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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Medalha

Esta informação pode chocar muitas pessoas, mas lá vai: sexo não é aquilo que você aprendeu nos filmes pornográficos. A indústria de entretenimento adulto contrata pessoas dispostas a encenar uma alegoria. Tem como proposta o espetáculo explícito para conquistar seus expectadores. Lamento, mas não é real. É um produto que pode e deve ser consumido com a devida moderação, que nos desperta uma saudável curiosidade e que nos ajuda a apimentar nossas relações, mas não nos deixemos enganar. Sexo é importante, mas não é o termômetro de nossas vidas. A qualidade é sempre melhor que a quantidade. Ser insaciável na cama pode causar uma boa impressão no início, mas isso também passa. Ser bom de cama não garante a fidelidade do parceiro. Bom de cama, na verdade, é algo que sequer existe. Virilidade não substitui cumplicidade.
Tudo isso foi dito tão somente para contar a história de Lucileide. Vinte oito anos, casada, gerente financeira. Ela preparava o café da manhã, quando seu celular anuncia o recebimento de uma nova mensagem de texto: “Parabéns! Agora você é medalha de prata! Conheci uma mulher que consegue ser pior que você na cama! Beijos, Walberson.”
Lucileide lembrava bem de Walberson. Tentaram engatar um namoro há uns oito anos, mas terminaram quando ele precisou sair do Rio e foi morar em São Paulo, por conta do trabalho. Não conseguia imaginar porquê ele escreveria aquilo. Só poderia estar brincando. Ela sempre se gabou de sua performance entre quatro paredes. Fazia questão de lembrar sua descendência de sangue quente, neta de italianos e espanhóis.
Passou uma semana incomodada , muitas vezes furiosa, com a mensagem. Por fim, decidiu ligar para ele. Manteve a pose, não tocou no assunto. Walberson disse que estaria no Rio no próximo final de semana e a convidou para almoçar. Mesmo achando muita cara-de-pau, aceitou o convite. Seria a oportunidade perfeita para interrogá-lo.
Durante o almoço, Walberson puxou vários assuntos, mas não demorou muito para Lucileide interrompê-lo:
_ Por que me mandou aquela mensagem?
_ Ah, Lu... Me desculpe! Naquela noite eu tinha conhecido uma mulher linda, modelo, atriz e praticante de pole dance. Estávamos numa festa e mal pude acreditar quando ela me deu bola. Achei que era meu dia de sorte! Levei-a para minha casa e...
_ E?
_ E nada. A mulher era cheia de frescuras, não parava de falar, neurótica com a própria aparência, insegura, imatura... Não rolou química. Foi a pior transa da minha vida! Estava tão decepcionado e chateado que acabei escrevendo aquilo.
_ Quer dizer que agora eu sou “medalha de prata”?
_ Bom, não se ofenda, Lu, mas as coisas não fluíam bem entre nós. Éramos muito jovens, você era muito afobada, desastrada... Sendo muito sincero, foi um alívio quando a empresa me chamou para trabalhar na matriz. Sem ofensas, ok?
Uma das coisas que Lucileide sempre admirou nele era sua sinceridade, mas não precisava tanto. Pediu licença e foi ao banheiro. Quando retornou, estava transfigurada. Pediu a conta ao garçom e foi direto ao assunto:
_ Vamos embora. Não temos muito tempo. Tem um motel aqui perto, vamos no seu carro. Mas que fique bem claro que sou uma mulher casada e isto nunca mais se repetirá, fui clara?
Walberson foi pego de surpresa, mas acatou.
Pegaram uma suíte super master presidencial mega plus king size top cinco estrelas. Durante duas horas, Lucileide deu o seu melhor. Fizeram de tudo em todas as posições e inventaram algumas novas. Não era tesão, era questão de honra! Não se rendeu pelo cansaço. Mais que sexo, isto seria um ato heroico. Uma façanha digna de uma amazona. Seu nome ficará registrado na memória deste homem como a experiência erótica mais incrível de sua vida.
Walberson voltou a São Paulo naquela noite. No dia seguinte, Lucileide chega atrasada no trabalho, exausta, mas radiante. Não conseguia conter o sorriso quando lembrava da cara de embasbacado de seu amante quando se despediram. Claro que seu marido não merecia ser traído, mas o prazer de sentir-se vingada era maior que o arrependimento. Se sentia maravilhosamente atraente e segura, quando uma nova mensagem a tirou de seu transe:
“Parabéns. Recuperou sua medalha de ouro. Beijos, Walberson.”


quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Dia Que Botei a Polícia Pra Correr


Se você estiver prestes a comprar um carro novo com o dinheiro que vem economizando há anos, aconselho esperar um pouco mais, juntar mais uns trocados e comprar um blindado. Recomendo um tanque Challenger II. Pode pecar em conforto, além de ocupar muito espaço na garagem, mas é o veículo que melhor supre as necessidades do motorista moderno em uma cidade grande, onde o código de trânsito, a política de segurança e os valores sociais não são levados a sério.
Digo isso com o conhecimento de causa de quem sempre morou na mesma rua e dela tinha muito orgulho, até vê-la tomada por obstáculos de concreto e frequentada por jovens municiados de gírias chulas, mau gosto musical e um senso distorcido de patrimônio público.
Sempre há quem critique a ação da polícia, mas não me acho apto a julgar. Assim como os profissionais da área de Educação e da Saúde, os policiais são massacrados pelo poder do Estado, mau remunerados, desacreditados, além de arriscarem a vida em uma guerra onde seu efetivo está em constante desvantagem. Por conta de tudo isso, não me admira o caos social que vivemos e a dúvida em quem podemos confiar, pois os uniformes já não dão certeza do time que cada um está jogando.
Mas, voltando a falar de carro, pensem nas vantagens que um tanque pode oferecer. Você passaria por cima de qualquer barreira, um único disparo faria o trabalho de um milhão de buzinas, sem falar na mulherada que cairia matando quando você chegasse na balada desfilando com seu possante bélico. Mas, não esqueça, se for dirigir, não beba!
Se eu fosse proprietário de um tanque, evitaria algumas dores de cabeça, como na vez que minha esposa e eu estávamos próximos de casa, esperando o semáforo ficar verde, quando um outro carro bateu em minha traseira avariando o porta-malas. Fui checar os danos e qual não foi minha surpresa ao ver que o condutor distraído era um policial militar fardado. Ele disse que iria manobrar o carro para não atrapalhar o trânsito e conversarmos sobre os danos que ele causou, mas acelerou e fugiu.
Atordoado por ver um homem adulto, um representante da Lei, uma autoridade fugindo de sua responsabilidade, fiquei sem ação. Só despertei do choque quando minha mulher me sacudiu dizendo: “Tá todo mundo olhando! Faz alguma coisa!”.
E fiz. Gritei: “E não volte mais aqui, ouviu? Polícia na minha área não tem vez! Se te pego andando por aqui novamente não vai ficar bonito pra você!”
Desconsiderando os olhares ao redor, entramos no carro e fomos embora.
Estranhamente, após este evento, meus vizinhos passaram a me cumprimentar com frequência. Os jovens baderneiros deixaram de se reunir em minha calçada e até o lanterneiro que consertou meu carro se recusou a receber pelo serviço. “É por conta da casa, chefe”, disse ele. Achei tamanha generosidade desnecessária, mas aceitei de bom grado. Afinal, é um dinheiro que economizo. Quanto será que custa um tanque?   

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O Quarto de Hóspedes


Era a primeira vez que Jandira visitava Gerlane desde o casamento. Sempre foram muito próximas, mas os compromissos profissionais adiaram este reencontro por meses. Finalmente de férias, pôde conhecer a nova casa e a nova vida de sua irmã.
Inquilina de um apartamento de trinta metros quadrados, Jandira encantou-se com a bela e espaçosa casa, com jardim e churrasqueira, bem mobiliada e decorada com apreço. O esposo de Gerlane se chama Joílson. Ele não é o que podemos chamar de um homem fisicamente atraente, mas o que lhe falta em beleza sobra em carisma. Baixinho, calvo, pançudo e orgulhoso proprietário de um bigode antiquado. Ninguém compreende o que Gerlane viu nele, até conhecê-lo melhor.
A conversa rolava regada a aperitivos e cerveja gelada. Riam alto com os comentários divertidos de Joílson e das lembranças de quando eram crianças, como a vez em que Gerlane botou fogo no cabelo da boneca de Jandira, vingando-se do egoísmo da irmã que negou-se a dividir um brigadeiro com ela. Curiosamente, tal evento as uniu ainda mais e sempre fizeram questão de compartilhar tudo.
Já na hora de dormir, Jandira foi conduzida até o quarto de hóspedes, no segundo andar, bem ao lado do quarto do casal.
_ Às vezes Joílson tem insônia – advertiu, Gerlane – e perambula pela casa. Não se assuste se ouvir algum barulho no meio da noite.
_ Verdade – concordando, sempre brincalhão – , perco o sono e desço até a cozinho, onde me distraio com um copo de leite quente enquanto leio o jornal. Não estranhe se, na volta, eu me confundir e entrar no seu quarto e te agarrar por engano, ok?
Todos riram e se despediram desejando boa noite.
Jandira já estava preguiçosamente acomodada, quando decide mandar uma mensagem para Otaviano, através de um dos tantos aplicativos com conexão à internet de seu smartphone, combinando um cineminha para o próximo final de semana, tomando o devido cuidado de escolher bem as palavras, mantendo uma certa formalidade para ficar claro o descomprometimento desta relação. Ambos prezam pela liberdade e a ideia de um namoro sério não faz parte de seus planos no momento.
Quando o sono parecia chegar, Jandira se assusta com um ruído de porta se abrindo. No instante seguinte, a luz do corredor se acende, adentrando pela fresta entre o chão e a porta do quarto. “Deve ser Joílson, insone”, tranquilizou-se.
De repente, um par de sombras denuncia que há alguém parado diante da porta e ali permanecem por longos segundos, até se moverem em direção à escada. Som de passos se distanciando e, subitamente, a luz é apagada.
Olhou para o relógio: Duas e quinze. Gerlane sempre teve o sono pesado, nem deve notar quando o marido sai da cama. Mas o que interrompeu o itinerário de Joílson que o fez parar diante da porta? Foi aí que Jandira lembrou da brincadeira do cunhado, sobre entrar no quarto de hóspedes por engano. Seria mesmo brincadeira? E se de fato ele entrar? E se for de propósito? Não seria de admirar que ele se sentisse atraído por ela. Gerlane e a irmã são igualmente bonitas, mas Jandira sempre se valeu de ser mais alta e quatro anos mais jovem. Costuma chamar a atenção dos rapazes do trabalho, da faculdade e da academia.
Só pode ser isso. Canalha! Lembrou de como ele a abraçou e beijou no dia do casamento. Poderia ser só empolgação, mas algo parecia suspeito naquela exagerada demonstração de carinho. E ela ainda foi madrinha deles, que safado!
Norteada por um misto de decepção, asco e raiva, Jandira sabia exatamente o que fazer caso ele entrasse naquele quarto: iria golpeá-lo com toda força bem nas “bolas”! Ele gritaria de dor, acordaria Gerlane e iriam se divorciar. Isso que ele merece por pensar em traí-la!
Por outro lado, e se ele a desejar muito e for violento? Não o conhecia na intimidade, não saberia do que ele é capaz para ter o que quer. Jandira fica assustada. Pode sentir seu coração sacudindo o delicado tecido de sua camisola. Se sente acuada e desejaria que Otaviano estivesse ali com ela pra protegê-la com seus braços fortes. Sente um bolo seco na garganta impossível de engolir.
O que Joílson estaria planejando? O que está esperando para pôr em prática seu ataque? Pensou em acordar a irmã, mas ela não acreditaria sem um flagrante. Poderia fugir pela janela, mas é gradeada.
São duas e vinte e oito agora. Só se passaram infinitos treze minutos de agonia. Seria paranoia? Não pode ser. Joílson a cobriu de atenção o dia todo. Este homem a deseja, não há dúvidas. Como lidar com isso? Deveria fingir que está dormindo? Colocaria algo para bloquear a entrada, mas o único móvel pesado suficiente para isso seria a própria cama, pesada demais para ela sozinha mover.
“Ele vai entrar aqui e fazer o que quiser de mim!”, refletia em pânico. Que assim seja, então. Mas não será sem luta. Resistirá como puder e, quando não lhe restar mais forças, seu algoz lhe invadirá agressivamente, mas ela permanecerá em silêncio. Não demonstrará nem um traço de fraqueza ou dor. Não dará este prazer a ele. Assim que amanhecer, fará as malas e irá embora sem se despedir. Nunca mais voltará e jamais tocará neste assunto com ninguém. Este será um segredo que ela levará para o túmulo e sua irmã poderá seguir sua vida casada e feliz, sem conhecer a natureza monstruosa de seu companheiro.
Agora são três e doze da manhã. Nada ainda. Este suspense a tortura. Não suportando mais, decide encarar seu destino. Com as pernas trêmulas, caminha até a porta. O corredor está escuro. Tateando o corrimão, Jandira desce degrau por degrau na ponta dos pés. Percebe a luz da cozinha acesa. Ela ajeita a alça da camisola que pendia sobre o ombro. Respira fundo e encontra Joílson confortavelmente sentado à mesa, lendo jornal, com o bigode sujo de leite.
Jandira, paralisada, o observa em silêncio, até que ele nota sua presença.
_ Ô, cunhada! Desculpe se a acordei! Perdi o sono e...
Em um movimento brusco, Jandira desarma Joílson de seu jornal e o toma pela mão.
_ Jandira, o que...
_ Nem um pio!! – ameaça Jandira surrando, mas com firmeza – Cacete! Será que não sabe mais onde fica o quarto de hóspedes?!
_ Do que você está falando?? Vai acordar sua irmã!
_ Que se dane! Ela queimou o cabelo da minha boneca, lembra? Anda!       

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Memórias Ortográficas do Cárcere

Pergunte a qualquer mestre de obras e ele confirmará que construir é sempre mais fácil que reformar. Às vezes penso que melhor seria destruir tudo para recomeçar do zero, já que o problema se deu lá no início, por conta de regras arcaicas, cheias de vícios e influências etimológicas das mais diversas. Na verdade pouco importa de quem é a culpa. No final, sempre somos os sacrificados.
Me chamo acento grave e meu nome faz jus ao meu estado de insegurança ortográfica. Alguns insistem erroneamente em me chamar de crase, mas não me ofendo, pois sempre estive por cima e o que vem de baixo não me atinge. Ao primeiro rumor de reforma, apareço como forte candidato à eliminação. Não à toa, pois sempre fui um incômodo para muitos. Quando menos esperam, apareço atrelado àquelas palavras que poucos considerariam suspeitas. Sou polêmico e visto como agitador, fui tachado de subversivo e perseguido. Tentei mobilizar meus companheiros para juntos formarmos uma resistência, mas havia muitos conflitos internos. O acento agudo e eu somos bem parecidos, mas temos inclinações diferentes. Eu sou de esquerda e ele de direita. Agudo gostava de fazer discursos políticos revolucionários motivadores, mas na hora de dar uma ideia ou de tomar uma atitude heroica, foi o primeiro a cair fora.
Meus perseguidores são conhecidos como gramáticos, mas eu prefiro chamá-los de neolinguistas. Hoje, tanto eu quanto os outros acentos gráficos somos monitorados neste campo de concentração. Auschwitz? Muito pior: Alfabetz.
Três estrangeiros especialistas em tortura foram recrutados e agora transitam entre nós sem cerimônias. Suponho que o chefe seja o K, pois costuma desfilar com uma capa. Também tem o W que gosta de rechear seus interrogatórios com muito what, who, when e where. O Y parece meio confuso, não deixa claro seu lugar como vogal ou consoante. Dizem que ele já estava ambientado ao Brasil e é presença garantida em passeatas gays, mas isso já é outra história.
Tanto K quanto Y fazem pose de durões, mas no fundo são dois vaselinas. Já livraram a cara do til, por cooperação, e o circunflexo que se entregou com toda parcimônia, apesar de ter perdido o voo. Quem pega pesado é o W com suas táticas de terror psicológico: “Well, well, well... Você deve se achar muito importante para o mundo, não é mesmo?” Respondo com convicção: “Talvez não para o mundo, mas à língua portuguesa, certamente!”
Aprendi que é preciso ser firme para sobreviver. Já me basta a mutilação que sofri nas últimas reformas, mas são lembranças que me trazem dor somente, por isso não vou entrar em detalhes. O que importa é que ainda estou vivo, mas não posso dizer que outros tiveram a mesma sorte. O trema se foi. Não sei se foi assassinato ou suicídio. Ele sempre foi um covarde. Com frequência se escondia e poucos davam falta. Tremia diante da possibilidade de ser esquecido, não aguentou a pressão e sofreu com as consequências.
O hífen sempre foi um vilão poderoso demais para ser eliminado. O máximo que conseguiram foi um acordo onde ele foi remanejado e novas regras limitaram suas aparições, sem diminuir seu poder de atuação. Ele deixou de ser o mandachuva, mas ainda é o arqui-inimigo.
Desta vez, eles não têm nada contra mim. Sairei desta mais forte e, em breve, todos saberão que sou mais que um mero grafismo. Todos reconhecerão que sou um fenômeno!
Resistir é preciso, mas sem perder a ternura jamais. Por isso, ofereço um brinde à liberdade com este copo d'água que, apesar de fresca, mantém o gosto rebuscado de apóstrofo.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Nunca


Não é de hoje que cogito a possibilidade de ser pai. Protelei muito esperando chegar o momento certo, mas o momento certo nunca chega quando decidimos pensar bem no assunto. Nunca nos achamos suficientemente preparados. Sempre há objetivos a serem alcançados para oferecer um conformo maior ao futuro herdeiro. Claro que nem tudo corre da maneira que planejamos. Certa feita, uma ex-namorada disse estar grávida de um filho meu e exigiu que eu desse o dinheiro para o aborto. Em desacordo com tal atitude, conversei com os pais dela (sem mencionar o interesse da filha em interromper a gestação) e garanti ser capaz de assumir essa responsabilidade. Estranhamente, ela alegou ter passado mal e, com isso, ter perdido a criança que hoje tenho sérias dúvidas se de fato existiu. Anos mais tarde, passei por um episódio no mínimo cômico quando, contrariando todos os métodos contraceptivos, uma namorada suspeitou estar grávida, baseada nos sintomas que ela vinha sentindo. Precisei relembrar a ela de sua condição infértil, levando em conta o período de nossa relação, sem contar com a precaução do uso de preservativos. A reação dela diante de uma gravidez indesejada, que só era possível em sua ansiosa mente, valeu como um aborto de minhas expectativas.
Em ambos os casos, a atitude das supostas mamães comprometeu muito a credibilidade em minhas companheiras, mas em nenhum momento a ideia de eu ser pai deixou de ser bem-vinda.
Longe de conflitos genitores, minha noiva e eu não costumamos tocar no assunto, pois priorizamos algumas metas pessoais antes de pensarmos com mais seriedade no assunto,mas sempre nos sensibilizamos quando vemos um casal desfilando com um bebê de colo.
Uma vez, acompanhei minha noiva em uma reunião de amigos. Todos comprometidos e com filhos. Apesar de bem recebido, optei sentar-me no sofá e me distrair com a TV enquanto todos conversavam, mesmo porque muitos dos assuntos tinham a ver com histórias que eu não fazia parte.
Justo quando eu estava entretido com o DVD do O Rappa, fui surpreendido por Maria Fernanda, filha do casal anfitrião. Muito comunicativa, ela me abordou com um repertório de brincadeiras difícil de resistir e acabei embarcando naquela onda. De repente, ela confessou ser uma vampira e, com o devido cuidado para não me ferir de verdade, mordeu meu braço. Me contorci simulando a dor de ser subjugado por tal criatura das trevas. Foi aí que resolvi dominar a situação e fiz uso de uma conhecida lenda sobre os vampiros:
_ Peraí! Se você é vampira e você me mordeu, então agora eu também sou um vampiro!
Me transfigurei e parti para o contra-ataque. Claro que não seria tão fácil. Ela tinha algumas cartas na manga. Quando finalmente a agarrei, pronto para cravar minhas presas, minha pequena vítima revida:
_ Nuuuuuuuncaaaaaaaaa!!!
Ela bradou apontando as palmas abertas das mãos em minha direção, reproduzindo o som daquilo que seriam raios poderosos.
Fiquei chocado. Eu não estava preparado para aquilo. Atordoado, ainda tentei escapar daquele golpe com o mínimo de dignidade:
_ Você dispara raio das mãos?! Vampiros não fazem isso!
_ É que eu sou uma vampira mutante!!
Aquilo foi demais para mim. Fui derrotado, humilhado, destruído. Por sorte, minha noiva recolheu o que sobrou de mim para me enturmar com seus amigos. Estaria eu realmente a salvo? O que mais esta vampira deixou em mim com sua mordida?
Quando nos despedimos, Maria Fernanda me presenteou com um forte abraço. No carro, fiquei pensando se eu realmente estaria preparado para ser pai. Como competir com tamanho poder imaginativo? Ainda abalado pelo impacto causado pelos raios, percebo que seria melhor descartar essa ideia de filhos. Não tinha me dado conta de como a paternidade pode ser algo tão assustador.
Foi quando paramos no semáforo vermelho que minha noiva tocou no assunto:
_ Reparei você brincando com a Maria Fernanda. Você leva muito jeito com crianças. Talvez seja a hora de começarmos a pensar em ter filhos, que acha?
Instintivamente, respondo em alto e bom som:
_ Nuuuuuuuncaaaaaaaaa!!!
Minha noiva encarou-me com seriedade e quis entender.
_ Nunca?!
Percebendo o quão insensível fui, tentei corrigir-me:
_ Nunca me senti tão preparado para isso, amor!
_ Tá, e por que suas mãos estão com as palmas abertas apontadas em minha direção?
_ É... Uhuuu!! Vamos ter um filho! Bate aqui!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Única


Não gosto de mulher. Pronto, disse! Precisava pôr isso pra fora, já estava me fazendo mal.
Não estou dizendo com isso que gosto de homens ou que sou celibatário. Entendam que não tem nada a ver com orientação sexual, mesmo porquê orientar quer dizer levar ou ser levado a uma determinada direção. Sexo não nos guia em direção nenhuma. Sexo quer chegar, seja lá onde for. Sexo não conduz, é conduzido. Sexo não escolhe caminho, sexo se deixa atrair. Sexo se move a partir de um magnetismo que pode ser despertado tanto pelos atrativos mais óbvios como os mais incomuns. Afirmar uma direção exata como “eu gosto de mulher” é ser muito genérico. Quem assume sua preferência levando em conta tão somente o sexo como requisito está disposto a se relacionar com qualquer mulher, ainda que se comporte ou tenha a aparência de um homem, desde que a certidão de nascimento conste como feminino.
Ah, não é isso? Ser mulher tem a ver com aparência e comportamento? Então quem gosta de mulher também está disposto a se relacionar afetivamente com transgêneros, haja vista muitos transexuais serem dotados de uma feminilidade refinada e tão acentuada que deixam muita mulher no chinelo. Tudo bem que estes “dotes” podem causar um desconforto anatômico (principalmente se esse dote for maior que o nosso). Há intervenções cirúrgicas que eliminam essa questão, mas isso é suficiente para declarar-se mulher e nos deixar menos encucados?
Algumas pessoas agregam características às suas preferências: “Eu gosto é de mulher com peitão!”, ou “Mulher pra mim tem que ter bundão!”. Gorda, baixa, magra, alta, preta, amarela... Claro que há atributos que são levados em conta na hora de provocar nosso desejo, mas isto tudo nos limita. Por andar muito de bicicleta, sempre chamei a atenção por conta de minhas pernas, mas eu me sentiria péssimo se uma mulher me desejasse tão somente por esta razão. Eu até poderia fazer disso minha arma de sedução, mas sempre haverá algum maratonista ou jogador de futebol que representariam uma ameaça: “Desculpe, mas temos que terminar. Encontrei um cara que tem coxas mais torneadas que você.”
Às vezes, deixamos passar uma pessoa incrível em nossas vidas só porque ela não tem o formato da orelha que sempre sonhamos. Algumas vezes, cobramos de nós mesmos essas superficialidades. Achamos que nunca encontraremos alguém que nos ame enquanto não perdermos quinze quilos, comprarmos um carro do ano ou aprendermos a coreografia da música da moda. Se alguém se declara apaixonado por nós, chegamos a desacreditá-lo e a repudiá-lo, afinal, como alguém poderia gostar de alguém tão cheio de defeitos?
Antes de responder do que gostamos no outro, é preciso descobrir o que gostamos em nós. O que pretendemos manter conosco. A partir daí, nos policiaremos para que a pessoa que entre em nossa vida venha para acrescentar e promover a manutenção daquilo que nos faz bem, inclusive propondo as devidas transformações quando convenientes.
O que me conquista em alguém é a identificação e o que me instiga são os contrastes.
Definitivamente, não gosto de mulher. Mulher tem um monte por aí de tudo quanto é tipo. Eu gosto é da minha mulher e, esta sim, é única, pois, antes de ser minha, ela sabe ser dela mesma.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Passado Presente



O passado passa, mas para isso ele precisa deixar de ser presente. Para isso, o que aconteceu precisa encontrar um lugar confortável em nossa memória, caso contrário, os eventos se remoem, se espalham, bagunçam tudo como quem exige melhores acomodações. É como criar um tigre em uma pequena jaula de gravetos. A agitação da fera dentro de um espaço impróprio e de grades tão delicadas sempre será uma ameaça de fuga e ataque. Melhor seria devolver o grande felino a seu habitat natural. Se for mantê-lo preso, que haja a estrutura necessária. Que haja espaço suficiente, segurança suficiente e, principalmente, que esteja suficientemente disposto a mantê-lo satisfeito onde está, inclusive alimentando-o de maneira correta, ou achou ser possível manter uma lembrança sem visitá-la e alimentá-la esporadicamente?
Algumas pessoas insistem em promover a celebração do esquecimento. Aquele momento em que decidimos esquecer o que passou e eliminamos todas as evidências daquele evento e criamos regras de como superar tal evento. Na verdade, todo esforço empreendido nada mais é que uma maneira de eternizar o drama. Equivale a quebrar todos os espelhos da casa de um cego. É tão ineficaz quanto ritualizar o desuso, o descarte e a devolução de objetos icônicos, como queimar os mimos de um ex-namorado acreditando que o fogo levará junto todas as lembranças daquele romance frustrado. Tudo isso é combustível, força motora para tudo que fizer dali para frente.
Algumas pessoas promovem a negação como fuga. Repetem insistentemente que certos eventos nunca aconteceram e, muitas vezes, até se convencem disso. Nestes casos, costumam se vitimizar por não compreenderem a razão de um sentimento de desconforto e culpa que os atormentam. Assim como o aluno que não se esforçou no ano letivo, quem não aprende com o passado estará sujeito a repeti-lo.
Recentemente, fui abordado pelo pai de uma mulher com quem me relacionei. O fim de nossa relação foi bastante problemática e o pai, obviamente, ficou do lado da filha, acreditando em tudo que ela dizia, por mais absurdas que fossem suas alegações. Em várias ocasiões, ele foi rude comigo. Me distratou e até me desafiou, mas ele não fez nada disso por ser má pessoa, mas sim por um instinto paternal.
Quando me reconheceu, ele puxou assunto e nos abraçamos. Ele disse o quanto lamentava por tudo que aconteceu e pelo modo como me tratou. Aproveitou para desabafar algumas de suas angústias e desgostos por parte de sua família, inclusive sua filha. Ele esperou catorze anos pela oportunidade de me encontrar e falar todas essas coisas.
Nossa conversa foi breve e nos despedimos, não sem antes um último abraço e a garantia de que não havia qualquer rancor entre nós.
Retomar este assunto me fez perceber com outros olhos a visita de velhos fantasmas que já não são capazes de assombrar, mas fazem questão de arrastar correntes que só fazem ruídos em seus próprios ouvidos. Algumas lembranças são bem-vindas pelo prazer que sua recordação provoca. Outras, nem tão prazerosas, cooperam na busca de momentos positivamente memoráveis.
Não se apaga ou rasura o que fica na lembrança, mas que cada momento encontre seu lugar de conforto no passado. Aquilo que nos queixamos, muitas vezes, é justamente o que nos completa, pois ninguém é feito exclusivamente daquilo que o agrada.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O Lado do Coração

A paciência de Luzia já havia alcançado seu limite. Todos sabiam que ela não tinha vocação para exercer o magistério, muito menos lecionando para crianças do primário de uma escola pública próxima a uma comunidade carente. Todos os dias na hora do recreio ela se refugiava no estacionamento para fumar, vício que sempre detestou e jurava parar um dia. Em um desses intervalos, encontrou com a diretora Joana, que também acostumou a encarar o cigarro como um bote salva-vidas nessas horas. Muitas coisas incomodavam Luzia, mas uma em especial a fazia perder a cabeça.
_ É o danado do Lucas! Aquele peste vive me atazanando! Sempre interrompe a aula para explicar que o lado esquerdo é o lado que bate o coração. Fica apontando para os coleguinhas dizendo que fulano está sentado do lado direito da cicrana e que beltrano está do lado esquerdo de fulana. Parece até que a única coisa que ele aprendeu até hoje é a diferença de direito e esquerdo! Criança insuportável!
_ E que fez com ele? – Joana quis saber.
_ Eu o coloco de castigo e mando fazer silêncio, mas não adianta. No dia seguinte é a mesma coisa!
A diretora deu uma tragada profunda, soltou a fumaça de seus pulmões com satisfação e disse:
_ Pelo visto você não conhece a história de Lucas. Não faz idéia do porquê dele saber tão bem a diferença entre esquerdo e direito?
_ História?! Pra mim ele só quer chamar a atenção!
_ Lucas aprendeu com a mãe o que é direita e esquerda. Ela havia economizado para dar de presente ao filho um par de chuteiras. Para o menino não confundir os pés na hora de calçar, ela colocou um cadarço de cada cor. A chuteira de cadarço branco deveria ser colocada sempre no pé direito e a de cadarço azul sempre no pé esquerdo. Lucas perguntou a mãe como ele não esqueceria qual lado é o esquerdo e qual é o direito. Sua mãe colocou a mão dele sobre o peito e mostrou o lado que bate o coração. Ela disse que aquele é o lado esquerdo. O lado azul. Quando tivesse dúvidas era só colocar a mão no peito e sentir onde está guardado o coração.
_ Linda história, mas isso não justifica tumultuar minha aula.
_ Ai, Luzia... – jogando o cigarro no chão e pisando-o – Quando você vai perceber que nem tudo que acontece ao seu redor tem a ver diretamente com você? Lucas quer apenas mostrar que aprendeu bem a última lição que a mãe o ensinou.
_ Última lição?!
O alarme dispara alertando o fim do intervalo. Joana segue em direção ao pátio dizendo:
_ Sim. Última lição. A mãe de Lucas foi vítima de uma bala perdida. O tiro a acertou bem aqui – apontou para seu próprio peito na altura do coração – Bem aqui no lado azul. Acho que é bem difícil para uma criança esquecer, não acha?
_ Meu Deus... Eu... Eu não fazia ideia!
_ É estranho como nos identificamos com a tragédia, né? Parece que só compreendemos o outro quando conhecemos seus dramas. Acredite, Luzia, seus problemas não são maiores que os de muitas crianças desta escola. Já imaginou como seria difícil praticar nosso ofício se para cada criança que nos preocupássemos a ajudar tivéssemos que ouvir uma história triste?
_ Eu só queria que ele não atrapalhasse minhas aulas.
_ Como espera que ele seja cooperativo se para a única coisa na vida que ele tem certeza ele sempre acaba sendo punido?

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pacto Demoníaco

“Tudo que disser poderá ser usado contra você.” Todos já ouvimos esta frase em filmes policiais. Dependendo de como anda seu casamento, esta frase pode sofrer algumas alterações: “Tudo que disser, fizer, pensar ou o oposto de qualquer uma dessas ações poderá ser e indiscutivelmente será usado contra você no tribunal ou em qualquer lugar ou circunstância.”
Acompanhem meu exemplo:
Estávamos minha mulher e eu no carro com minha sogra ao volante. Estávamos indo para casa de uns parentes dela. Chegando no portão da casa, minha sogra foi rendida por dois assaltantes armados exigindo a chave do carro. Por instinto, coloquei-me entre os criminosos e minha sogra. Ela e minha esposa fugiram aos gritos para dentro da casa quando abriram o portão. Um dos bandidos colocou o cano da arma em minha barriga e perguntou se o carro era meu. Disse que sim e ele pediu a chave. Como estávamos em uma vila de casas, processei os dados e soltei a seguinte afirmação: “Esta é uma Vila de policiais militares! Eles vão atirar primeiro e perguntar depois se ouvirem os gritos!” No mesmo instante, esconderam as armas, agradeceram e partiram procurando não chamar atenção. Não morava nenhum policial naquela vila. Minha sogra ainda tem o carro. Minha mulher ficou feliz por não ter que voltar para casa a pé.
Meu sogro tinha duas convicções na vida:
1-     Ele possui o segredo para manter uma família unida e feliz;
2-     Eu não era bom o suficiente para sua filha.
Não foi difícil para ele concluir que havia algo oculto em meu reflexo criativo para evitar o assalto. Armado com sua versão acusativa dos fatos, pôs-se a praguejar:
_ Eu sempre desconfiei que esse rapaz não era flor que se cheire! O que ele fez comprova minha teoria! Ele anda metido com coisa errada! Ele fez dois bandidos armados irem embora sem levarem nada! Estou convencido que ele tem algum trato com o diabo!
Quando descobri o que meu sogro andava espalhando, resolvi confessar-me com ele:
_ O senhor está certo. Eu fiz um pacto com o demônio.
_ Eu sabia! Eu sempre disse a minha filha que você não prestava!
_ Mas calma. Reconheço meu erro e pretendo corrigir tudo. Foi um momento de desespero. Senti-me pressionado por uma série de eventos que atormentavam minha vida e o demônio se fez presente com a proposta de mudar tudo se eu assinasse um contrato com ele. Quando dei por mim já estava dominado por satanás e seus diabólicos asseclas.
_ E como pretende consertar essa grande besteira que fez?
_ Vou enfrentar o demônio. Vou encará-lo e darei fim a este maldito pacto.
_ E o que está esperando? Faça a coisa certa ao menos uma vez e faça logo!
Não havia mais porquê perder tempo. Respirei fundo, caminhei até o quarto, fechei os olhos, concentrei-me e, quando reabri os olhos, vi o demônio. Olhei em seus olhos e disse em um só fôlego:
_ Mulher, quero o divórcio! Aproveita que seu pai está aí e pega uma carona para o inferno de onde nunca deveriam ter saído!
Claro que isso também foi usado contra mim, mas o pacto, enfim, foi desfeito.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Coisas que Não Esquecemos Nunca

Flávia tinha apenas treze anos quando chorou pela primeira vez por alguém. Ainda de uniforme, refugiou-se atrás do ginásio de sua escola onde sua frustração poderia transbordar em forma de lágrimas. Apesar dos olhos marejados, reconheceu Júlio, colega de classe, se aproximando com sua bicicleta.


_Está tudo bem? Por que está chorando?

_ Ah... É o Paulo.

_ Que tem o Paulo?

_ Sabe o que é? É que ele... Ele é um idiota!

Idiota não correspondia ao que de fato Flávia pensava sobre Paulo, mas pareceu-lhe mais apropriado. Confessar que o motivo de seu choro tem a ver com admiração e atração não correspondidas faria ela sim parecer idiota. Paulo é dois anos mais velho, bonito, esportista, divertido... O sonho de todas as meninas e Flávia não era exceção. Descobrir que Paulo mudaria de escola na semana que vem foi um golpe muito forte em suas fantasias.

_ Se ele é um idiota, então esquece ele! Já viu minha bicicleta nova?

_ E daí? É uma bicicleta como qualquer outra, oras.

_ Isso é o que você pensa. Eu a regulei toda! Troquei pneus, lubrifiquei a corrente, acertei a marcha... Quer dar uma volta?

_Não sei andar de bicicleta (olhando para o chão e limpando o nariz).

_ Eu te ensino!

Flávia topou o desafio e Júlio esteve o tempo todo do seu lado. Quando ela perdia o equilíbrio, ele a segurava. Quando ela ganhou confiança, ele a acompanhou correndo a pé. Aprender a pedalar nunca foi uma prioridade na vida de Flávia, mas sempre teve curiosidade. Hoje, comemora esta grande conquista.

Agradecida pela paciência e dedicação de seu colega, Flávia se despede.

_ Se quiser andar de novo é só falar comigo!

O ano letivo terminou. Flávia mudou de escola. Ela nunca procurou Júlio.



...



Dez anos se passaram. Flávia nunca foi fã de exercícios, mas a preocupação com a aparência a fez vencer a preguiça e, aproveitando o verão e o fato de hoje morar perto da orla, calçou seus tênis e pôs-se a caminhar em passos acelerados apreciando as ondas que esmurravam as rochas. Com poucos minutos, já sem fôlego, começou a considerar seriamente algum tipo de tratamento estético ou mesmo cirúrgico que a mantivesse atraente e lhe poupasse de tanto esforço. Quando o ar parecia queimar em seu peito ela decide parar justamente em frente a um outdoor onde havia uma publicidade de roupa íntima masculina. No mesmo instante ela reconheceu o modelo.

_ O cara sempre foi boa pinta – disse uma voz atrás dela – mas quem diria que Paulo se tornaria modelo?

Flávia espantou-se com o sujeito que a abordara montado em uma bicicleta.

_ Perdão, eu o conheço?

_ Sou eu, o Júlio! Fomos colegas de escola.

_ Nossa! É verdade! Quanto tempo! Você está ótimo!

_ Você está linda.

_ Obrigada.

_ Para um idiota, até que nosso amigo ali em cima não fica mal de cueca, não acha?

_ Paulo?! Ah... Ele é bonito sim, mas não é tudo isso. Nunca fez meu tipo.

_ Sei... Deixa eu te pagar uma água de coco?

_ Na verdade estou tentando correr um pouco. Ando muito ociosa e molenga.

_ Bom, então que tal dar uma volta na minha bicicleta enquanto eu bebo água de coco?

_ Acho que não sei mais pedalar. A primeira e última vez foi quando você me ensinou.

_ Esse é o tipo de coisa que não esquecemos nunca. Sobe aí.

Flávia sentiu um pouco de dificuldade, mas logo pegou o jeito. Acelerou pela ciclovia sentindo o vento e o cheiro do mar salgado. “Tente sem as mãos!”, gritou Júlio quando ela retornava. Tomando uma reta, resolveu arriscar. Soltou uma mão, depois a outra. Abriu os braços e sentiu-se um pássaro alçando seu primeiro voo.

Feliz por sua proeza bem executada, ela devolve a bicicleta agradecida. Júlio deixa um cartão com Flávia.

_ Este é meu telefone. Quando estiver com tempo para um papo, me liga.

O verão terminou. Flávia mudou de apartamento. Ela nunca procurou Júlio.



...



Uma década mais tarde, o tempo tornou-se artigo de luxo para Flávia. Sempre atarefada com seus compromissos profissionais, vive no limite de prazos a vencer e de clientes exigentes e apressados. Essa é sua rotina como sócia em uma agência de publicidade. Foi em meio à turbulência que ela se trancou em sua sala e pôs-se a checar a lista de possíveis candidatos a modelo para uma campanha de um perfume recém lançado no mercado. Seu coração quase saltou do peito quando se deparou com o currículo de Paulo. Não se tratava da melhor opção, mas, como pretexto para retomar o contato, ligou para ele e marcou uma entrevista. Combinaram um almoço. Flávia enrubesceu por Paulo lembrar-se dela. O clima foi ficando mais informal e Flávia confidenciou seus sentimentos por ele desde quando o conheceu. Com toda desenvoltura de quem conhece e articula bem seu poder de sedução, Paulo a convenceu de continuarem o papo em um local mais discreto. Foram parar em um quarto de motel onde transaram sem adendos ou notas de rodapé. Eram movimentos ensaiados como quem escova os dentes ou troca o canal da TV. Não que Paulo não soubesse o que fazer, mas Flávia estava com sua mente distante. Foram tantos anos de fantasia com este homem que qualquer desempenho extraordinário por parte dele ficaria aquém de suas expectativas. Enquanto ele investia com vigor entre as pernas de Flávia, ela fechou os olhos, abriu os braços e, por um breve momento, pôde sorrir.

Pediram a conta e, antes de se despedir, Paulo quis saber se ele estava aprovado para o trabalho, como se o que acabaram de fazer fosse a entrevista.

A campanha terminou. Flávia mudou de emprego. Ela nunca mais procurou Paulo.



...



Flávia levou mais dez anos para perceber finalmente que Paulo era o homem perfeito enquanto impossibilidade. Uma vez possível, Paulo valia tanto quanto qualquer outra experiência passageira e sem propósito. Não há razão para arrependimentos, queixas ou mágoas. O papel de menina chorona já não lhe cai bem. Refletia sobre seus quarenta e três anos de idade enquanto sorvia o café expresso na praça de alimentação do shopping que passou a frequentar desde que assumiu a chefia do departamento de marketing de uma multinacional com filial naquele bairro. Foi quando ela reconheceu Júlio na fila do cinema. Flávia notou o belo homem que ele havia se tornado. Lembrou de como ele se preocupou quando a viu chorando, de como ele foi zeloso correndo do seu lado caso ela caísse da bicicleta. Lembrou de como acreditou nela sugerindo que soltasse as mãos. Lembrou de como ele a fez sentir-se mais confiante e, apesar de não ser mais tão jovem nem praticar exercícios, aprendeu que não há nada mais atrativo em alguém que a confiança.

_ Oi, Júlio!

_ Flávia?! Nossa, quanto tempo! Você continua linda!

_ Você também não está nada mal! Desculpe não ter te ligado.

_ Deveria. Esperei que me ligasse.

_ Bom, será que posso me desculpar te pagando uma água de coco?

_ Acho que seria maravilhoso. Sempre sonhei com este dia, mas acho que você demorou um pouco a me fazer este convite.

Antes que Flávia pudesse insistir, uma menina se aproxima agarrando o braço de Júlio.

_ Pai, a sessão já vai começar!

_ Brenda, esta é Flávia, somos amigos desde os tempos de escola. Ajude sua mãe com a pipoca e o refrigerante que já estou comprando os ingressos.

_ Ta bom. Prazer, Flávia.

_ O prazer é meu, Brenda.

Brenda se afasta. Flávia se refaz da surpresa com um sorriso sincero.

_ Ela é linda, Júlio!

_ É sim. Vai fazer treze semana que vem.

_ Que sorte a dela. Você sempre foi muito prestativo com as meninas desta idade.

_ A sorte é minha por esbarrar com mulheres incríveis desde os tempos de escola.

Flávia sorri e uma lágrima escapa sorrateiramente de seu olho.

_ Foi um prazer reencontrá-lo, Júlio. Bom filme para vocês.

_ O prazer é meu, Flávia.

Se abraçaram fortemente, trocaram um beijo no rosto e antes de se distanciarem, Júlio disse no ouvido dela:

_ Espero que não se esqueça que te esperei.

_ Esse é o tipo de coisa que não esquecemos nunca.



Confiante e determinada, Flávia segue seu caminho atraindo os olhares masculinos ao seu redor. Ainda que sozinha, não há porquê ter medo de cair. Decide passar em uma loja de artigos esportivos antes de voltar para o trabalho. Já estava mais que na hora de Flávia arriscar-se em sua própria bicicleta.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Revelação

O objetivo do terrorismo é promover o terror. Há três meses ele fez seu primeiro contato. Lembro de pensar tratar-se de alguma brincadeira. Recebi no celular o torpedo que dizia: “Eu conheço seu passado”. Não havia como responder, pois a mensagem fora enviada de um número restrito. Toquei minha vida dentro da normalidade. Beijei minha esposa e filha antes de ir trabalhar. Dias depois, recebi um e-mail ameaçador: “O silêncio custa caro.” O que poderia ser isto? Algum tipo de vírus?


Uma semana depois, foi a vez do Orkut me surpreender com um depoimento: “O que seus amigos vão achar quando eu revelar seu maior segredo?” O perfil do usuário sequer possuía uma foto ou qualquer outro elemento que o identificasse. Fiz mentalmente uma lista de prováveis pessoas que conhecesse bem minha vida e que estariam dispostas a me prejudicar. Suspeitei de algumas ex-namoradas, mas não acho que nenhuma delas seria tão engenhosa para armar esse tipo de vingança. Colegas do tempo de escola que peguei no pé? Talvez. Admito que já aprontei bastante na juventude, mas não me lembro de nada que fosse digno de ser usado como chantagem contra mim.

Alguns dias se passaram e o Facebook indicava uma nova mensagem: “Sua família seria capaz de suportar a verdade?”

Respondi a provocação exigindo que se identificasse e dissesse de uma vez por todas o que queria de mim. Só fui respondido no final daquela semana quando entrei no MSN e um tal “O Vigia” surgiu online. “Você não sabe quem sou" – dizia ele – "mas eu o conheço muito bem. Não espero nada de você, apenas desejo que todos saibam do que foi capaz.” Tentei fazer algum acordo. Ofereci o dinheiro que eu guardava no banco para comprar um barquinho, mas ele demonstrou desinteresse em qualquer propina. “Só o que me interessa é desmascará-lo. Não há nada que você possa me oferecer que me faça desistir de minha missão.” Dizendo isto, desconectou-se.

Contratei um detetive particular com experiência em crimes virtuais. Ele tentou rastrear a origem das mensagens, mas todas as suas investidas só nos levaram a um labirinto cada vez mais complexo e insolúvel.

As ameaças ainda se espalharam por todos os sites de relacionamento que eu fazia parte (alguns eu nem lembrava que possuía conta). Foi no Badoo que ele deixou seu último recado: “À meia-noite deste domingo abrirei a caixa de Pandora. Todos saberão o que tentou esconder por tantos anos. Aguarde.”

Ele estava obstinado. Lutei da maneira que me era possível, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Minha esposa, minha filha, meus colegas de trabalho, todos perceberam que algo acontecia comigo. Tenso, já não conseguia dormir ou comer.

Finalmente, chegou o dia da revelação. Temendo a reação de todos, vim parar neste quarto de hotel de quinta categoria com meu laptop. São 23:52h. Em oito minutos ele divulgará em todas as redes sociais o fantasma que sequer desconfiava de sua existência e hoje me assombra.

...

23:55h.

Não há nada que eu possa fazer agora, senão esperar.

Ou será que há?

Num rompante, vasculhei meus contatos na agenda do meu celular. A primeira ligação que fiz foi para minha esposa que, preocupada, quis saber onde eu estava. “Apenas me ouça, amor. Meu tempo é muito curto. Eu te traí com sua melhor amiga e com sua irmã. Sinto muito, mas preciso desligar!” Em seguida liguei para minha mãe: “Lembra do nosso cachorro, o Paschoal? Eu disse que ele caiu da laje, mas fui eu quem o empurrou! Papai está em casa? Deixa eu falar com ele! Pai? Sabe o dinheiro que sumiu do seu cofre? Fui eu! E gastei com bebidas e prostitutas!”. O próximo seria meu patrão: “Chefe? Desculpe te acordar, mas preciso te dizer que todo dia cuspo em seu café e tenho maior tesão na sua mulher. Boa noite!”


Não daria tempo de ligar para todos. Tentei lembrar de tudo que mantive em segredo por anos e encaminhei como mensagem para todos os meus contatos na Internet. Confessei minhas mais íntimas experiências citando o nome de todos os envolvidos. Já que serei desmascarado, farei isso eu mesmo. Não deixarei nenhum segredo para ser revelado por este maldito terrorista ou por qualquer outro. Sou um livro aberto agora. Sei que sofrerei as conseqüências de tudo que disse esta noite, mas que seja assim. Que o véu seja retirado com minhas próprias mãos.

Meia-noite.


O laptop permanece conectado com a página do site que mais freqüento. No topo da página, um aviso diz que há uma nova atualização. Com a mão trêmula, pressiono a tecla F5. A página demora poucos segundos para atualizar, o que me pareceu horas. Enfim, a página reabre. O terrorista publicou uma foto minha quando eu era adolescente fazendo biquinho e um coração estilizado com as mãos. Em baixo, lia-se a seguinte mensagem: “Este usuário já teve perfil no Flogão.”

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Intolerável

O recém-casado jacaré voltava para casa depois de um dia de muito trabalho no Pantanal. Assim que chegou, sua esposa anuncia o cardápio da noite.


_ Olá, querido! Hoje preparei para você minha especialidade: sapo ao molho madeira!

_ Nossa, amor... Bacana, mas lembra que eu te disse que eu não como sapo?

_ Ora, deixe disso! Todo jacaré que se preze come sapo!

_ Mas me dá uma tremenda má digestão! Fico todo me coçando sem falar nos gases!

_ Deixe de ser resmungão! Preparei com todo carinho! O segredo é não mastigar! Abra essa bocarra e engula inteiro.

Para evitar confusão, o senhor jacaré resolveu, a contragosto, aceitar a iguaria.

Toda satisfeita e convencida de estar agradando seu marido, a dona jacaré passou a preparar sapo todas as noites. Como bom esposo, o jacaré fazia este sacrifício sem reclamar, devorando seu jantar sem mastigar e sem fazer cara feia.

Com o tempo, o simples coaxar de uma reles perereca fazia o estômago do jacaré dar reviravoltas. Não dava para manter por mais tempo esta dieta anfíbia. À noite, quando sua mulher o servia com mais um sapo rechonchudo, o jacaré protestou:

_ Sinto muito mais não dá mais para mim!

_ Como assim? Achei que você já estivesse gostando!

_ Eu odeio! Não suporto mais sentir o cheiro de sapo! Me dá engulho!

_ Como você tem coragem de criticar assim a comida que faço para você? Você é um ingrato! Um grosso!

_ Agora quer que eu me sinta culpado por não tolerar sapo?

_ Você não tolera nada! Bem que minha mãe avisou! Não sabe apreciar as coisas boas que faço por você! Se quiser comer pode se virar por aí, pois eu é que não perco mais meu tempo te paparicando seu, seu... Seu crocodilo!!

Ela pegou pesado. Xingá-lo de intolerante é uma coisa, mas crocodilo é humilhação demais. A fim de não prolongar aquela discussão, o jacaré resolveu sair para espairecer e encontrar algo para jantar. Atraído por um belo pedaço de carne fresca, caiu em uma armadilha. Os caçadores o mataram e arrancaram seu couro para ser vendido a uma confecção especializada em carteiras, pastas e bolsas de viagem.

Pobre jacaré. Ele aprendeu da pior maneira que no casamento é assim: Ou você aprende a engolir sapo ou você acaba virando um “mala”.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O Bom e Velho Clichê

Meu encanto pelo cinema já andava comprometido há tempos graças ao advento de uma nova tecnologia inserida nas salas de exibição: o celular. Apesar dos inúmeros avisos de que os aparelhos devem ser desligados durante a sessão, o público parece estar convencido de que ringtones podem ser perfeitamente diegéticos com a narrativa fílmica.
Em uma dessas lamentáveis situações, estávamos minha namorada e eu assistindo uma película hollywoodiana quando na tensa cena de perseguição começa a tocar “Rebolation” do grupo Parangolé. O cidadão há duas fileiras atrás de nós atende o celular explicando que não poderia falar agora, pois estava no cinema. Segundos depois o mesmo toque volta a fazer parte da trilha sonora do filme, desta vez por mais tempo, como se o rapaz se recusasse a atender. Por fim, atendeu e se colocou a discutir em alto e bom tom. Acompanhando o andamento daquela inconveniente conversa, deu pra sacar que era a mulher dele do outro lado da linha. Apesar dos retumbantes protestos por parte dos cinéfilos presentes, tal interrupção se deu mais quatro vezes ao longo do filme. A essa altura eu só pensava em comprar o DVD pirata para conseguir assistir o filme no conforto e silêncio do meu lar.
Já do lado de fora, decidimos comer uma pizza e lá estavam o rapaz do celular e a mulher que concluímos ser a esposa dele. A discussão continuou ali, desta vez frente a frente.
“Por que as pessoas se colocam num papel tão ridículo como este?”, perguntou minha companheira, indignada com a boçalidade daquele casal.
“Bom, - disse em resposta – acho que as pessoas complicam demais. Viver é um roteiro simples e repetitivo, basta respeitar certas regras. O que consideramos ridículo acaba caindo no senso comum.”
_ Como celular no cinema e briga de casal em público.
_ Ou ouvir “Rebolation”!
_ Hehehe! Espero nunca chegarmos a esse ponto.
_ O segredo da felicidade é o clichê.
_Como assim?
_ Este filme que acabamos de assistir, por exemplo. O roteiro é o mesmo de centenas de outros filmes! Conflito, perseguição, resgate... Todos os elementos da narrativa clássica e seus arquétipos. Há uma razão para o clichê ter se tornado clichê: Repita quantas vezes quiser, sempre funciona!
_ E o que isto tem a ver conosco?
_ Esse casal discutindo... Aposto que eles discutem sempre e sempre pelos mesmos motivos. Não chegam a lugar nenhum e apenas complicam ainda mais a relação. Para evitar isso, bastava encerrar a briga com um “ah, deixa disso e me dá um beijo!” ou “Eu só sei que eu estava morrendo de saudades de você...”
_ Que canalhice!
_ Canalhice não! É só o bom e velho clichê!
_ Não sei se concordo... Pra mim isso não resolve nada!
_ Mas se não vai resolver de todo modo, melhor encerrar a discussão de uma forma bem humorada e funcional! Já escolheu a pizza?
_ Prefiro que você escolha.
_ Tanto faz, você decide.
_ Nada disso! Você sabe que eu fico super indecisa com tantas opções! Você sempre me faz decidir no final!
_ Será que você não entende que eu faço isso por me importar com sua opinião?
_ Entendo muito bem! Quem parece não entender direito as coisas aqui é você!
_ Caramba! Do que você está falando?
_ Acho que você nunca vai entender...
_ Não estou realmente entendendo mais nada! Como começou essa discussão boba? Dá pra ser mais clara e me dizer o que eu não entendo?
_ Você nunca entenderá... O quanto te amo!
_ ...Hunf... (tento disfarçar o sorriso) Canastrona...
_ Eu aprendo rápido!
_ Quatro queijos.

domingo, 19 de junho de 2011

Agonia Coletiva

Eu daria minha vida para que você me amasse , ainda que por um minuto,mesmo que para isso minha alma fosse condenada à perpétua tortura dessa lembrança...
Remoendo a minha perda que me destrói um pouco a cada dia...
A agonia em simples gesto de aproximação,de um coração cada vez mais longe, me diz o que faço pra me afastar de onde não quero ficar...
Sinto seus olhos brilhando como um farol em meio à escuridão...
Mas como posso me mostrar se só quem me conhece é minha solidão.E na febre do meu silêncio deliro clamando teu nome...
Porém quem poderá me ouvir se meu clamor é mantido mudo pela sua autosuficiência...
Meu desejo é quase indecente, quase morno, quase quente , quase insolente.Por isso me calo aflito num grito silencioso e quase permanente...
Então sem forças me entrego ao cárcere da tua imagem e entre espasmos de loucura encontro minha lucidez silenciosa...
Como em um sonho me encontro caminhando em nuvens ,enquanto tu estás enfrentando tudo aquilo que não te convém,porém acordo e me vejo cercado por antigos fantasmas, vivendo uma vida que nunca dá certo...
Sombrio destino incerto, sou um inseto em vôo rasante que implora um instante de glória.Humanamente de sua ansia me alimento, me sacio , me alento , e de sua pouca atenção me contento...
Fujo desse ciclo para não me perder pois por onde olho vejo você.sinto minha alma sofrer como uma bruxa na inquisição, e a cada vez que me olho no espelho, menos me reconheço...
E ao ver tua imagem refletida em minha face, percebo que quanto mais me fasto mais próximo estou, e quanto mais me odeio, mais te amo.E assim tem sido nossa existência , perfeita como luz e sombra, que sabem muito bem o espaço a qual merecem .E respeitam a simetria da vida, pois sabem que se um não existisse o outro não teria sentido.
autores:(José Cleverlandes / Eduardo Pará / Luciano Santiago)

domingo, 22 de maio de 2011

Atrasado Não Adianta

Ainda não entendi a escolha desse nome, mas muitas coisas são complexas quando o assunto é Hugo Leonardo. Essa foi uma proposta sugerida e editada por mim e que meu amigo resolveu encarar. Assistam e divirtam-se (espero)!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Palestra

Bom, desde o início eu sabia que seria impossível transmitir em apenas duas horas o universo de informação que havia para passar, mas, no geral, posso afirmar que a experiência foi compensadora. Estou contente com o resultado e ansioso por um novo convite. Destaque especial a todos os presentes que participaram com entusiasmo. Espero de coração que minhas palavras tenham somado algo positivo. Obrigado equipe Seven pela oportunidade.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Heroísmo e Justiça

A vida não é justa.
A morte muito menos.
Meu pai nunca soube o que é vida fácil. Desde criança trabalhou duro para levar comida para casa. Percorria quilômetros para buscar água. Aprendeu o ofício de ladrilheiro e dessa forma sustentou esposa e filhos. Sempre tive uma meta em minha vida: oferecer a meu pai uma vida mais confortável. Dar a ele o descanso que nunca se deu ao direito. Fiz o que pude, mas sempre fica aquela sensação de que eu poderia ter feito um pouco mais. Se for para levar em conta o merecimento de meu pai, meus esforços sempre ficariam aquém de seu mérito.
O descanso chegou até meu pai de maneira compulsória. O sono pesou em seus olhos e o levou forçosamente a um repouso profundo e irretornável.
Meu pai foi sepultado em um domingo de sol, sem direito a clichês cênicos, sem lirismos ou luxo. Tudo muito simples, exatamente como ele gostaria que fosse. Se houvesse justiça, a morte deste gigante não passaria despercebida aos olhos do mundo. Se houvesse justiça seu corpo seria transportado com honras de Estado em um ataúde de mármore carrara, mogno e ouro sobre um caminhão do Corpo de Bombeiros cercado por uma multidão cantando, aplaudindo e soltando pássaros. No céu, pequenos monomotores praticando acrobacias aéreas soltariam pétalas de rosas brancas. No estádio do Engenhão, o time do Botafogo e seus torcedores fariam um minuto de silêncio. Roberto Carlos dedicaria uma canção a seu fã. A presidente faria um pronunciamento lamentando tamanha perda. A morte de meu pai ganharia destaque nos próximos calendários para que jamais esquecêssemos do dia em que perdemos um exemplo de dignidade, caráter e hombridade.
Isso tudo se houvesse justiça.
Sem grandes eventos, meu pai se foi. Assim como optou em vida, ele partiu de maneira discreta. Sem alardes, sem espetáculos e sem caprichos. O que jaz enterrado não é mais ele. É apenas o invólucro inútil. Meu pai está em cada abraço que me consola, em cada aperto de mão que lamenta a despedida. Meu pai está nas histórias engraçadas que recordamos. Ele está nos atos que ficarão para sempre na memória de muitas pessoas agradecidas por tudo que ele fez sem esperar nada em troca. Meu pai está em mim e na responsabilidade que assumo de honrar seu nome.
Assim como todo herói, meu pai permaneceu anônimo, protegido por uma identidade secreta, de modo que seu desfecho se deu sem ruídos e sem inimigos.
Minhas palavras são tolices. Um desabafo de quem, assim como tantos, não consegue admitir a perda de seu ídolo. Puro egoísmo, pois é este o caminho que todos seguiremos e não nos cabe protestar por quem partirá primeiro.
Pai, nem a vida nem a morte são justas, mas seu descanso se dá com a certeza de dever cumprido. Um coração sereno que cumpriu sua função até o último pulsar e uma consciência tranqüila de quem partiu sem nada dever.
Feche os olhos e deixe o sono te levar. O raro e precioso sono dos justos.
Eu te amo, pai.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Uma Fortaleza Chamada José Elias Sobrinho



Imaginem uma muralha inabalável. Uma edificação sólida e intransponível. Uma fortaleza imune à rudeza dos temporais e da vida.
Este é meu pai.
Rachaduras se mantinham ocultas em sua armação, de modo que seu desgaste se deu lenta e silenciosamente.
Façamos de nossas preces a liga que acentará as pedras em seu devido lugar.
Leve o tempo que for necessário, pai. Não há pressa. Quando estiver de volta, o alicerce estará ainda mais seguro.

Tartaruga Cor-de-Rosa

Tartaruga cor-de-rosa criou-se no meu jardim
Quando não faço comida, ela quem faz para mim
Tartaruga cor-de-rosa, ela é uma beleza
Ela gosta muito de mim, gosta de fazer surpresa

Um dia cheguei em casa e a encontrei chorando
E antes que eu dissesse algo, ela já estava perguntando
"Onde foi que você andou? O que foi que aconteceu?
Eu ouvi por aí dizendo que você morreu!"

E eu fiquei muito contente e ela toda prosa
E é por isso que eu amo a tartaruga cor-de-rosa

(José Elias Sobrinho)


quinta-feira, 31 de março de 2011

Pedaços Soltos

Vinte minutos. Márcia não é de se atrasar. Eis uma coisa que não posso me queixar. Ela sempre foi pontual com seus compromissos. Na verdade não há nada que me desagrade nela que eu me lembre (fora aquela mania chata de me obrigar a assistir os filmes do Almodóvar que ela tanto gosta). Márcia foi uma esposa perfeita. Como a deixei escapar?
Desde da separação mantemos contato e nos tratamos de maneira civilizada. A cada quinze dias nos encontramos aqui na praça. Ela traz nosso filho para passar o final de semana comigo. Ela é uma excelente mãe.
Por que ela está atrasada? Cada minuto sentado aqui neste banco aproxima minha mente de lembranças que me enchem de culpa. Tudo bem, eu nunca fui santo. Já errei muitas vezes. Estive com outras mulheres quando casado. Da última vez que aprontei, cheguei em casa de madrugada alegando ter que ficar na firma até mais tarde quando na verdade eu estava com a Ingrid (ou teria sido a Rebeca?). De manhã, sentei à mesa e puxei assunto enquanto tomava café. Márcia respondia em monossílabos sem me olhar nos olhos. Peguei um pedaço do bolo de cenoura para disfarçar meu nervosismo.
_ Hmmm... Delícia! Ninguém faz um bolo de cenoura como você, amor!
_ Gostou desse?
_ Se gostei?! Nossa! Desta vez você se superou! Sem dúvidas é o melhor bolo de cenoura que você já fez!
_ Melhor que o que eu fazia para você no início do nosso namoro?
_ Infinitamente melhor! Você me surpreende a cada dia!
Fui para o trabalho e quando cheguei em casa ela não estava lá. Márcia se foi levando nosso filho e algumas roupas. Dias depois chegou o pedido de divórcio.
Sempre fui muito astuto e cuidadoso com meus “pulinhos de cerca”. Seja como for, nunca tive coragem de puxar assunto. Apenas aceitei os termos da separação sem questionar. O que de fato a motivou tomar essa decisão depois de doze anos de relacionamento?
Finalmente ela chegou. Nossa... Ela está mais linda que nunca.
_ Oi, Paulo. Desculpe o atraso. O trânsito esta hora é bem complicado.
_ Oi, papai!
_ Oi, garotão! Tudo bom? Espera só um pouquinho ali no balanço que eu preciso falar com sua mãe, ok?
Nosso filho prefere a gangorra e faz amizade rapidamente com outra criança.
_ Olha, Márcia... Já faz um ano que nos separamos. Desde então eu venho pensando sobre tudo que fiz de errado e não há nada mais fantasmagórico para uma mente culpada que não saber a razão de seus remorsos. Fugi da verdade por muito tempo, mas não suporto mais... Por que você foi embora?
_ Bom... Você me pegou de surpresa. Não penso mais nisso faz tempo. Mas, se precisa de uma reposta, eu diria que foi uma coleção de pequenas coisas que se tornaram enormes. Pequenos descuidos, desleixos, vacilos... Até que cheguei ao limite.
_ Certo... E qual foi a gota d’água?
_ Certa vez, quando éramos namorados, eu disse a você que tolerava qualquer coisa, menos traição.
_ Eu sabia! Sabia que era isso! Não faço ideia como você descobriu meus casos, mas eu sinto muito! Saiba que desde então estou sozinho! Não consigo me relacionar com mais ninguém! Me perdoe, mas saiba que foram apenas aventuras idiotas!
Márcia olhou para o chão e seu semblante ressurgiu com um sorriso delicado e um olhar de compreensão.
_ Vocês homens... Acham que tudo tem a ver com sexo! Sempre soube que você era um safado, mas agradeço por confirmar. Eu desconfiava de suas armações, mas preferia fingir que era coisa da minha cabeça. Há muitas outras formas de se trair alguém, Paulo. Mentir é uma delas. Desconfiança, intolerância e desrespeito. Ignorar as necessidades do outro, esquecer seus deveres, faltar com a cumplicidade, agir com desafeto,
_ Fui tão ruim assim?
_ Não foi, Paulo. Estes são só alguns exemplos de traição. Esqueça as outras mulheres. O muro que nos afastou foi a soma de vários pedaços soltos. Alguns desses pedaços também foram espalhados por mim. Eu só juntei os cacos e tomei uma decisão.
Apesar de confuso, concordo devolvendo um olhar de compreensão.
_ Agora preciso ir, Paulo. Tenho compromisso e, você sabe, detesto me atrasar.
_Compromisso?!
_ Não que seja da sua conta – disse ainda sorrindo – ,mas só porque não consegue se relacionar com ninguém, não quer dizer que eu não consiga. E olha... Se realmente quer saber qual foi a gota d’água... Foi o bolo de cenoura.
_ O bolo de cenoura?!
_ O bolo era de laranja. E nem fui eu que fiz. É da padaria do Tião. Você sempre elogiou meu bolo de cenoura, mas nem sequer notou diferença.
Márcia entra no carro e se despede mandando um beijo no ar para nosso filho.
_ Papai, aonde vamos?
_ Onde você quiser, filho... Mas antes preciso passar na locadora de vídeo... Acho que não dei a devida atenção aos filmes de Almodóvar. Depois vamos à padaria do seu Tião.
_ Padaria?!
_ Pois é... Me bateu uma vontade enorme de comer bolo de laranja.

sábado, 19 de março de 2011

Palestras (Workshop) dia 29/4/2011

"Cliver de Oliveira"?!
De onde esse povo tira essas ideias?
Seja como for, eis aí o convite. Clique na imagem para ampliá-la.
Atenção: As palestras do dia 22/4 serão realizadas no dia 29/4, devido ao feriado da semana santa.