippie. Nosso gentil anfitrião chamava-se “Sempre Eterno”. Claro que este não é seu nome de batismo, mas gostei do criativo pleonasmo. Ele também poderia escolher “Infinito Perpétuo”, mas acho que não soaria tão legal. Devidamente acolhidos pelos simpáticos ripongas, fomos convidados para almoçar com eles um fabuloso risoto de mexilhão. Claro que nosso companheiro de viagem “Sempre Chato” precisava fazer uma de suas exigências: “Não tem um feijãozinho, não? Se não tiver feijão eu não como!”
À noite, tivemos que hospedar nosso inconveniente colega em nossa barraca (que acomodava desconfortavelmente duas pessoas). Estava chovendo e ele não trouxe sua própria barraca alegando preferir dormir sob as estrelas. Ele também comeu de nossa comida. Não levou mantimentos afirmando que ele sabia pescar e não fazia muita questão de comida. A essa altura eu já estava preocupado com a integridade de minha namorada se ele resolvesse declarar não sentir falta de sexo...
Na volta, o repertório de reclamações ganhou um agravante, já que não conseguimos ver nenhum golfinho. Quando chegamos à estação de trem (para chegarmos onde deixei o carro), vi uma barraquinha de doces e resolvi comprar um pacote de biscoito recheado de morango (meu preferido). Foi aí que o resmungão materializou-se do meu lado como por encanto e disparou o que para mim foi a gota d’água: “Pô, não compra de morango, não! Compra de chocolate! Eu prefiro chocolate!”
Meio atordoado, tentei explicar que eu não gostava de chocolate, mas ele insistiu: “Todo mundo gosta de chocolate! Quer ser diferente, é? Anda, compra de chocolate, senão não como!”
Apesar do sangue fervendo em minhas veias, mantive a compostura e procurei responder com educação: “Estou comprando com meu dinheiro, portanto comprarei o que eu gosto. Aqui tem o suficiente para nós três, se quiser, mas não vou comprar o de chocolate!”
Visivelmente alterado por ter sido contrariado, o “Sempre Mimado” apontou-me seu dedo acusador e proferiu a pérola definitiva daquele final de semana: “Sabe qual é o seu problema? Você é um tremendo egoísta! Tudo tem que ser do jeito que você quer! Seu egoísta! E-go-ís-ta!!”
_ Hahaha! Eu me acabo com essa história! Que cara sem noção!
_ Se podemos tirar uma lição disso tudo é que devemos ter cuidado ao criticar alguém, pois é nos outros que reconhecemos nossos próprios defeitos.
_ Cara, se isso acontece comigo, juro que arrancava a bermuda desse sujeito e enfiava o pacote de biscoito inteirinho lá onde o sol não bate!
_ E você acha que não tive essa vontade?
_ E por que não fez?
_ É que o biscoito era de morango, lembra? Ele tem predileção por chocolate...
segunda-feira, 14 de junho de 2010
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Cartas de Amor a Quem Possa Interessar
_ Ai, amor... Já falei pra não trazer o laptop pra mesa na hora do jantar!
_ Desculpe, querida. Só estou checando meus e-mails.
_ Aposto que você está visitando aquele blog novamente.
_ Sim, estou, mas acho que vou deixar de segui-lo. Gosto dos textos com críticas bem humoradas e tal, mas ultimamente ele vem escrevendo uns textos tão deprê!
_ Ele deve estar passando por algum momento ruim. Agora anda, me ajude a pôr os pratos.
_ Ops! Olha só, ele acabou de enviar uma nova postagem!
_ “Cartas de Amor a Quem Possa Interessar”... O título é interessante.
_ Vou ler para você:
Conheci uma senhora idosa que costumava sentar-se em uma mesa de praça, daquelas onde alguns jogam dama, baralho, xadrez... Ela se acomodava ali com um caderno, uma caneta e uma velha caixa de sapatos ao lado. Certa feita, eu a abordei perguntando se tratar de um livro que estava escrevendo. Ela me lançou um sorriso amável e respondeu-me que eram apenas cartas.
Todos na rua conheciam a história daquela senhora. Seu ex-marido a abandonou por outra mulher depois de um casamento de doze anos. Ele ainda a procurou, oferecendo amizade, mas não demorou muito para ele se afastar e nunca mais entrar em contato. Seu nome era Antenor.
Um belo dia, soube que ela morreu. Passando em frente a sua casa, resgatei a tal caixa de sapatos que reconheci em meio a um amontoado de velharias em uma caçamba de lixo. Dentro da caixa, havia uma agenda telefônica com páginas amareladas, uma foto em preto e branco do casal e centenas de cartas cuidadosamente organizadas dentro de seus respectivos envelopes, onde se lia no campo do destinatário as seguintes letras: A Q P I. Deduzi que se tratava das iniciais de seu ex-marido.
Certo que a falecida não se incomodaria com minha curiosidade, pus-me a ler todas as cartas. A primeira datava de vinte anos atrás. Não lembro de ter lido na vida algo tão vívido e intenso sobre o amor. Eram declarações apaixonadas de alguém que não demonstrava uma única vírgula de rancor ou mágoa. Cada verso celebrava os momentos de ternura eternizados em seu coração. Uma narrativa comovente de gratidão, ternura e afeto. Meus olhos cansavam à medida que as cartas se tornavam mais recentes e a caligrafia, ora elegante e acadêmica, aos poucos perdia a firmeza nos traços e, em alguns momentos, chegava a ser ilegível.
Não fiz conta das horas que se passaram, mas no horizonte um novo dia despontava. Dentro daquela agenda, encontrei o telefone do homem que inspirou todo aquele manuscrito. Decidi ligar para dar-lhe a notícia sobre a morte da autora e saber se ele gostaria que eu lhe enviasse as cartas pelo correio. Quem atendeu foi uma voz infantil de menina que gritou “vovô, é pra você”.
_ Senhor Antenor? Eu tenho um recado de sua ex-mulher...
Ele ficou inquieto, vociferou interrompendo-me.
_ Essa é boa... Depois de vinte anos essa mulher ainda quer assunto? Será que ela não entende que foi melhor assim? Eu tenho minha vida, minha família, não me interessa nada que venha desta pessoa!
Claro que fiquei surpreso com tal reação e estava prestes a desligar, quando olhei para o nome completo de Antenor na agenda... A Q P I... Fora a primeira letra, as outras nada tinham a ver com o nome dele.
_ Mas, anda, rapaz! Que diabo de recado é esse?
Respirei fundo e passei o recado:
_ Ela mandou dizer que você é um tremendo babaca.
Antes que eu colocasse o fone no gancho, ainda pude ouvir o velho Antenor praguejando.
No dia seguinte, deixei a caixa de sapatos sobre a mesma mesa daquela mesma praça onde nossa romântica escritora se inspirava e, antes de seguir meu caminho, tomei a providência de escrever na tampa da caixa um aviso, para que as cartas pudessem continuar a alcançar seu destino:
“A Quem Possa Interessar.”
_ E aí, gostou?
_ É bonito... Mas é triste também...
_ Ah, vai! Ele chamou o cara de babaca! Isso foi engraçado! Ou não?
_ Será que isso aconteceu mesmo?
_ Não sei... Por via das dúvidas, melhor eu parar de seguir este blog...
_ É... Talvez seja melhor mesmo... Bom, vamos jantar.
_ Sim querida, vamos.
_ Desculpe, querida. Só estou checando meus e-mails.
_ Aposto que você está visitando aquele blog novamente.
_ Sim, estou, mas acho que vou deixar de segui-lo. Gosto dos textos com críticas bem humoradas e tal, mas ultimamente ele vem escrevendo uns textos tão deprê!
_ Ele deve estar passando por algum momento ruim. Agora anda, me ajude a pôr os pratos.
_ Ops! Olha só, ele acabou de enviar uma nova postagem!
_ “Cartas de Amor a Quem Possa Interessar”... O título é interessante.
_ Vou ler para você:
Conheci uma senhora idosa que costumava sentar-se em uma mesa de praça, daquelas onde alguns jogam dama, baralho, xadrez... Ela se acomodava ali com um caderno, uma caneta e uma velha caixa de sapatos ao lado. Certa feita, eu a abordei perguntando se tratar de um livro que estava escrevendo. Ela me lançou um sorriso amável e respondeu-me que eram apenas cartas.
Todos na rua conheciam a história daquela senhora. Seu ex-marido a abandonou por outra mulher depois de um casamento de doze anos. Ele ainda a procurou, oferecendo amizade, mas não demorou muito para ele se afastar e nunca mais entrar em contato. Seu nome era Antenor.
Um belo dia, soube que ela morreu. Passando em frente a sua casa, resgatei a tal caixa de sapatos que reconheci em meio a um amontoado de velharias em uma caçamba de lixo. Dentro da caixa, havia uma agenda telefônica com páginas amareladas, uma foto em preto e branco do casal e centenas de cartas cuidadosamente organizadas dentro de seus respectivos envelopes, onde se lia no campo do destinatário as seguintes letras: A Q P I. Deduzi que se tratava das iniciais de seu ex-marido.
Certo que a falecida não se incomodaria com minha curiosidade, pus-me a ler todas as cartas. A primeira datava de vinte anos atrás. Não lembro de ter lido na vida algo tão vívido e intenso sobre o amor. Eram declarações apaixonadas de alguém que não demonstrava uma única vírgula de rancor ou mágoa. Cada verso celebrava os momentos de ternura eternizados em seu coração. Uma narrativa comovente de gratidão, ternura e afeto. Meus olhos cansavam à medida que as cartas se tornavam mais recentes e a caligrafia, ora elegante e acadêmica, aos poucos perdia a firmeza nos traços e, em alguns momentos, chegava a ser ilegível.
Não fiz conta das horas que se passaram, mas no horizonte um novo dia despontava. Dentro daquela agenda, encontrei o telefone do homem que inspirou todo aquele manuscrito. Decidi ligar para dar-lhe a notícia sobre a morte da autora e saber se ele gostaria que eu lhe enviasse as cartas pelo correio. Quem atendeu foi uma voz infantil de menina que gritou “vovô, é pra você”.
_ Senhor Antenor? Eu tenho um recado de sua ex-mulher...
Ele ficou inquieto, vociferou interrompendo-me.
_ Essa é boa... Depois de vinte anos essa mulher ainda quer assunto? Será que ela não entende que foi melhor assim? Eu tenho minha vida, minha família, não me interessa nada que venha desta pessoa!
Claro que fiquei surpreso com tal reação e estava prestes a desligar, quando olhei para o nome completo de Antenor na agenda... A Q P I... Fora a primeira letra, as outras nada tinham a ver com o nome dele.
_ Mas, anda, rapaz! Que diabo de recado é esse?
Respirei fundo e passei o recado:
_ Ela mandou dizer que você é um tremendo babaca.
Antes que eu colocasse o fone no gancho, ainda pude ouvir o velho Antenor praguejando.
No dia seguinte, deixei a caixa de sapatos sobre a mesma mesa daquela mesma praça onde nossa romântica escritora se inspirava e, antes de seguir meu caminho, tomei a providência de escrever na tampa da caixa um aviso, para que as cartas pudessem continuar a alcançar seu destino:
“A Quem Possa Interessar.”
_ E aí, gostou?
_ É bonito... Mas é triste também...
_ Ah, vai! Ele chamou o cara de babaca! Isso foi engraçado! Ou não?
_ Será que isso aconteceu mesmo?
_ Não sei... Por via das dúvidas, melhor eu parar de seguir este blog...
_ É... Talvez seja melhor mesmo... Bom, vamos jantar.
_ Sim querida, vamos.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Despertar
A vida é uma coleção de despedidas. Nos despedimos do útero e do leite materno. Damos adeus às fraudas e às roupas que já não nos cabem. Adeus à inocência, aos colegas da escola, aos amigos, aos amores, aos parentes... Estamos sempre nos despedindo e, mesmo assim, nunca nos acostumamos a isso. Sempre lamentamos as despedidas, mesmo daquilo que nos fere. Quem consegue se despedir de suas angústias sem um aperto no peito? Há quem reconheça seus problemas e procura deixar sempre para depois a solução só para manter por perto aquilo que lhe tira o sono. A idéia de morte varia de acordo com a cultura local. Para uns, tormento, drama, saudade... Para outros, transição, alegria, renovação.
Em muitas ocasiões, nos pegamos em busca de um esclarecimento. Uma revelação que nos explique tudo o que passamos, que nos indique o caminho. Quisera a vida ser simples assim. Todos nasceríamos com um guia, um manual de instruções. Por mais que queiramos uma resposta, nem sempre estamos realmente interessados a segui-la. Muitas vezes até sabemos qual caminho que devemos escolher, mas é mais conveniente e menos assustador permanecermos parados no mesmo lugar e implorar por uma luz que, de tão intensa, já nos cegou as vistas.
Queremos respostas, e o erro começa aí. O que devemos desejar não é uma voz que nos mostre a direção. O que devemos buscar é um despertar.
O despertar é sempre mais difícil, pois uma vez que acordamos do transe, não podemos simplesmente fugir da realidade e retornar ao nosso mundo de sonhos ensaiados. Despertar nos faz mergulhar em nossas dúvidas mais honestas e nos afasta de nossas certezas dissimuladas.
É quando despertamos que reconhecemos o valor de cada momento, pois aprendemos que tudo passa. Tanto a dor quanto a delícia se vão para dar lugar a novos eventos dos quais nos despediremos um dia.
Certos eventos (pessoas, momentos, coisas) passam em nossas vidas como um cometa. Um fenômeno raro de extrema beleza e encanto. Um brilho intenso que cruza nosso espaço aéreo deixando um rastro de fascínio e assombro. Ainda assim, sabemos que tudo isso também passará, e nem por isso deixa de ser perfeito.
Ao despertar, compreendemos que cada despedida equivale a um recomeço e o que fica vivo em nossa memória é aquilo que merece ser celebrado com entusiasmo.
Não nos deixemos abater por cometas que se vão, pois, sabemos no fundo de nosso coração que sempre podemos contar com as estrelas.
Em muitas ocasiões, nos pegamos em busca de um esclarecimento. Uma revelação que nos explique tudo o que passamos, que nos indique o caminho. Quisera a vida ser simples assim. Todos nasceríamos com um guia, um manual de instruções. Por mais que queiramos uma resposta, nem sempre estamos realmente interessados a segui-la. Muitas vezes até sabemos qual caminho que devemos escolher, mas é mais conveniente e menos assustador permanecermos parados no mesmo lugar e implorar por uma luz que, de tão intensa, já nos cegou as vistas.
Queremos respostas, e o erro começa aí. O que devemos desejar não é uma voz que nos mostre a direção. O que devemos buscar é um despertar.
O despertar é sempre mais difícil, pois uma vez que acordamos do transe, não podemos simplesmente fugir da realidade e retornar ao nosso mundo de sonhos ensaiados. Despertar nos faz mergulhar em nossas dúvidas mais honestas e nos afasta de nossas certezas dissimuladas.
É quando despertamos que reconhecemos o valor de cada momento, pois aprendemos que tudo passa. Tanto a dor quanto a delícia se vão para dar lugar a novos eventos dos quais nos despediremos um dia.
Certos eventos (pessoas, momentos, coisas) passam em nossas vidas como um cometa. Um fenômeno raro de extrema beleza e encanto. Um brilho intenso que cruza nosso espaço aéreo deixando um rastro de fascínio e assombro. Ainda assim, sabemos que tudo isso também passará, e nem por isso deixa de ser perfeito.
Ao despertar, compreendemos que cada despedida equivale a um recomeço e o que fica vivo em nossa memória é aquilo que merece ser celebrado com entusiasmo.
Não nos deixemos abater por cometas que se vão, pois, sabemos no fundo de nosso coração que sempre podemos contar com as estrelas.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Última Prece
Nossa Senhora Imperfeita, padroeira dos caminhos errôneos e idéias falhas, dirijo-me a ti nesta oração de despedida. Não lhe devo mais tributos ou promessas, não dobrarei seu manto ou curvarei-me diante de seu altar. De certo, podemos afirmar que não farei muita diferença em sua romaria, levando em conta que sempre houve vários seguidores à sua disposição. Eu era apenas mais um servo cego pela esperança e credo. Já larguei sua mão uma vez e me perdi na multidão, hoje, a multidão se coloca entre nós. Sua imagem já não me traz conforto ou alívio e sei que entenderá minha súbita falta de fé.
Não sei bem como dizer o que sinto. Já fui chamado de alquimista das palavras, mas fui rebaixado a um mero canastrão melodramático. Serei o mais conciso possível, sem perder o lirismo lamentoso da narrativa. Ignoremos a ruidosa chuva e o insuportável solo de violino na janela.
Como o amor se converte em indiferença e hostilidade? Influência por conta de sondas alienígenas ou apenas conveniência? Sentir raiva é um recurso prático, de forma que nos sentimos justificados para ferir quem nos quer o bem, sem remorsos, sem olhar para trás.
Através de sua misericórdia, pude ver meu humilde lar converter-se em um majestoso castelo, única e simplesmente para vê-lo demolir. Transitando em meio às ruínas, recolho os cacos e busco apoio em alicerces mais seguros. Estranho como cada pedaço de ladrilho e tijolo parece-me feliz e realizado por seu curto e destrutivo período de nobreza.
Minha gentil santa, hoje percebo sua boa intenção em me fazer acreditar em milagres, mas ambos sabemos que de você não poderíamos esperar tais milagres. Tudo que vinha de você era mero ilusionismo. Mas quem disse que não é possível divertir-se em um espetáculo de pirotecnia, fumaça e espelhos?
Minha Santa Imperfeita, grato sou pelas migalhas que jamais mataram minha fome, mas ofereceram um sabor único ao pouco tempo que fui seu devoto. Grato sou por não passar despercebida em meu coração descrente e, acima de tudo, muito obrigado por deixar registrado em mim a mensagem que jamais esquecerei: Em todos nós há um pouco de santidade... E muito de imperfeição.
Boa noite.
Não sei bem como dizer o que sinto. Já fui chamado de alquimista das palavras, mas fui rebaixado a um mero canastrão melodramático. Serei o mais conciso possível, sem perder o lirismo lamentoso da narrativa. Ignoremos a ruidosa chuva e o insuportável solo de violino na janela.
Como o amor se converte em indiferença e hostilidade? Influência por conta de sondas alienígenas ou apenas conveniência? Sentir raiva é um recurso prático, de forma que nos sentimos justificados para ferir quem nos quer o bem, sem remorsos, sem olhar para trás.
Através de sua misericórdia, pude ver meu humilde lar converter-se em um majestoso castelo, única e simplesmente para vê-lo demolir. Transitando em meio às ruínas, recolho os cacos e busco apoio em alicerces mais seguros. Estranho como cada pedaço de ladrilho e tijolo parece-me feliz e realizado por seu curto e destrutivo período de nobreza.
Minha gentil santa, hoje percebo sua boa intenção em me fazer acreditar em milagres, mas ambos sabemos que de você não poderíamos esperar tais milagres. Tudo que vinha de você era mero ilusionismo. Mas quem disse que não é possível divertir-se em um espetáculo de pirotecnia, fumaça e espelhos?
Minha Santa Imperfeita, grato sou pelas migalhas que jamais mataram minha fome, mas ofereceram um sabor único ao pouco tempo que fui seu devoto. Grato sou por não passar despercebida em meu coração descrente e, acima de tudo, muito obrigado por deixar registrado em mim a mensagem que jamais esquecerei: Em todos nós há um pouco de santidade... E muito de imperfeição.
Boa noite.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Às Vezes Me Sinto Um Turista Em Meu Próprio Quintal
O dia estava lindo e resolvi aproveitar as belezas naturais que o Rio de Janeiro oferece a seus moradores e visitantes. Escolhi o Pão de Açúcar, um de nossos mais famosos cartões postais. Já estive lá antes, mas esta foi a primeira vez que decido ir sozinho (onde eu estava com a cabeça?). Pensei em subir pela trilha, mas sem companhia o caminho seria ainda mais longo e penoso, então embarguei no bondinho. Pouca coisa na paisagem me era novidade, mas é impossível não se encantar com a geografia, a vegetação e as edificações que compõem o cenário que nos rendeu o título de cidade maravilhosa.Tirei muitas fotos e até flagrei dois micos devorando um filhote de sua própria espécie (nem tudo é belo na natureza). Olhando daqui, Copacabana parece-me uma lembrança distante e fria.
Ainda desconfortável com os sentimentos que me norteiam, sentei-me em uma cadeira diante do espetáculo de um céu e um mar infinitamente azuis e acabei visitando um ponto remoto de acesso ainda mais difícil localizado dentro de mim mesmo. Refleti por um momento e fui tomado por uma súbita consciência de decisões equivocadas. Não sabia bem o porquê, mas, quando me dei conta, eu estava represando um choro que já não suportava manter-se contido. Teria sido o medo? A saudade? A carência ou a indignação? Algo estava engasgado e foi preciso muita força (ou fraqueza?) para não vomitar todo o reboco que insiste em se desprender de meu coração. Um copo de água me ajuda a engolir meu entulho sentimental e me distraio com os turistas que parecem muito mais à vontade que eu em minha própria cidade.
Na descida, tenho a impressão de ter deixado algo para trás. A tristeza ainda está aqui comigo, então, não deve ser nada realmente importante... Quem diria que um pão de açúcar poderia ter um sabor tão amargo?
Ainda desconfortável com os sentimentos que me norteiam, sentei-me em uma cadeira diante do espetáculo de um céu e um mar infinitamente azuis e acabei visitando um ponto remoto de acesso ainda mais difícil localizado dentro de mim mesmo. Refleti por um momento e fui tomado por uma súbita consciência de decisões equivocadas. Não sabia bem o porquê, mas, quando me dei conta, eu estava represando um choro que já não suportava manter-se contido. Teria sido o medo? A saudade? A carência ou a indignação? Algo estava engasgado e foi preciso muita força (ou fraqueza?) para não vomitar todo o reboco que insiste em se desprender de meu coração. Um copo de água me ajuda a engolir meu entulho sentimental e me distraio com os turistas que parecem muito mais à vontade que eu em minha própria cidade.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Priori
Não entendo porque as pessoas costumam dizer “agora está nas mãos de Deus” quando tudo mais falha. A gente tenta por todos os meios resolver os problemas e, depois de termos piorado consideravelmente o que já não estava muito bom, decidimos esperar dos céus uma solução divina. É como se nossa televisão apresentasse um pequeno defeito e decidíssemos, por conta própria, abrir o aparelho e tentar consertar sem entender nada de eletrônica. Depois de arrancarmos tudo do lugar, levaríamos para um técnico especializado e, com a maior cara-de-pau, afirmaríamos que o aparelho nunca havia sido aberto.
Conselho: entregue tudo às mãos de Deus desde o início. De preferência, antes que qualquer problema se manifeste. O problema é que temos a memória fraca e costumamos lembrar que Deus existe apenas nos momentos de dificuldade... Talvez por esta razão esses momentos difíceis insistam em acontecer. Uma forma de atiçar nossa memória.
Pensar em Deus poderia ser encarado como um plano de saúde. Tipo, você não precisa estar doente para possuir um desses planos que garantem atendimento, ambulância, internação, consulta, assistência dentária e tudo o mais. Muito pelo contrário, você precisa estar plenamente saudável para que não haja restrições à adesão de seu plano. Posso estar enganado, mas tenho a impressão que mesmo os mais famosos pastores evangélicos que promovem sessões de curas espirituais não abrem mão de um bom plano de saúde.
Entrega teu caminho ao Senhor e o mais Ele fará, certo? Pois deixe-O fazer desde o começo. Conhece algum administrador melhor para organizar cronogramas, coordenar equipes, acionar áreas competentes, viabilizar meios e otimizar recursos? Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo, fez todas as criaturas e com o que sobrou fez o onintorrinco.
Já conheci muita gente preocupada com o fim do mundo. Muitos afirmam que o fim já chegou faz tempo. Estou certo que estamos próximos do grande final, mas enquanto Oscar Niemeyer estiver vivo, não corremos o risco de ver o mundo acabar, afinal, quem vocês acham que Deus vai recorrer na hora de redesenhar tudo?
Certos de que o mundo não vai acabar (pelo menos por enquanto), tudo o mais pode esperar. Tudo isso foi apenas para deixar registrado que confio no tempo de cada um, no tempo das coisas, no tempo de Deus. Pediram-me para esperar e, dessa forma, aguardo na certeza de resultados favoráveis, ainda que eu demore a percebê-los.
Agora e sempre, entrego-me às mãos de Deus. Não como último recurso, mas como princípio fundamental.
Conselho: entregue tudo às mãos de Deus desde o início. De preferência, antes que qualquer problema se manifeste. O problema é que temos a memória fraca e costumamos lembrar que Deus existe apenas nos momentos de dificuldade... Talvez por esta razão esses momentos difíceis insistam em acontecer. Uma forma de atiçar nossa memória.
Pensar em Deus poderia ser encarado como um plano de saúde. Tipo, você não precisa estar doente para possuir um desses planos que garantem atendimento, ambulância, internação, consulta, assistência dentária e tudo o mais. Muito pelo contrário, você precisa estar plenamente saudável para que não haja restrições à adesão de seu plano. Posso estar enganado, mas tenho a impressão que mesmo os mais famosos pastores evangélicos que promovem sessões de curas espirituais não abrem mão de um bom plano de saúde.
Entrega teu caminho ao Senhor e o mais Ele fará, certo? Pois deixe-O fazer desde o começo. Conhece algum administrador melhor para organizar cronogramas, coordenar equipes, acionar áreas competentes, viabilizar meios e otimizar recursos? Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo, fez todas as criaturas e com o que sobrou fez o onintorrinco.
Já conheci muita gente preocupada com o fim do mundo. Muitos afirmam que o fim já chegou faz tempo. Estou certo que estamos próximos do grande final, mas enquanto Oscar Niemeyer estiver vivo, não corremos o risco de ver o mundo acabar, afinal, quem vocês acham que Deus vai recorrer na hora de redesenhar tudo?
Certos de que o mundo não vai acabar (pelo menos por enquanto), tudo o mais pode esperar. Tudo isso foi apenas para deixar registrado que confio no tempo de cada um, no tempo das coisas, no tempo de Deus. Pediram-me para esperar e, dessa forma, aguardo na certeza de resultados favoráveis, ainda que eu demore a percebê-los.
Agora e sempre, entrego-me às mãos de Deus. Não como último recurso, mas como princípio fundamental.
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quarta-feira, 5 de maio de 2010
Online
“Gatinha underline safada está online agora.”
Nossa, que endereço eletrônico mais sugestivo! Nem me recordo como ela veio parar na minha lista de contatos, mas não dá pra ignorar quando uma gatinha e, ainda por cima safada, aparece assim dando sopa.
_ Olá, tudo bem?
_ Oi, tudo. E com você?
_ Bem também... De onde a conheço?
_ Acho que de algum bate-papo.
Isso não chega a ajudar muito, mas já é um começo. Certamente já conversamos antes, mas não lembro agora. A vida virtual é muito prática, dinâmica e vazia. A gente acaba colecionando contatos só para aumentar nossa lista de “amigos” e depois ninguém faz ideia de onde se conheceram.
_ Qual, seu nome?
_ Melissa.
_ Quantos aninhos?
_ Dezoito. E você? Tecla de onde?
A superficialidade dessa conversa faz parte de um roteiro que sempre recorremos para puxar assunto. Se tudo correr bem, em breve saberemos as preferências um do outro, o signo, o time de futebol e a cor predileta.
_ O que curte?
_ Malhação e balada.
Malhação e balada... Mais uma resposta ensaiada. Uma maneira de se dizer descolada, vaidosa e desprendida. É no mínimo suspeito quando as descrições de nosso contato são tão favoráveis, mas vale a pena deixar rolar e ver onde isso vai chegar.
_ Como você é?
_ Sou morena, olhos azuis, sarada...
_ Nossa, você deve ser linda! Pode ligar a cam?
_ Está com defeito.
_ Hmm, então me mostra uma foto sua.
Ela me enviou a foto... Linda. Absurdamente linda. Maravilhosa. Pra piorar, a danada está de lingerie! Meu coração deu cambalhotas! Olhando de relance ela até lembra aquela atriz norte americana Megan Fox. Peraí... Olhando bem, ela parece muito com a Megan Fox... Ei! Esta é a foto da Megan Fox mesmo! Outra armadilha da Internet: todos somos perfeitos. Montamos personagens com os fragmentos que encontramos espalhados pela rede. Não poderia ficar por baixo, então me descrevi como um guerreiro espartano, só que mais avantajado. Pensei em enviar a foto do Murilo Benício dizendo ser eu, mas preferi manter-me oculto usando no lugar de minha foto a figura de um patinho de borracha.
_ Você me deixou curiosa... Deve ser lindo.
_ É o que mamãe sempre me diz.
_ E ainda por cima tem senso de humor. Gostei de você.
Ela diz isso seguido de alguns “rsrs”, indicando que estava rindo. O papo foi fluindo e não demorou muito para estarmos envolvidos em um clima de sedução e erotismo.
_ Ai, queria sentir você todinho dentro de mim... Você deve ser uma delícia... Me diz o que você faria comigo se eu estivesse aí do seu lado... Tesão...
Quando o clima estava esquentando de verdade, ela pediu um minuto e seu status mudou de disponível para ocupada. Tomei um susto quando meu telefone tocou. Era o Rubens, o Rubão. Capitão do time de futebol do bairro. Deve ter uns quarenta anos ou mais, ostenta um bigodão referto desde quando deu baixa no exército. Homem robusto de comportamento truculento, passos firmes e voz grossa.
_ Fala, Rubão.
_ E aí, cara, beleza? Lembra da mesa de sinuca que encomendei? Chegou ontem! Chega aqui mais tarde para jogarmos! Também comprei duas garrafas de tequila só pra nós! Diversão de macho, que tal?
Empolguei-me com o convite e, ainda com o telefone no ouvido, cliquei para chamar a atenção de Melissa para me despedir. Estranhei a duplicidade do som da campainha...
_ Rubão...
_ Que foi?
_ Que barulho foi esse?
_ Barulho?! Que barulho?
_ Você está no MSN?
_ Eu?! Não, claro que não... Que ideia!
Cliquei mais uma vez para chamar a atenção de Melissa e pude ouvir novamente a reprodução da campainha vindo do outro lado da linha.
_ Rubão, tem certeza que seu computador não está ligado?
_ Ora... É... Tenho, ué!
Chamei a atenção uma vez mais e lá estava novamente a campainha na casa de Rubão.
_ Rubão, este som não seria de alguém chamando sua atenção no MSN?
_ Ah, essa campainha?! É, pois é... É que eu estava online e estão querendo falar comigo, nada de mais...
_ Rubão...
_ O que foi, porra??
_ ...Nada não.
Inventei uma indisposição qualquer e dispensei nossa “diversão de macho”. Melissa volta a estar disponível.
_ Oi, gatinho. Desculpe a demora. Eu estava no telefone. Onde paramos?
_ Melissa...
_ Fala meu gostoso...
_ Você gosta de sinuca e tequila?
“Gatinha underline safada não pode responder agora, pois seu status está definido como offline.”
Nossa, que endereço eletrônico mais sugestivo! Nem me recordo como ela veio parar na minha lista de contatos, mas não dá pra ignorar quando uma gatinha e, ainda por cima safada, aparece assim dando sopa.
_ Olá, tudo bem?
_ Oi, tudo. E com você?
_ Bem também... De onde a conheço?
_ Acho que de algum bate-papo.
Isso não chega a ajudar muito, mas já é um começo. Certamente já conversamos antes, mas não lembro agora. A vida virtual é muito prática, dinâmica e vazia. A gente acaba colecionando contatos só para aumentar nossa lista de “amigos” e depois ninguém faz ideia de onde se conheceram.
_ Qual, seu nome?
_ Melissa.
_ Quantos aninhos?
_ Dezoito. E você? Tecla de onde?
A superficialidade dessa conversa faz parte de um roteiro que sempre recorremos para puxar assunto. Se tudo correr bem, em breve saberemos as preferências um do outro, o signo, o time de futebol e a cor predileta.
_ O que curte?
_ Malhação e balada.
Malhação e balada... Mais uma resposta ensaiada. Uma maneira de se dizer descolada, vaidosa e desprendida. É no mínimo suspeito quando as descrições de nosso contato são tão favoráveis, mas vale a pena deixar rolar e ver onde isso vai chegar.
_ Como você é?
_ Sou morena, olhos azuis, sarada..._ Nossa, você deve ser linda! Pode ligar a cam?
_ Está com defeito.
_ Hmm, então me mostra uma foto sua.
Ela me enviou a foto... Linda. Absurdamente linda. Maravilhosa. Pra piorar, a danada está de lingerie! Meu coração deu cambalhotas! Olhando de relance ela até lembra aquela atriz norte americana Megan Fox. Peraí... Olhando bem, ela parece muito com a Megan Fox... Ei! Esta é a foto da Megan Fox mesmo! Outra armadilha da Internet: todos somos perfeitos. Montamos personagens com os fragmentos que encontramos espalhados pela rede. Não poderia ficar por baixo, então me descrevi como um guerreiro espartano, só que mais avantajado. Pensei em enviar a foto do Murilo Benício dizendo ser eu, mas preferi manter-me oculto usando no lugar de minha foto a figura de um patinho de borracha.
_ Você me deixou curiosa... Deve ser lindo.
_ É o que mamãe sempre me diz.
_ E ainda por cima tem senso de humor. Gostei de você.
Ela diz isso seguido de alguns “rsrs”, indicando que estava rindo. O papo foi fluindo e não demorou muito para estarmos envolvidos em um clima de sedução e erotismo.
_ Ai, queria sentir você todinho dentro de mim... Você deve ser uma delícia... Me diz o que você faria comigo se eu estivesse aí do seu lado... Tesão...
Quando o clima estava esquentando de verdade, ela pediu um minuto e seu status mudou de disponível para ocupada. Tomei um susto quando meu telefone tocou. Era o Rubens, o Rubão. Capitão do time de futebol do bairro. Deve ter uns quarenta anos ou mais, ostenta um bigodão referto desde quando deu baixa no exército. Homem robusto de comportamento truculento, passos firmes e voz grossa.
_ Fala, Rubão.
_ E aí, cara, beleza? Lembra da mesa de sinuca que encomendei? Chegou ontem! Chega aqui mais tarde para jogarmos! Também comprei duas garrafas de tequila só pra nós! Diversão de macho, que tal?
Empolguei-me com o convite e, ainda com o telefone no ouvido, cliquei para chamar a atenção de Melissa para me despedir. Estranhei a duplicidade do som da campainha..._ Rubão...
_ Que foi?
_ Que barulho foi esse?
_ Barulho?! Que barulho?
_ Você está no MSN?
_ Eu?! Não, claro que não... Que ideia!
Cliquei mais uma vez para chamar a atenção de Melissa e pude ouvir novamente a reprodução da campainha vindo do outro lado da linha.
_ Rubão, tem certeza que seu computador não está ligado?
_ Ora... É... Tenho, ué!
Chamei a atenção uma vez mais e lá estava novamente a campainha na casa de Rubão.
_ Rubão, este som não seria de alguém chamando sua atenção no MSN?
_ Ah, essa campainha?! É, pois é... É que eu estava online e estão querendo falar comigo, nada de mais...
_ Rubão...
_ O que foi, porra??
_ ...Nada não.
Inventei uma indisposição qualquer e dispensei nossa “diversão de macho”. Melissa volta a estar disponível.
_ Oi, gatinho. Desculpe a demora. Eu estava no telefone. Onde paramos?
_ Melissa...
_ Fala meu gostoso...
_ Você gosta de sinuca e tequila?
“Gatinha underline safada não pode responder agora, pois seu status está definido como offline.”
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