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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Mundos que Colidem

Eles se conheceram há menos de trinta minutos e agora têm seus corpos unidos por uma força absolutamente poderosa. Seus corações batem em um ritmo quase uníssono dentro de seus peitos pressionados. Eles dividem o calor de seus hálitos ofegantes e trocam um sorriso desajeitado para amenizar o constrangimento desta intimidade repentina imposta.
Ela costumava ir à faculdade de carro, mas precisou deixar o veículo na concessionária para um recall. Fazia tempo que ela não pegava o metrô, mesmo assim estranhou a quantidade de pessoas que aguardavam a composição na estação Botafogo. Quando as portas se abriram, foi acotovelada deixando seus livros de Direito caírem. Ele surgiu ajudando-a a recolher seu material. Agradeceu a gentileza do rapaz e iniciaram um papo enquanto mais passageiros entravam a cada estação. Ela achou graça do rapaz estar carregando a mochila na frente do corpo. “Bom, é como somos instruídos a carregá-la quando o vagão enche.”, disse ele com um sorriso tentando ajeitar sua bagagem sobre o ombro. Ela achou que era alguma piada. “Isso é brincadeira, não é?”, perguntou rindo. “Está na cara que você não costuma pegar a Linha Dois...”, respondeu-a. O riso dela dissolveu-se como um caracol em contato com sal. Ela já ouvira falar dessa tal “Linha Dois”, mas achava que era alguma lenda. Seu pai costumava ameaçá-la quando criança: “Se não comer todos os legumes vou te levar para passear na Linha Dois do metrô!” Quando adolescente, convenceu-se que aquilo não passava de um mito, assim como o velho do saco, Bicho-Papão e Internet discada (se bem que às vezes ela acha que o tal velho do saco pode ser real). Isso lhe rendeu uma intolerância por legumes e anos de análise.
Só poderia ser mentira. De acordo com as histórias de terror de seu pai, a Linha Dois se escondia logo abaixo da estação Estácio. Era o subterrâneo do subterrâneo. O próprio inferno! Um trem tomado por almas atormentadas que se espremiam em vagões muitas vezes sem ar condicionado. Almas estas que digladiavam por centímetros quadrados assim que as portas se abriam, pisoteando quem estivesse a frente, gritando, ofendendo e agredindo com bolsas e guarda-chuvas. O que prevalecia era a lei do mais forte e ágil, não havia regalias para idosos, gestantes ou deficientes.
O rapaz explicou que recentemente houve obras de extensão e por isso ela acabou se confundindo. “Mas eu estou indo para Saens Peña! O que faço agora?” O rapaz orientou-a a saltar na próxima estação, mas não foi tão simples assim. Chegando na estação Central, um mar de pessoas invadiu o vagão. Ela ficou chocada com uma mulher que foi arremessada de encontro à porta por um homem que segurava o aparelho de celular que tocava uma música de gosto duvidoso em um volume altíssimo.
Foi neste momento que seus corpos colidiram. Ela olhava nos olhos do rapaz desconcertada e pedindo socorro ao mesmo tempo. “Vou saltar em Triagem. Fique comigo e eu a ajudo a sair daqui!”, disse ele com a voz rouca. Ela concordou balançando a cabeça positivamente em um movimento curto. Chegando na estação, ele segurou sua mão e iniciou uma batalha titânica para alcançar a saída. “Haja o que houver não solte minha mão!” Um som de alarme anunciava que as portas se fechariam e eles ainda estavam na metade do caminho. O rapaz fez de sua mochila um escudo e empurrou com toda força a parede humana que bloqueava a passagem. As portas deslizavam e o pé do rapaz alcançou a plataforma. Quando parecia que conseguiriam, o suor fez com que a mão da moça escorregasse. O rapaz não teve tempo de resgatá-la. As portas se fecharam raspando em seus dedos. Eles trocaram um último olhar através do vidro. Ele dizia em seus pensamentos “Eu tentei, me perdoe... Juro que tentei.” Ela põe a mão no vidro e vê a figura do rapaz na plataforma tornando-se cada vez menor à distância.
Em pânico, recolheu-se até um canto onde sentiu-se menos insegura e ali permaneceu imóvel até chegar na estação final. Sentia-se confusa, jamais passara por uma experiência tão assustadora e ao mesmo tempo excitante. Não havia condições de ir à faculdade. Tudo que ela queria era voltar para seu apartamento e se empanturrar com todos os legumes que ela fosse capaz de comer. Certa de que não poria os pés tão cedo no metrô, perguntou a um feirante onde ela poderia pegar um ônibus para chegar à Zona Sul. Quando seus olhos encararam a rodoviária da Pavuna ela teve certeza: “O velho do saco existe e é pra cá que ele traz as crianças!!”

8 comentários:

Geny disse...

Conta a história que, caso a criança saísse de casa sozinha, viria um velho com um saco para pega-la. As crianças que o velho carregava no saco, eram crianças que ele encontrava quando estas estavam sem um adulto por perto. Gostei deste escrito.
Tenha uma boa continuação.

Luana Temperine disse...

Muito bom!!! Só quem conhece as agruras de quem precisa usar a linha dois do metrô e a rodoviária da Pavuna, sabe do que está falando!!!foi quase uma história de amor num cenário de terror! É que podemos chamar "Força do destino" Parabéns amigo!!!!!

Priscila Zarth disse...

Olá escritor. Eu já estava com saudades de ler suas postagens, fiquei sem internet e por isso não visitava mais seu blog. Sua postagem como todas ficou maravilhosa. Parabéns por nos fazer imaginar uma cenal tão bacana em um texto que descreve a realidade das pessoas que moram na cidade grade. Parabéns mais uma vez. Sucesso!

Danielli disse...

Adorei o texto. Parecia viver aqueles fatos, muito legal!!!

Iza Andrade disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkNunca li uma descrição tão perfeita da Linha 2 e olha que encaro essa batalha diariamente ...mas esse ponto de vista meio trágico meio cômico ficou hilário kkkkkkkkkkkkkkkk

Manu disse...

Pavuna que nada...
Para quem pega trem do Ramal Santa Cruz as 18 horas, pesadelo é pegar a conexão Japeri ou Saracuruna ali mesmo na Central neste mesmo horário e como castigo ter que passar duas horas e meia dentro de um vagão (fornão) lotado de pessoas esteticamente desfavorecidas e emanando fragrâncias duvidosas, rumo ao inferno... O homem do saco vira galã! kkkkkkk
Muito bom seu texto! Tão divertido quanto o do fortão churrasqueiro.

Cliver disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cliver disse...

Olá, Manu!
Fazia tempo que eu não andava de trem, até que um dia desses fui da Central a Campo Grande e, apesar de ser final de semana, deu pra perceber que a coisa é bem complicada, principalmente em dias úteis. Obrigado pelo comentário e seja bem-vinda! Luz e força!