Imagine-se eleito para administrar uma cidade cheia de problemas. Você pode até se sentir lisonjeado no início, mas as cobranças vêm logo em seguida. Alegarão sua incompetência até que seja destituído do seu cargo. A questão é que os problemas já estavam ali antes de você chegar. Problemas de longa data por conta de administradores incompetentes, descaso das autoridades e, principalmente, da indisciplina e imprudência de grande parte da população que, culturalmente, se condicionou a espalhar lixo, destruir o patrimônio público e reclamar da vida. Como protesto, o povo perde o interesse na política, como se a falta de interesse os tornasse isento das conseqüências de uma escolha equivocada de seus representantes. Votamos em corruptos consagrados ou em pessoas descompromissadas com o bem comum. Fazemos da política uma piada, um circo onde os palhaços somos nós eleitores.
O que veio primeiro: os problemas ou a necessidade da queixa? Ainda que tudo fosse diferente, lá estaríamos nós para reclamar e escolher alguém que pudéssemos pôr a culpa.
Alguém considera atraente tornar-se responsável pela felicidade de alguém? Conheço pessoas que tem como meta de vida encontrar seu grande amor como solução de todos os seus problemas. Pessoas frustradas que esperam encontrar no outro tudo que precisam. Seria justo esperar do outro a solução definitiva de nossas angústias? Será que devemos atribuir a alguém tamanha responsabilidade? Sempre estamos dispostos a exigir muito do outro, mas esquecemos de exigir de nós.

Há quem calcule seu lar pelas paredes que o cercam. Nossa casa não está apenas da porta para dentro. Nossa casa também está da porta pra fora. Vamos arrumar a casa e sejamos dignos e merecedores de nossa morada e que o outro (a quem projetamos nossa felicidade) seja o reflexo de nossa dignidade e merecimento.