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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O Lado do Coração

A paciência de Luzia já havia alcançado seu limite. Todos sabiam que ela não tinha vocação para exercer o magistério, muito menos lecionando para crianças do primário de uma escola pública próxima a uma comunidade carente. Todos os dias na hora do recreio ela se refugiava no estacionamento para fumar, vício que sempre detestou e jurava parar um dia. Em um desses intervalos, encontrou com a diretora Joana, que também acostumou a encarar o cigarro como um bote salva-vidas nessas horas. Muitas coisas incomodavam Luzia, mas uma em especial a fazia perder a cabeça.
_ É o danado do Lucas! Aquele peste vive me atazanando! Sempre interrompe a aula para explicar que o lado esquerdo é o lado que bate o coração. Fica apontando para os coleguinhas dizendo que fulano está sentado do lado direito da cicrana e que beltrano está do lado esquerdo de fulana. Parece até que a única coisa que ele aprendeu até hoje é a diferença de direito e esquerdo! Criança insuportável!
_ E que fez com ele? – Joana quis saber.
_ Eu o coloco de castigo e mando fazer silêncio, mas não adianta. No dia seguinte é a mesma coisa!
A diretora deu uma tragada profunda, soltou a fumaça de seus pulmões com satisfação e disse:
_ Pelo visto você não conhece a história de Lucas. Não faz idéia do porquê dele saber tão bem a diferença entre esquerdo e direito?
_ História?! Pra mim ele só quer chamar a atenção!
_ Lucas aprendeu com a mãe o que é direita e esquerda. Ela havia economizado para dar de presente ao filho um par de chuteiras. Para o menino não confundir os pés na hora de calçar, ela colocou um cadarço de cada cor. A chuteira de cadarço branco deveria ser colocada sempre no pé direito e a de cadarço azul sempre no pé esquerdo. Lucas perguntou a mãe como ele não esqueceria qual lado é o esquerdo e qual é o direito. Sua mãe colocou a mão dele sobre o peito e mostrou o lado que bate o coração. Ela disse que aquele é o lado esquerdo. O lado azul. Quando tivesse dúvidas era só colocar a mão no peito e sentir onde está guardado o coração.
_ Linda história, mas isso não justifica tumultuar minha aula.
_ Ai, Luzia... – jogando o cigarro no chão e pisando-o – Quando você vai perceber que nem tudo que acontece ao seu redor tem a ver diretamente com você? Lucas quer apenas mostrar que aprendeu bem a última lição que a mãe o ensinou.
_ Última lição?!
O alarme dispara alertando o fim do intervalo. Joana segue em direção ao pátio dizendo:
_ Sim. Última lição. A mãe de Lucas foi vítima de uma bala perdida. O tiro a acertou bem aqui – apontou para seu próprio peito na altura do coração – Bem aqui no lado azul. Acho que é bem difícil para uma criança esquecer, não acha?
_ Meu Deus... Eu... Eu não fazia ideia!
_ É estranho como nos identificamos com a tragédia, né? Parece que só compreendemos o outro quando conhecemos seus dramas. Acredite, Luzia, seus problemas não são maiores que os de muitas crianças desta escola. Já imaginou como seria difícil praticar nosso ofício se para cada criança que nos preocupássemos a ajudar tivéssemos que ouvir uma história triste?
_ Eu só queria que ele não atrapalhasse minhas aulas.
_ Como espera que ele seja cooperativo se para a única coisa na vida que ele tem certeza ele sempre acaba sendo punido?

Um comentário:

ulisses sebrian disse...

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E se possível entrar como seguidor. Obrigado
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