Eles se conheceram há menos de trinta minutos e agora têm seus corpos unidos por uma força absolutamente poderosa. Seus corações batem em um ritmo quase uníssono dentro de seus peitos pressionados. Eles dividem o calor de seus hálitos ofegantes e trocam um sorriso desajeitado para amenizar o constrangimento desta intimidade repentina imposta.
Ela costumava ir à faculdade de carro, mas precisou deixar o veículo na concessionária para um recall. Fazia tempo que ela não pegava o metrô, mesmo assim estranhou a quantidade de pessoas que aguardavam a composição na estação Botafogo. Quando as portas se abriram, foi acotovelada deixando seus livros de Direito caírem. Ele surgiu ajudando-a a recolher seu material. Agradeceu a gentileza do rapaz e iniciaram um papo enquanto mais passageiros entravam a cada estação. Ela achou graça do rapaz estar carregando a mochila na frente do corpo. “Bom, é como somos instruídos a carregá-la quando o vagão enche.”, disse ele com um sorriso tentando ajeitar sua bagagem sobre o ombro. Ela achou que era alguma piada. “Isso é brincadeira, não é?”, perguntou rindo. “Está na cara que você não costuma pegar a Linha Dois...”, respondeu-a. O riso dela dissolveu-se como um caracol em contato com sal. Ela já ouvira falar dessa tal “Linha Dois”, mas achava que era alguma lenda. Seu pai costumava ameaçá-la quando criança: “Se não comer todos os legumes vou te levar para passear na Linha Dois do metrô!” Quando adolescente, convenceu-se que aquilo não passava de um mito, assim como o velho do saco, Bicho-Papão e Internet discada (se bem que às vezes ela acha que o tal velho do saco pode ser real). Isso lhe rendeu uma intolerância por legumes e anos de análise.
Só poderia ser mentira. De acordo com as histórias de terror de seu pai, a Linha Dois se escondia logo abaixo da estação Estácio. Era o subterrâneo do subterrâneo. O próprio inferno! Um trem tomado por almas atormentadas que se espremiam em vagões muitas vezes sem ar condicionado. Almas estas que digladiavam por centímetros quadrados assim que as portas se abriam, pisoteando quem estivesse a frente, gritando, ofendendo e agredindo com bolsas e guarda-chuvas. O que prevalecia era a lei do mais forte e ágil, não havia regalias para idosos, gestantes ou deficientes.
O rapaz explicou que recentemente houve obras de extensão e por isso ela acabou se confundindo. “Mas eu estou indo para Saens Peña! O que faço agora?” O rapaz orientou-a a saltar na próxima estação, mas não foi tão simples assim. Chegando na estação Central, um mar de pessoas invadiu o vagão. Ela ficou chocada com uma mulher que foi arremessada de encontro à porta por um homem que segurava o aparelho de celular que tocava uma música de gosto duvidoso em um volume altíssimo.
Foi neste momento que seus corpos colidiram. Ela olhava nos olhos do rapaz desconcertada e pedindo socorro ao mesmo tempo. “Vou saltar em Triagem. Fique comigo e eu a ajudo a sair daqui!”, disse ele com a voz rouca. Ela concordou balançando a cabeça positivamente em um movimento curto. Chegando na estação, ele segurou sua mão e iniciou uma batalha titânica para alcançar a saída. “Haja o que houver não solte minha mão!” Um som de alarme anunciava que as portas se fechariam e eles ainda estavam na metade do caminho. O rapaz fez de sua mochila um escudo e empurrou com toda força a parede humana que bloqueava a passagem. As portas deslizavam e o pé do rapaz alcançou a plataforma. Quando parecia que conseguiriam, o suor fez com que a mão da moça escorregasse. O rapaz não teve tempo de resgatá-la. As portas se fecharam raspando em seus dedos. Eles trocaram um último olhar através do vidro. Ele dizia em seus pensamentos “Eu tentei, me perdoe... Juro que tentei.” Ela põe a mão no vidro e vê a figura do rapaz na plataforma tornando-se cada vez menor à distância.
Em pânico, recolheu-se até um canto onde sentiu-se menos insegura e ali permaneceu imóvel até chegar na estação final. Sentia-se confusa, jamais passara por uma experiência tão assustadora e ao mesmo tempo excitante. Não havia condições de ir à faculdade. Tudo que ela queria era voltar para seu apartamento e se empanturrar com todos os legumes que ela fosse capaz de comer. Certa de que não poria os pés tão cedo no metrô, perguntou a um feirante onde ela poderia pegar um ônibus para chegar à Zona Sul. Quando seus olhos encararam a rodoviária da Pavuna ela teve certeza: “O velho do saco existe e é pra cá que ele traz as crianças!!”
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Mundos que Colidem
Marcadores:
colidem,
legumes,
metrô,
mundos,
pavuna,
rodoviária,
trauma,
velho do saco
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
O Efeito do Tempo e as Amizades
Esse tema foi sugerido por um amigo que, curiosamente, passou a fazer parte de meu círculo de amizades há pouco tempo (nem por isso menos importante que os de longa data). Entendo que cada um de nós representa um complexo e fascinante sistema de engrenagens que necessita de manutenção esporádica adequada. É sempre muito fácil aceitar tudo que nos é semelhante, tudo que nos identificamos. Difícil, porém muito mais estimulante, é aceitar as diferenças. Muitas vezes, nos ocupamos demais em moldar quem participa de nosso convívio de acordo com nossas expectativas, mas não podemos programar a atitude dos outros. Podemos responder por nossos atos, mas não me parece saudável esperar reciprocidade integral. Melhor seria conhecer a si próprio e compreender o próximo.
Assim como tudo que existe, a amizade sofre a ação do tempo e é comum que haja desgastes que necessitem de atenção, mas isso não nos torna menos preciosos. Certos níveis de amizade são resistentes aos efeitos do tempo e espaço, prevalecendo seu frescor independente de distância e período. Cada qual segue seu caminho e não devemos lamentar as idas e vindas, mas sim promover a celebração dessas múltiplas trajetórias.
Ideias contrárias, divergências, críticas... Tudo isso pode ser muito bem-vindo, desde que sejamos flexíveis e saibamos reconhecer o que nos acrescenta. O que sobrar, que nos sirva de alicerce para solidificar nossas relações, pois nos dará o conhecimento necessário para pisarmos com segurança.
Longe de ser uma ciência exata, a amizade também segue suas lógicas... De preferência, mais para biológicas que cronológicas.
Assim como tudo que existe, a amizade sofre a ação do tempo e é comum que haja desgastes que necessitem de atenção, mas isso não nos torna menos preciosos. Certos níveis de amizade são resistentes aos efeitos do tempo e espaço, prevalecendo seu frescor independente de distância e período. Cada qual segue seu caminho e não devemos lamentar as idas e vindas, mas sim promover a celebração dessas múltiplas trajetórias.
Ideias contrárias, divergências, críticas... Tudo isso pode ser muito bem-vindo, desde que sejamos flexíveis e saibamos reconhecer o que nos acrescenta. O que sobrar, que nos sirva de alicerce para solidificar nossas relações, pois nos dará o conhecimento necessário para pisarmos com segurança.
Longe de ser uma ciência exata, a amizade também segue suas lógicas... De preferência, mais para biológicas que cronológicas.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Sorriso-Moeda
Não sou nenhum luthier, mas quando necessário faço manutenções básicas em meus instrumentos musicais. Há tempos que venho prometendo consertar o violão de meu pai. Tal violão tem, além de uma ótima acústica, uma história bem bacana. Fora o primeiro violão que meu pai comprou aos dezessete anos, antes de ter saído do Rio Grande do Norte para vir morar aqui no Rio de Janeiro. Assim como eu, meu pai aprendeu sozinho a arranhar suas modinhas. Meio século de canções e algumas tarraxas quebradas, vários desgastes e arranhões. Meu pai chegou a comprar dois substitutos, mas sempre se queixava afirmando que seu antigo violão potiguar era muito melhor.
Depois de lixá-lo e envernizá-lo, comprei paletas de tarraxas novas e fiz uma peregrinação por várias lojas em busca dos parafusos exatos. Nunca pensei que fosse tão difícil encontrá-los. Por fim, cheguei em uma loja onde fui atendido pelo dono, um sujeito bonachão, receptivo e atencioso. Quando mostrei o parafuso que eu procurava, ele perguntou “Está com paciência?”. Balancei a cabeça afirmativamente e ele me trouxe um pote grande com centenas de parafusos de vários calibres e modelos diferentes. Ele me ajudou a procurar alguns que fossem parecidos com os que eu precisava e conseguimos separar um punhado. Perguntei a ele quanto me custaria.
_ Apenas um sorriso – respondeu-me.
Depois de tanto procurar os parafusos, não esperava um preço tão camarada. Para disfarçar minha “sem-gracice”, perguntei em tom de brincadeira:
_ Posso deixar fiado?
Ambos rimos e, com o valor devidamente pago e com direito a troco, nos despedimos.
Quando entreguei o violão a meu pai, seu sorriso fez valer todo esforço e me dei conta do quão valioso e rentável é negociar com “sorriso-moeda”.
Sorrir é sempre um bom investimento, não nos custa nada e o retorno é garantido. Difícil entender como, ainda assim, há tantas pessoas que insistem em ser inadimplentes.
Depois de lixá-lo e envernizá-lo, comprei paletas de tarraxas novas e fiz uma peregrinação por várias lojas em busca dos parafusos exatos. Nunca pensei que fosse tão difícil encontrá-los. Por fim, cheguei em uma loja onde fui atendido pelo dono, um sujeito bonachão, receptivo e atencioso. Quando mostrei o parafuso que eu procurava, ele perguntou “Está com paciência?”. Balancei a cabeça afirmativamente e ele me trouxe um pote grande com centenas de parafusos de vários calibres e modelos diferentes. Ele me ajudou a procurar alguns que fossem parecidos com os que eu precisava e conseguimos separar um punhado. Perguntei a ele quanto me custaria.
_ Apenas um sorriso – respondeu-me.
Depois de tanto procurar os parafusos, não esperava um preço tão camarada. Para disfarçar minha “sem-gracice”, perguntei em tom de brincadeira:
_ Posso deixar fiado?
Ambos rimos e, com o valor devidamente pago e com direito a troco, nos despedimos.
Quando entreguei o violão a meu pai, seu sorriso fez valer todo esforço e me dei conta do quão valioso e rentável é negociar com “sorriso-moeda”.
Sorrir é sempre um bom investimento, não nos custa nada e o retorno é garantido. Difícil entender como, ainda assim, há tantas pessoas que insistem em ser inadimplentes.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Papo-Família em um Futuro Próximo
_ Papai, eu já sei o que quero ser! Vou fazer a faculdade de medicina!
_ Mas nem pensar! Eu lutei a vida toda estudando e trabalhando duro para poder oferecer o melhor a você!
_ Mas eu descobri minha vocação! Eu quero ajudar às pessoas!
_ E quem vai te ajudar quando estiver passando fome? Acha que médicos ganham bem? Eu já planejei seu futuro! Você será modelo, atriz e dançarina!
_ Papai, já lhe ocorreu que isso é impossível?
_ Não há nada que nos impeça! Eu pensei em tudo! Você vai malhar muito, colocar uns silicones, terá aulas de dança... Economizei muito para isso! Com todos os recursos tecnológicos oferecidos faremos de você uma mulher perfeita! Vai custar caro, mas é um investimento de retorno garantido e rápido!
_ Mas pai, eu só tenho 13 anos!
_ Verdade, mas essas coisas a gente tem que começar cedo!
_ E como eu faria sucesso?
_ Isso é fácil! Precisamos providenciar algum escândalo! Algo que choque a sociedade! Aí você dá sua versão dos fatos e dividirá opiniões! Alguns terão raiva de você, mas muitos te amarão por sua atitude audaciosa!
_ Escândalo?! De que tipo?
_ Isso podemos ver mais tarde. Poderia ter algo a ver com incesto, zoofilia, necrofolia... O negócio é quebrar tabus! Infelizmente não sobraram muitos hoje para serem quebrados.
_ Pai, não sei se quero isso pra mim...
_ Você não sabe nada sobre a vida! Médicos, cientistas, filósofos, juízes... O mundo não precisa mais disso! O que a humanidade quer é bunda! Se é bunda que o povo quer é bunda que daremos! Esqueça o talento, o discernimento, a razão! Deixe seu pai aqui cuidar de sua carreira e te garanto que em breve seu nome será mais conhecido que o da Lady Gaga!
_ Lady o quê??
_ Deixa pra lá, não é do seu tempo...
_ Bom, papai... Sua intenção parece muito boa, mas há um pequeno detalhe que você não está considerando.
_ Qual?
_ Esqueceu que sou menino?
_ Por enquanto, filho... Por enquanto...
_ Mas nem pensar! Eu lutei a vida toda estudando e trabalhando duro para poder oferecer o melhor a você!
_ Mas eu descobri minha vocação! Eu quero ajudar às pessoas!
_ E quem vai te ajudar quando estiver passando fome? Acha que médicos ganham bem? Eu já planejei seu futuro! Você será modelo, atriz e dançarina!
_ Papai, já lhe ocorreu que isso é impossível?
_ Não há nada que nos impeça! Eu pensei em tudo! Você vai malhar muito, colocar uns silicones, terá aulas de dança... Economizei muito para isso! Com todos os recursos tecnológicos oferecidos faremos de você uma mulher perfeita! Vai custar caro, mas é um investimento de retorno garantido e rápido!
_ Mas pai, eu só tenho 13 anos!
_ Verdade, mas essas coisas a gente tem que começar cedo!
_ E como eu faria sucesso?
_ Isso é fácil! Precisamos providenciar algum escândalo! Algo que choque a sociedade! Aí você dá sua versão dos fatos e dividirá opiniões! Alguns terão raiva de você, mas muitos te amarão por sua atitude audaciosa!
_ Escândalo?! De que tipo?
_ Isso podemos ver mais tarde. Poderia ter algo a ver com incesto, zoofilia, necrofolia... O negócio é quebrar tabus! Infelizmente não sobraram muitos hoje para serem quebrados.
_ Pai, não sei se quero isso pra mim...
_ Você não sabe nada sobre a vida! Médicos, cientistas, filósofos, juízes... O mundo não precisa mais disso! O que a humanidade quer é bunda! Se é bunda que o povo quer é bunda que daremos! Esqueça o talento, o discernimento, a razão! Deixe seu pai aqui cuidar de sua carreira e te garanto que em breve seu nome será mais conhecido que o da Lady Gaga!
_ Lady o quê??
_ Deixa pra lá, não é do seu tempo...
_ Bom, papai... Sua intenção parece muito boa, mas há um pequeno detalhe que você não está considerando.
_ Qual?
_ Esqueceu que sou menino?
_ Por enquanto, filho... Por enquanto...
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
O Tamanho de Nossa Casa (ou A Responsabilidade de ser Feliz Através do Outro)
Onde começa e termina sua casa?
Imagine-se eleito para administrar uma cidade cheia de problemas. Você pode até se sentir lisonjeado no início, mas as cobranças vêm logo em seguida. Alegarão sua incompetência até que seja destituído do seu cargo. A questão é que os problemas já estavam ali antes de você chegar. Problemas de longa data por conta de administradores incompetentes, descaso das autoridades e, principalmente, da indisciplina e imprudência de grande parte da população que, culturalmente, se condicionou a espalhar lixo, destruir o patrimônio público e reclamar da vida. Como protesto, o povo perde o interesse na política, como se a falta de interesse os tornasse isento das conseqüências de uma escolha equivocada de seus representantes. Votamos em corruptos consagrados ou em pessoas descompromissadas com o bem comum. Fazemos da política uma piada, um circo onde os palhaços somos nós eleitores.
O que veio primeiro: os problemas ou a necessidade da queixa? Ainda que tudo fosse diferente, lá estaríamos nós para reclamar e escolher alguém que pudéssemos pôr a culpa.
Alguém considera atraente tornar-se responsável pela felicidade de alguém? Conheço pessoas que tem como meta de vida encontrar seu grande amor como solução de todos os seus problemas. Pessoas frustradas que esperam encontrar no outro tudo que precisam. Seria justo esperar do outro a solução definitiva de nossas angústias? Será que devemos atribuir a alguém tamanha responsabilidade? Sempre estamos dispostos a exigir muito do outro, mas esquecemos de exigir de nós.
O que temos feito por nós mesmos? Felicidade não é um bem que se conquista, mas um exercício de prática constante. Felicidade não é ausência de problemas, é uma opção de como lidar com os fatos.
Há quem calcule seu lar pelas paredes que o cercam. Nossa casa não está apenas da porta para dentro. Nossa casa também está da porta pra fora. Vamos arrumar a casa e sejamos dignos e merecedores de nossa morada e que o outro (a quem projetamos nossa felicidade) seja o reflexo de nossa dignidade e merecimento.
Imagine-se eleito para administrar uma cidade cheia de problemas. Você pode até se sentir lisonjeado no início, mas as cobranças vêm logo em seguida. Alegarão sua incompetência até que seja destituído do seu cargo. A questão é que os problemas já estavam ali antes de você chegar. Problemas de longa data por conta de administradores incompetentes, descaso das autoridades e, principalmente, da indisciplina e imprudência de grande parte da população que, culturalmente, se condicionou a espalhar lixo, destruir o patrimônio público e reclamar da vida. Como protesto, o povo perde o interesse na política, como se a falta de interesse os tornasse isento das conseqüências de uma escolha equivocada de seus representantes. Votamos em corruptos consagrados ou em pessoas descompromissadas com o bem comum. Fazemos da política uma piada, um circo onde os palhaços somos nós eleitores.
O que veio primeiro: os problemas ou a necessidade da queixa? Ainda que tudo fosse diferente, lá estaríamos nós para reclamar e escolher alguém que pudéssemos pôr a culpa.
Alguém considera atraente tornar-se responsável pela felicidade de alguém? Conheço pessoas que tem como meta de vida encontrar seu grande amor como solução de todos os seus problemas. Pessoas frustradas que esperam encontrar no outro tudo que precisam. Seria justo esperar do outro a solução definitiva de nossas angústias? Será que devemos atribuir a alguém tamanha responsabilidade? Sempre estamos dispostos a exigir muito do outro, mas esquecemos de exigir de nós.
O que temos feito por nós mesmos? Felicidade não é um bem que se conquista, mas um exercício de prática constante. Felicidade não é ausência de problemas, é uma opção de como lidar com os fatos.Há quem calcule seu lar pelas paredes que o cercam. Nossa casa não está apenas da porta para dentro. Nossa casa também está da porta pra fora. Vamos arrumar a casa e sejamos dignos e merecedores de nossa morada e que o outro (a quem projetamos nossa felicidade) seja o reflexo de nossa dignidade e merecimento.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Memorável Melodia
Em minha curta carreira como músico, há uma melodia que jamais esquecerei. Lá estava eu em cima do palco diante de um público animado que repetia o refrão das canções acompanhado pelos instrumentistas. Em meio a tantas mesas lotadas, era fácil identificar a figura de minha mãe que se destacava por ser a única que permanecia sentada com um semblante abatido e olhar nostálgico. Não compreendia porque ela insistia que eu a chamasse para assistir as apresentações de minha banda se ela deixava claro que não estava se divertindo. Cheguei a prometer a mim mesmo que não mais a convidaria, pois a impressão que eu tinha era de que aquilo não passava de uma tortura para ela.Quando terminamos, fui cumprimentado pelo público. Seguia para o camarim quando minha mãe me abordou para me dar os parabéns.
_ Parabéns pelo o quê? – a interrompi – Eu olhava para a senhora e só a notava triste! Por que a senhora insiste em me ver cantar se qualquer um percebe que não está gostando? Melhor seria ter ficado em casa, não acha?
Saindo do camarim, não precisei me esforçar muito para encontrá-la. Minha mãe permanecia parada no mesmo lugar onde eu lhe dei as costas. Pensei em pedir desculpas, mas, desta vez, foi ela quem me interrompeu:
_ Filho, eu admiro tudo o que faz. Eu agradeço muito a Deus pela pessoa linda e talentosa que você se tornou. Se pareço triste é porque lembro das dificuldades que passamos e me aperta o coração pensar em tudo que eu gostaria de ter feito por você e não pude. Penso em tudo que eu poderia ter feito diferente. Me orgulha todas as suas conquistas, mas me dói perceber que não fui cúmplice de muitas delas.
Senti um bloqueio em minha garganta e minha única reação foi desviar o olhar para um ponto qualquer no chão a procura de mim mesmo. Como se lesse meus pensamentos, ela concluiu:
_ Desculpe se eu o aborreço quando insisto em pegar sua mão para atravessarmos uma rua. Sei que você não gosta, mas não é que eu esteja te tratando como criança... Sou eu que preciso de seu apoio, pois assim me sinto mais segura. Você me entende, filho?
O bloqueio em minha garganta foi destruído a golpes de lágrimas e pedidos de desculpas. Não havia nada mais a ser dito, pelo menos não em palavras. Peguei-a pela mão e a conduzi até a mesa.
_ Vem, mãe... Vamos assistir a próxima banda.
Em minha eterna carreira como filho, há uma mãe que jamais esquecerei.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Certas Coisas São Insubstituíveis...
_ Já posso tirar a venda?
_ Calma, já estamos chegando!
Adilson nunca foi um cara de farra. Caseiro, reservado, tímido... Dizem que foi a Heleninha quem tomou a iniciativa do namoro. Se conheceram nos tempos de escola e, depois de muito planejamento, finalmente estavam de casamento marcado. Claro que seus melhores amigos tinham que preparar uma despedida de solteiro memorável, então Moacyr, Anselmo, Ubiratan, Humberto, Clauderval e eu o levamos para um meretrício conhecido na área como “Caverna do Dragão”. Só pelo nome é possível imaginar o tipo de mulher que trabalha lá. Dessas que fazem “compreta” por 30 “real”. Ninguém da turma (que eu saiba) freqüentava tal estabelecimento, mas achamos o cenário muito apropriado para a despedida de solteiro de nosso amigo.
_ Agora sim, pode tirar a venda!
_ Vocês me trouxeram para um inferninho...
Havia um tom de espanto e encantamento na voz de Adilson. Não demoramos a nos acomodar e curtir o ambiente, ora beliscando as nádegas das “primas”, ora bebericando uma cerveja de quinta categoria.
_ Meninas! _ anunciou Clauderval _ Hoje é a despedida de solteiro de nosso amigo! Queremos tratamento VIP!!
A mulherada nos rodeou no ato, cobrindo-nos de toda atenção. Adilson sequer piscava. Convencemos a mais assanhadinha a fazer uma dança sensual para nosso amigo. Ela mostrou todo seu molejo ao som de Dicró. Sugeri a brincadeira da tequila, mas, na falta da mesma, usamos conhaque de alcatrão. Adilson tomava uma dose e depois lambia o sal que jogávamos em partes estratégicas do corpo de alguma menina e depois chupava o limão que sabe-se lá Deus de onde saiu.
Faltava pouco para amanhecer o dia quando Humberto sacudiu Adilson dizendo: “Aproveita bem, pois é só esta noite! Daqui a uma semana vai estar casado e não terá nunca mais uma noite como essa!”
Adilson deixou de lado a mulata “Tiamat” que o judiava com seus volumosos seios de enormes auréolas negras e mamilos salientes. Parecia um momento de iluminação. Uma epifania.
“E quem disse que esta noite precisa acabar?” Todos acharam graça quando Adilson disse essas palavras.
_ Vamos nessa, cachorrão! _ disse Ubiratan _ Temos que te entregar inteiro para dona Heleninha!
_ Não! _ protestou Adilson _ Se vocês quiserem ir, tudo bem, mas eu vou ficar!
_ Está louco, Adilson? _ Moacyr já meio preocupado _ Acha que isso aqui é de graça? Vai ficar aqui até quando?
_ Eu tenho muito dinheiro guardado! Economizei a vida toda para casar! Eu não fazia idéia do que estava perdendo! Os prazeres que a solteirice oferece! Avisem a Heleninha que sinto muito, mas não voltarei para casa! Meu lugar é aqui!
Apesar de nossos protestos, não fomos convincentes com nossos argumentos e achamos melhor irmos embora antes que Adilson nos convencesse a ficarmos também. Saímos da Caverna do Dragão deixando “Uni” para trás (se bem que hoje desconfio que era o próprio “Mestre dos Magos”).
Quatro anos se passaram e Helinha ainda não fala conosco. Clauderval casou-se, mas não quis saber de despedida de solteiro. Moacyr mudou-se para a roça. Anselmo entrou pra igreja. Humberto e Ubiratan se assumiram homossexuais e moram juntos. Eu comprei uma moto, escrevo blogs e continuo solteiro. Dizem que Adilson é o novo proprietário do famigerado meretrício, mas nunca voltei lá pra confirmar.
Às vezes lembro daquela noite com um certo arrependimento... Nunca deveríamos ter substituído tequila por conhaque de alcatrão.
_ Calma, já estamos chegando!
Adilson nunca foi um cara de farra. Caseiro, reservado, tímido... Dizem que foi a Heleninha quem tomou a iniciativa do namoro. Se conheceram nos tempos de escola e, depois de muito planejamento, finalmente estavam de casamento marcado. Claro que seus melhores amigos tinham que preparar uma despedida de solteiro memorável, então Moacyr, Anselmo, Ubiratan, Humberto, Clauderval e eu o levamos para um meretrício conhecido na área como “Caverna do Dragão”. Só pelo nome é possível imaginar o tipo de mulher que trabalha lá. Dessas que fazem “compreta” por 30 “real”. Ninguém da turma (que eu saiba) freqüentava tal estabelecimento, mas achamos o cenário muito apropriado para a despedida de solteiro de nosso amigo.
_ Agora sim, pode tirar a venda!
_ Vocês me trouxeram para um inferninho...
Havia um tom de espanto e encantamento na voz de Adilson. Não demoramos a nos acomodar e curtir o ambiente, ora beliscando as nádegas das “primas”, ora bebericando uma cerveja de quinta categoria.
_ Meninas! _ anunciou Clauderval _ Hoje é a despedida de solteiro de nosso amigo! Queremos tratamento VIP!!
A mulherada nos rodeou no ato, cobrindo-nos de toda atenção. Adilson sequer piscava. Convencemos a mais assanhadinha a fazer uma dança sensual para nosso amigo. Ela mostrou todo seu molejo ao som de Dicró. Sugeri a brincadeira da tequila, mas, na falta da mesma, usamos conhaque de alcatrão. Adilson tomava uma dose e depois lambia o sal que jogávamos em partes estratégicas do corpo de alguma menina e depois chupava o limão que sabe-se lá Deus de onde saiu.
Faltava pouco para amanhecer o dia quando Humberto sacudiu Adilson dizendo: “Aproveita bem, pois é só esta noite! Daqui a uma semana vai estar casado e não terá nunca mais uma noite como essa!”
Adilson deixou de lado a mulata “Tiamat” que o judiava com seus volumosos seios de enormes auréolas negras e mamilos salientes. Parecia um momento de iluminação. Uma epifania.
“E quem disse que esta noite precisa acabar?” Todos acharam graça quando Adilson disse essas palavras.
_ Vamos nessa, cachorrão! _ disse Ubiratan _ Temos que te entregar inteiro para dona Heleninha!
_ Não! _ protestou Adilson _ Se vocês quiserem ir, tudo bem, mas eu vou ficar!
_ Está louco, Adilson? _ Moacyr já meio preocupado _ Acha que isso aqui é de graça? Vai ficar aqui até quando?
_ Eu tenho muito dinheiro guardado! Economizei a vida toda para casar! Eu não fazia idéia do que estava perdendo! Os prazeres que a solteirice oferece! Avisem a Heleninha que sinto muito, mas não voltarei para casa! Meu lugar é aqui!
Apesar de nossos protestos, não fomos convincentes com nossos argumentos e achamos melhor irmos embora antes que Adilson nos convencesse a ficarmos também. Saímos da Caverna do Dragão deixando “Uni” para trás (se bem que hoje desconfio que era o próprio “Mestre dos Magos”).
Quatro anos se passaram e Helinha ainda não fala conosco. Clauderval casou-se, mas não quis saber de despedida de solteiro. Moacyr mudou-se para a roça. Anselmo entrou pra igreja. Humberto e Ubiratan se assumiram homossexuais e moram juntos. Eu comprei uma moto, escrevo blogs e continuo solteiro. Dizem que Adilson é o novo proprietário do famigerado meretrício, mas nunca voltei lá pra confirmar.
Às vezes lembro daquela noite com um certo arrependimento... Nunca deveríamos ter substituído tequila por conhaque de alcatrão.
Marcadores:
amigos,
casamento,
despedida de solteiro,
inferninho,
prostíbulo
Assinar:
Postagens (Atom)
